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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A compatibilidade da Revelação com a Razão Humana


"A revelação objetiva de Deus visa a mostrar seu autor; logo, ela não teria nenhum valor se não houvesse potencialidade de recepção subjetiva. Sem isso, seria uma revelação que não se tornaria acessível. Seria o equivalente a um intérprete verter para o inglês as palavras de um orador alemão a um auditório que só entende o português. Ele traduziria para o auditório as palavras do orador, mas não revelaria verdadeiramente o conteúdo da mensagem, pois ninguém o entenderia.
Deus se revela sabendo que há a possibilidade de ser entendido, pois ele mesmo criou o homem e o dotou com essa capacidade. Entretanto, a não compreensão do homem não inutiliza o valor da revelação de Deus. Ela existe independentemente da apreensão humana. O pecado corrompeu o intelecto, a vontade e a faculdade moral do ser humano; ele está morto espiritualmente, sendo escravo do pecado (Gn 6:5; 8:21; Jo 8:34,43-44; Rm 3:23; 6:6,23; Ef 2:1; Cl 1:13; 2:13).
Isso se chama depravação total. Ainda que o homem não seja absolutamente mau - não é tão mau quanto poderia -, é extensivamente mau; todo o seu ser está contaminado pelo pecado. Em consequência, ele tornou-se positivamente mau (Gn 6:5; 8:21; Mt 7:11). Ainda assim, o pecado não destruiu a possibilidade de percepção.
O conhecimento humano consiste sempre em uma relação lógica entre sujeito e objeto; visto que o sujeito só é sujeito para o objeto,e , por sua vez, o objeto só o é para um sujeito, assim, a revelação objetiva reclama alguém, e este alguém (objeto) só o é enquanto recebe de forma adequada a revelação.
A razão é o instrumento de que dispomos, pela graça de Deus, para descobrir a sabedoria divina no mundo; é o principium cognoscendi internum da ciência. Entendemos que o conhecimento também se dá pela experiência; contudo, cremos que o espírito humano traz consigo certas categorias que lhe são inerentes, as quais não podem ser apreendidas pela experiência. Assim, a experiência não é necessariamente a fonte de todo o conhecimento". (Hermisten Maia, Fundamentos da Teologia Reformada,Editora Mundo Cristão).


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

As promessas da Aliança se estendem até aos nossos filhos


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Desde o Dia 25 o Catecismo de Heidelberg vem tratando dos sacramentos, mais necessariamente sobre o Batismo, pois dos Dias 27-30 o Catecismo irá tratar sobre a Santa Ceia. Diante de tanta confusão sobre os Sacramentos, a Reforma decidiu ficar com o testemunho das Escrituras, pois para a religião predominante da época (e infelizmente para alguns evangélicos atuais) o Batismo (assim como a Ceia que será tratada mais adiante) era sobrenatural com poderes miraculosos.

No entanto, os Reformadores não só combateram os erros aplicados aos Sacramentos como mostraram que o Batismo, por exemplo, nos garante as promessas da Aliança estabelecida pelo próprio Deus:

A) Elas são reais e seguras

72. Então, a própria água do batismo é a purificação dos pecados?
R. Não (1), pois somente o sangue de Jesus Cristo e o Espírito Santo nos purificam de todos os pecados (2).

(1) Mt 3:11; Ef 5:26; 1Pe 3:21. (2) 1Co 6:11; 1Jo 1:7.
73. Por que, então, o Espírito Santo chama o batismo "lavagem da regeneração" e "purificação dos pecados"?
R. É por motivo muito sério que Deus fala assim. Ele nos quer ensinar que nossos pecados são tirados pelo sangue e Espírito de Cristo assim como a sujeira do corpo é tirada por água (1). E, ainda mais, Ele nos quer assegurar por este divino sinal e garantia que somos lavados espiritualmente dos nossos pecados tão realmente como nosso corpo fica limpo com água (2).

(1) 1Co 6:11; Ap 1:5; Ap 7:14. (2) Mt 16:16; Gl 3:27.

As promessas contidas nas explicações das P/R 72 e 73 é que o único meio de um pecador ser lavado de seus pecados é por meio do sangue de Jesus Cristo, não há outro meio do pecador ficar mais alvo do que a neve (Is 1.18), se Cristo não lava-lo com Seu sangue. No entanto, se o batismo não nos lava da mesma forma que o sangue de Cristo, então por que receber o sinal do batismo? Creio que para explicar essa pergunta vale uma ilustração: Um rapaz viaja a trabalho. Ele vai passar uma temporada fora de seu estado, longe de sua família principalmente de sua noiva. Pois, segundo os seus planos, em seu retorno, eles irão se casar. Durante esse tempo longe de casa o noivo mantém contato com sua noiva pelas redes sócias e telefonemas. No entanto, mesmo com todos esses contatos diariamente, ele mantém guardado em seu celular uma foto de sua noiva a qual ele a olha todos os dias. Em certo dia, seus amigos de trabalho o percebem olhando para a foto e perguntam: “Quem é ela?”. Ele responde: “É minha noiva, vou casar com ela quando eu voltar”.


Pense um pouco. O rapaz possui um celular com uma imagem de sua noiva, que é uma representação dela. Quando ele ouve a pergunta de seus amigos, ele levanta o celular e diz: “É minha noiva”. Será que ao dizer que se casaria com ela, os amigos entenderiam que ele se casaria com aquele celular com foto da noiva? De forma alguma. Todos nós sabemos que essa foto representa a noiva do rapaz, mas essa representação é tão viva que o rapaz pode até afirmar categoricamente que é a foto é como se fosse sua noiva mesmo.

Da mesma forma é o sacramento, ele é uma representação de uma realidade. O símbolo não tem poder em si mesmo, mas aquilo na qual ele representa é tão vivo e real que nos faz ter a certeza de que, aquilo que fora aplicado externamente, Cristo com Seu sangue, por meio do Espirito Santo, nos lavaram internamente.

B) São para nós e nossos filhos

74. As crianças pequenas devem ser batizadas?
R. Devem, sim, porque tanto as crianças como os adultos pertencem à aliança de Deus e à sua igreja (1). Também a elas como aos adultos são prometidos, no sangue de Cristo, a salvação do pecado e o Espírito Santo que produz a fé (2).

Por isso, as crianças, pelo batismo como sinal da aliança, devem ser incorporadas à igreja cristã e distinguidas dos filhos dos incrédulos (3). Na época do Antigo Testamento se fazia isto pela circuncisão (4). No Novo Testamento foi instituído o batismo, no lugar da circuncisão (5).

(1) Gn 17:7. (2) Sl 22:10; Is 44:1-3; Mt 19:14; At 2:39. (3) At 10:47. (4) Gn 17:14. (5) Cl 2:11,12.

Após o Catecismo nos mostrar que o único meio de nossos pecados serem lavados é por meio do sangue de Cristo no lavar regenerador do Espírito Santo, ele nos mostra que este sinal, o qual nos aponta para uma viva e real esperança, devem ser aplicados nas crianças.


E por quais motivos este sinal deve ser aplicado? O Catecismo enumera dois:

Primeiro, o Catecismo nos mostra que o batismo das crianças de pais crentes serve para distingui-los dos filhos dos descrentes, pois Deus sempre tratou a família como uma unidade e não como membros distintos:

Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos(1Co 7.14);
E uma certa mulher, chamada Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e que servia a Deus, nos ouvia, e o Senhor lhe abriu o coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia. E, depois que foi batizada, ela e a sua casa, nos rogou, dizendo: Se haveis julgado que eu seja fiel ao Senhor, entrai em minha casa, e ficai ali. E nos constrangeu a isso (At 16.14,15);
E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa (At 16.31).

Isso nos mostra que Deus faz com que as crianças participem do mesmo Pacto em que seus pais estão marcando a sua entrada no Pacto da mesma forma que era feito na Antiga Aliança.

Sendo assim, a ultima enumeração do Catecismo que nos mostra o motivo de batizar nossos filhos é que o batismo tem a mesma função da circuncisão na Nova Aliança. No entanto, algumas pessoas fazem objeção dizendo que o batismo é para aqueles que têm a capacidade de se arrepender. Concordo, e creio que aqui vale algumas explicações. Vimos acima que o batismo é um sinal externo daquilo que fora ocorrido internamente. Ou seja, a lavagem com a água externamente representa a lavagem com sangue que ocorrera internamente. Da mesma forma, é a circuncisão. Um ato externo, de cortar o prepúcio, na Antiga Aliança, era comparado com tirar o “prepúcio” do coração como sinal de humildade, novo nascimento e um novo modo de vida:

Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10.16);
E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” (Dt 30.6);
Circuncidai-vos ao Senhor, e tirai os prepúcios do vosso coração” (Jr 4.4).

Da mesma forma na Nova Aliança:

De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Rm 6.4);
Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2.12);
E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que crêem, estando eles também na incircuncisão; a fim de que também a justiça lhes seja imputada” (Rm 4.11).

Veja, tanto no Antigo Testamento como no Novo a circuncisão e o batismo eram vistos como sinais de uma graça invisível. Agora, se nos dois Testamentos tanto a circuncisão como o batismo eram vistos como questões internas demonstrando um novo nascimento, por que era aplicado em crianças, sendo que elas não tinham consciência para crer e se arrepender (cf. Jl 2.16)? Obediência e esperança na promessa.

Em Gn 15 Deus instituiu uma aliança com Abraão. Essa aliança foi selada com o sinal da circuncisão (Gn 17) e a promessa era que tanto Abraão como seus filhos seriam abençoados (Gn 17.7,8). E mesmo assim, Abraão sabendo sobre quem era o filho prometido, ele circuncida Ismael e Isaque como sinal de obediência (Gn 17.25; 21.4). Da mesma forma os pais da Nova Aliança batizam seus filhos tendo em vista a mesma obediência e promessa. Obediência porque Paulo nos mostra que a aliança abraamica está em vigor mesmo após a morte de Cristo (cf. Gl 3) e promessa, porque é a mesma feita em Gn 15:

E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo. Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” (At 2.38,39).

Conclusão

Mesmo que nossos filhos não sejam salvos temos que cumprir com o mandamento, assim como fez Abraão circuncidando Ismael, pois nós não sabemos quem será salvo ou não. No entanto, cremos nas promessas de Deus de salvar nossa família. Não obstante, o batismo infantil não é somente um ato de fé, mas de responsabilidade. Uma responsabilidade que leva os pais entender que dos tais é o reino dos céus (Mt 19.14), que a Bíblia deve ser ensinada a eles continuamente (Dt 6.6-8) e que devem participar do culto também, pois se são participantes do pacto, eles também possuem um relacionamento pactual com Deus. Portanto, cumpramos com aquilo que prometemos diante da igreja quando fomos batizar nossos filhos.

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Autor: Denis Monteiro
Fonte: Bereianos 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Desejos do Homem e Novo Nascimento

Desejos do Homem e Novo Nascimento
João 3:16  


“Tendo Deus ressuscitado o seu Servo, enviou-o primeiramente a vocês, para abençoá-los, convertendo cada um de vocês das suas maldades” (Atos 3:26).

“Uma pessoa só pode receber o que lhe é dado dos céus” (João 3:27) .


Frequentemente me pego debatendo com cristãos que acreditam que homem e Deus têm papéis iguais na regeneração (sinergistas) e que nossa escolha é o sine qua non do novo nascimento. Eles argumentam que Deus dá a todos a graça preveniente, mas o homem pode exercer seu livre-arbítrio autônomo para fazer a graça eficaz. Estes cristãos ensinam que o homem escolhe a Cristo apesar de seus desejos e isso é o que faz sua vontade livre. Escolher algo diferente de seus desejos constitui verdadeira liberdade para eles, já que a liberdade está acima e é independente de todas as outras influências. Mas é isto o que a Bíblia ensina?

O primeiro alvo deste texto é provar pelas Escrituras que nós sempre escolhemos o que nós queremos (desejamos) mais e que isso é baseado em nossa natureza. Nós escolhemos alguma coisa porque nós a desejamos. Em outras palavras, nós acreditamos em Jesus porque nosso desejo por Cristo se torna maior que nosso desejo pelo pecado. O segundo alvo é explorar de onde esse desejo vem. Ele vem de nossa natureza degenerada (como os sinergistas crêem) ou ele é um dom incondicional de Deus? Meus amigos sinergistas dizem que, utilizando a graça de Deus, apesar de nossos desejos, nossa vontade autônoma definitivamente determinará nosso destino final. Eu argumentarei porque essa posição é fatal para seu sistema teológico inteiro.

Nós Escolhemos O Que Nós Desejamos Mais

Vamos começar com alguns textos bíblicos que ensinam que nossa natureza determina nossos desejos e nossos desejos determinam nossas escolhas. Cristo diz:
“O homem bom tira coisas boas do bom tesouro que está em seu coração, e o homem mau tira coisas más do mal que está em seu coração, porque a sua boca fala do que está cheio o coração” (Lucas 6:45).

O que Jesus diz aqui é claro – a água não corre contra a correnteza. Nossa decisão de dizer algo bom ou ruim é somente determinada pela condição de nosso coração. Há uma grande evidência para o mesmo conceito em Mateus 7:18.
“A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons”.
Aqui, Jesus está ensinando que é a natureza da árvore que determina o que virá dela. Somente aquele que tem uma boa natureza é capaz de criar um pensamento correto, gerar uma afeição correta, ou originar uma volição correta. Jesus martela novamente o mesmo conceito nos judeus incrédulos, quando discute se eles são ou não descendentes de Abraão:
“Por que a minha linguagem não é clara para vocês? Porque são incapazes de ouvir o que eu digo. Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira (...) Aquele que pertence a Deus ouve o que Deus diz. Vocês não o ouvem porque não pertencem a Deus”. (João 8:43,44,47)
Na passagem acima, os judeus não puderam ouvir a palavra de Deus porque eles pertenciam ao diabo (suas naturezas) e isso aumentou suas vontades de fazer o que desejavam. Suas naturezas os tornaram moralmente impotentes para ouvir as palavras de Jesus. Mais tarde, Jesus ensina que antes de alguém ouvir as palavras de Deus, ele deve ser de Deus. Em outras palavras, uma pessoa não entenderá o evangelho enquanto permanecer em seu estado não regenerado e decaído.
Deus Exige Perfeição
Na história do jovem rico, Jesus o ensina que se ele obedecer todos os mandamentos, ele terá a vida eterna. Todos nós sabemos que esta história foi contada para expor nossa inabilidade de cumprir tudo isso. Mas o jovem (equivocadamente) confiava que ele guardou tudo desde sua juventude. Jesus, conhecendo seu coração e onde ele vacilaria, ordena que o rapaz venda todas suas posses, dê aos pobres e o siga. Em outras palavras, Jesus lhe disse que o arrependimento de sua ganância e a fé em Cristo eram onde ele ainda falhava. Mas ele se afastou entristecido. Jesus então diz a seus discípulos que é mais difícil que um homem rico entre no Paraíso que um camelo passar por um buraco de agulha. “Quem então poderá ser salvo?”, os discípulos perguntam, sabendo que Jesus está dizendo que o caminho para o céu está fechado a todos os homens – um padrão santo que ninguém poderia alcançar. A resposta que Jesus dá é “Para o homem é impossível (arrependimento e fé), mas para Deus todas as coisas são possíveis”. A natureza do jovem não poderia se colocar acima de seus desejos e Jesus diz que isso é impossível para todos os homens. Apenas Deus tem a capacidade de fazer isto. A Bíblia é recheada com exemplos assim. É realmente um mito que o homem em seu estado natural está genuinamente buscando a Deus. Homens podem procurar um deus, mas eles não procuram o verdadeiro Deus, revelado nas Escrituras. Exceto pelo novo nascimento, ninguém vem à luz do verdadeiro Deus, mas suprimi a verdade pela injustiça.
A Bíblia, por esta razão, ensina além de qualquer dúvida que nós agimos ou escolhemos de acordo com nosso maior desejo, que é baseado é nossa natureza. Jesus como notou acima, ensina que é impossível ser de outra forma. Mais ainda, como uma consequência da morte física de Adão e seus descendentes (Gn 2:17) existem muitos outros problemas com a natureza do homem em seu estado decaído, incluindo sua incapacidade de entender Deus (Salmos 50:21; Jó 11:7,8; Rm 3:11); ver coisas espirituais (Jo 3:3); conhecer seu próprio coração (Jr 17:9); direcionar os próprios passos no caminho da vida (Jr 10:23; Pv 14:12); libertar a si mesmo da maldição da Lei (Gl 3:10); receber o Espírito Santo (Jo 14:17); nascer por si só na família de Deus (Jo 1:13; Rm 9:15,16); produzir arrependimento e fé em Jesus Cristo (Ef 2:8,9; Jo 6:64.65; 2 Ts 3:2; Fp 1:29; 2 Tm 2:25); ir a Cristo (Jo 10:26; Jo 6:44); e agradar a Deus (Rm 8:5,8,9). Estas consequências da desobediência de Adão em seus descendentes são o que os teólogos frequentemente se referem como a total depravação do homem. Sem uma mudança de disposição, o amor de Deus e Sua lei não são a mais profunda motivação e princípio do homem natural.

O Que Tudo Isso Tem a Ver com João 3:16?

Sinergistas frequentemente me dizem: “Predestinacionistas acreditam em um Deus que requer mais do que Ele capacita ou permite os homens alcançarem. Este é o tipo de Deus em quem eles acreditam”. Nisto eles estão parcialmente corretos, mas a falha está no homem, não em Deus... porque a natureza de Deus nunca mudou, mas a nossa muda. A Lei de Deus é perfeita porque Ele é perfeito. Ele não pode diminuir Seus padrões por nós ou Ele não mais seria Deus. Por esta razão, Deus teve um propósito específico em exigir perfeição moral em nós e isso inclui o mandamento de crer em Cristo.
Declarações bíblicas como “se tu o buscares” e “todo aquele que nele crer” como em João 3:16 estão num modo hipotético. Um gramático explicaria que há uma declaração condicional, que não expressa nada de forma indicativa. Nesta passagem o que nós “deveríamos” fazer não implica necessariamente que nós “podemos” fazer. Os dez mandamentos, da mesma forma, falam do que nós deveríamos fazer mas eles não implicam que nós temos a habilidade moral de cumpri-los. Os mandamentos de Deus nunca serviram para nos fortalecer, mas para arrancar nossa confiança em nossas próprias capacidades de tal forma que seria o fim de nós mesmos. Com uma clareza pungente, Paulo ensina que este é o intento da legislação divina (Rm 3:20, 5:20; Gl 3:19,24). Se alguém está tentado a argumentar que essa crença é meramente um convite, e não um mandamento, leia 1 João 3:23: “E este é o seu mandamento: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo...”. Então, eu creio que aqueles que sustentam a idéia de que Deus ordena aos homens decaídos e não regenerados a fazerem algo que já são capazes de fazê-lo estão impondo uma teoria antibíblica no texto. Um mandamento ou convite com uma afirmação abertamente hipotética, como João 3:16 faz não implica na capacidade de cumpri-lo. Isto é especialmente verdadeiro à luz de textos como Jo 1:13, Rm 9:16, Jo 6:37, 44, 63-65, Mt 5:16-16, 1 Co 2:14 e muitos outros que mostram a incapacidade moral do homem no estado decaído em crer no Evangelho. Em nossa natureza não regenerada nós não podemos fazer nada a não ser amar as trevas e nunca nos aproximarmos da luz.
Na Cruz Deus Nos Dá o que Ele Exige de Nós
Como isso pode ser boa-nova se os homens nunca se encontrarão naturalmente desejando se submeter em fé aos humilhantes termos do Evangelho de Cristo? (Rm 3:11; Jo 6:64,65; 2 Ts 3:2). Porque Deus nos deu graciosamente o que Ele exige de nós. No evangelho, Deus nos revela a mesma justiça e fé que Ele exige de nós. O que nós deveríamos ter, mas não poderíamos criar ou alcançar ou cumprir, Deus nos garante livremente, como é chamada, a justiça de Deus (2 Co 5:21) e a fé de Cristo. Ele revela, como um dom em Cristo Jesus, a fé e a justiça que antes era somente uma exigência. Fé não é algo com que o pecador contribui para pagar o preço de Sua salvação. Jesus já pagou todo o preço por nós. Fé é nosso primeiro fôlego na respiração de nosso novo nascimento, antes de falar. É uma testemunha da obra da graça de Deus que tomou seu lugar dentro de nós (Ef 2:5,8; 2 Tm 2:25).
Romanos 3:11,12 diz “não há ninguém que busque a Deus, ninguém” e 1 Co 2:14 diz que o homem natural não consegue entender as coisas do Espírito, que são loucura para ele e não é possível que sejam aceitas porque devem ser discernidas espiritualmente. Mesmo Pedro teve de ser revelado pelo Pai que Jesus era o Cristo. Os arminianos e nós concordamos que “todo aquele que crer” tem a vida eterna, mas a questão vai além disso – o que leva alguém a crer?

C.H. Spurgeon, em seu sermão Incapacidade Humana expõe isso com grande clareza:
"Oh", diz o Arminiano, "os homens podem serem salvos se quiserem." Nós replicamos: "Meu querido senhor, todos nós cremos nisto; mas é precisamente no se eles quiserem onde está a dificuldade. Afirmamos que ninguém quer vir a Cristo, a menos que ele seja trazido; pelo contrário, nós não afirmamos isto, mas o próprio Cristo o declara: "Mas não quereis vir a mim para terdes vida"; e enquanto este "não quereis" permanecer registrado na Santa Escritura, não seremos inclinados a crer em qualquer doutrina da liberdade da vontade humana. É estranho como as pessoas, quando falam sobre o livre-arbítrio, discutem de coisas que eles não tem nenhum entendimento. "Ora", diz alguém, "eu creio que os homens podem ser salvos se eles quiserem." Meu querido senhor, de modo algum é esta a questão. A questão é: os homens alguma vez são encontrados naturalmente dispostos a submeterem-se aos termos humilhantes do evangelho de Cristo? Declaramos, sob a autoridade das Escrituras, que o homem está tão desesperadamente em ruína, tão depravado, e tão inclinado a tudo o que é mal, e tão oposto a tudo o que é bom, que sem a poderosa, sobrenatural e irresistível influência do Espírito Santo, nenhum ser humano quererá jamais ser constrangido para Cristo. Você replica, que os homens algumas vezes estão desejosos, sem a ajuda do Espírito Santo. Eu respondo: Você encontrou alguma vez alguma pessoa que estivesse?

Eu argumentaria que este é o porquê de Jesus enfatizar o novo nascimento durante toda a passagem de João 3. Nicodemos não podia entender a linguagem de Jesus: “O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito”. Assim como somos passivos em nosso nascimento físico, também no nascimento espiritual o somos. Nós não participamos ativamente de qualquer nascimento com nossos esforços. O Espírito é semelhante ao vento nesta passagem, que não se sabe se está indo ou vindo – assim é todo aquele nascido em espírito. O trabalho do Espírito é soberano e sobrenatural. Assim como um cego não enxergará se você lançar uma luz nos seus olhos, ordenando a ele tudo que você quiser. Não é de luz que ele precisa, mas de um novo par de olhos. É assim que o novo nascimento parece. Antes da regeneração, Satanás nos tornou cativos de sua vontade. Ele nos cegou para a verdade. Nós devemos ser libertos de nossos próprios desejos e o cativo somente é completamente livre pelo dedo de Deus através do trabalho final de Cristo.
Em João 3:19-20, no mesmo contexto de 3:16 (três versos depois), Jesus qualifica Seu “todo aquele que crê” com a seguinte afirmação: “Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque as suas obras eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, temendo que as suas obras sejam manifestas”. (Isto é para todos nós anterior à regeneração)
Mas todos nós sabemos que alguns virão para a luz. Leia o que João 3:20-21 diz sobre eles. “Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que seja manifesto que as suas obras são feitas em Deus”. Então, veja que existe aqueles que vêm para a luz; e suas obras são o trabalho de Deus. “Feitas em Deus” significa trabalhado em e por Deus. A não ser pelo gracioso trabalho divino de regeneração, todos os homens odeia a luz de Deus e não irão até ela.

Ao invés de balançar nossas cabeças para o versículo que se encaixa em nosso sistema particular de teologia, nós devemos interpretar escritura com escritura, especialmente no contexto da passagem. Agora que nós vimos João 3 por completo, o verdadeiro significado do texto se torna claro. João 1:10-12 é também um dos favoritos dos sinergistas quando anunciam o evangelho:

“Ele estava no mundo, e o embora mundo tenha sido feito por intermédio dele, o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus”.

Grande passagem, eu também adoro usar estes versos, mas nós não podemos parar aqui. Nós precisamos reconhecer que devemos adicionar a qualidade do verso 13:
“os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus” (João 1:13).
Eu estranho muitos deixarem esse versículo de fora de sua evangelização: todos os versículos caminham juntos. Isso repete um tema constante nas Escrituras: que nós somos ordenados a nos arrepender e crer no evangelho, mas adicionalmente, que nós somos moralmente incapazes de fazer tanto sem o eficaz trabalho do Espírito Santo. A oferta de “todo aquele que nele crer” é para todos os homens e verdadeiramente oferecido a todos os homens, mas nenhum homem natural deseja a Deus. TODOS rejeitam este dom, mas o que nós não podemos fazer por nós mesmos, Deus faz por nós. Aqueles que vêm a Deus dão glórias a Ele porque Ele tem preparado seu coração, dando-lhes um desejo por Cristo que é maior que o desejo de permanecer no pecado. Isto é o que Ele fez por Lídia através da pregação de Paulo, no livro de Atos: “O Senhor abriu seu coração para atender à mensagem de Paulo”. O que aconteceu a Lídia é o que acontece a todo aquele que vem para a fé em Cristo. Se o Senhor abrir nosso coração, nós desejaremos crer, e nenhuma resistência existe, porque nós não desejaremos resistir. Nossas novas naturezas vivificadas pelo Espírito Santo têm novos desejos e disposições, que não poderíamos produzir por nós mesmos. Se o Senhor abriu o coração de Lídia para ela atender à mensagem e ela resistisse, isto seria uma afirmação contraditória. Note que Deus abriu seu coração para “atender à mensagem”. Se Deus desarmou a hostilidade de Lídia de forma que ela creria, então não deveria haver mais debates de como Ele faz com todos aqueles que têm fé. Apesar do fato de nós termos uma crença real em nós mesmos, pelo esquema sinergista, no entanto, o homem volta sua afeição e fé para Deus enquanto ainda está em sua caída e degenerada condição de coração petrificado. Mas o homem deve primeiro ter uma nova natureza para crer – ou seja, a Escritura ensina que o homem sem o Espírito não deseja, entende, tampouco é capaz de obedecer ou se voltar a Deus (1 Co 2:14, Rm 8:7, Rm 3:11). Se nós iremos acreditar, Deus deve primeiramente transformar nosso coração de pedra em um coração de carne:

“Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecerem fielmente às minhas leis” (Ezequiel 36:26,27).

Os sinergistas acreditam que o grande desejo por fé, pelo qual nós creremos no Deus que justifica pecadores, pertence a nós por natureza e não por um dom da graça, que está, pela inspiração do Espírito Santo, aumentando nossa vontade e tirando ela da descrença para fé e da falta de Deus para Deus. Mas o Apóstolo Paulo diz: “Estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fl 1:6). E novamente, “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus” (Ef 2:8). Pior ainda, os sinergistas ensinam que Deus tem misericórdia de nós quando, a partir da graça regeneradora, nós acreditamos, queremos e desejamos, mas não confessam que é através do trabalho e inspiração do Espírito Santo em nós que teremos a fé, a vontade ou força para fazer todas estas coisas. Se eles fazem a ajuda da graça depender de nossa humildade ou obediência, mas não concordam que é um dom da própria graça que nós sejamos obedientes e humildes, eles contradizem a Bíblia, que diz 

“O que você tem que não tenha recebido?” (1 Co 4:7) e “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou” (1 Co 15:10).

Então vamos perguntar a nossos amigos sinergistas porque um homem crê e outro não?
Pelo esquema arminiano, Deus dá ao homem graça suficiente para colocá-lo numa posição de decidir por si mesmo se irá ou não crer. Então um homem será mais inteligente, mais sábio e mais humilde? Se este fosse o caso, Deus nos salvaria com base na personalidade gerada por nós mesmos e não pela graça. Pergunte a eles como seus olhos se voltaram a Deus. Um homem usa a graça dada a ele e outro não. O que no homem determina sua escolha e por quê? Isso nos deixa com salvação pelo mérito, desde que um homem que tem pensamentos e afeições por Deus O escolhe enquanto o outro não. Não já provamos que as Escrituras ensinam que fazemos nossas escolhas baseados no que mais desejamos? Onde o homem conseguiu sabedoria e inclinação a Deus, enquanto o outro permaneceu endurecido? Como um homem criou um pensamento reto, afeição reta, ou originou volição reta? Se não veio de seus desejos, então veio de onde? As escolhas são baseadas no que nós somos. Um homem natural nunca escolheria a Deus por si mesmo sem a graça regeneradora. Então Deus sobrenaturalmente enxerta a obra regeneradora do espírito ao despertar a fé de Seus eleitos.

Então, porque alguns homens rejeitam a Deus?

Resposta muito simples: Porque eles são malignos. “Ele fará uso de todas as formas de engano da injustiça para os que estão perecendo, porquanto rejeitaram o amor à verdade que os poderia salvar” (2 Ts 2:10). Eles odeiam a Deus e não O querem, como toda pessoa sem o Espírito. Cristo diz “vocês não creem, porque não são minhas ovelhas”. Jesus claramente mostra que a natureza da pessoa determina as escolhas que faz. Ele não diz “vocês não creem, por isso não são minhas ovelhas” . Não, Ele diz “vocês não são minhas ovelhas, (POR ISSO) vocês não creem”. A Bíblia afirma claramente porque alguns creem e outros não. Nossa natureza determina nossas escolhas. Descrença é consequência da maldade, segundo as Escrituras. Crer é consequência da misericordiosa mudança na disposição do coração (em direção a Deus) através da rápida ação do Espírito Santo. O esquema sinergista deixa cada pessoa decidir por elas mesmas enquanto ainda estão em sua natureza decaída. O homem em seu estado não regenerado decide baseado em um princípio dentro dele. Nossa vontade por si só não é autônoma, mas controlada por quem somos naturalmente. Nós nunca escolhemos o que nós não queremos ou odiamos. Em nosso estado não regenerado nós ainda somos hostis para com Deus, amamos as trevas e somos cegos pelo diabo, tomados cativos para fazer a vontade dele, e não desejamos ou queremos coisas espirituais.

Se a graça preveniente dos arminianos somente faz o coração neutro, como eles admitem, então o homem não é motivado nem desmotivado para crer ou descrer – consequentemente a única opção é pelo acaso que alguém creia ou não. Eles irão argumentar ardentemente contra isso mas não encontrarão outra alternativa bíblica. Nossa escolha, qual seja, é baseada em nosso caráter interior, não pelo acaso. Um homem escolhe e o outro não, porque um foi renovado pelo gracioso trabalho de Deus. Apenas isso dá toda glória a Deus pela salvação.

“O Espírito dá vida; a carne não produz nada que se aproveite. As palavras que eu lhes disse são espírito e vida. Contudo, há alguns de vocês que não creem” (...) E prosseguiu: "É por isso que eu lhes disse que ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai” (João 6:63-65).

Concluindo, minha oração é que a igreja do século XXI finalmente aprenda a doutrina “somente pela graça” corretamente. Oh! Que nós entendamos a pobreza da condição do homem perdido e a glória da misericórdia e graça divinas, e que não nos preocupemos em proclamá-las. Acredito que percorreremos um longo caminho parar criarmos uma postura de adoração que dê completa honra a Deus, em que Seu povo terá pensamentos corretos sobre Ele e alcançará um estágio de verdadeiro reavivamento. Esta tem sido uma longa batalha desenhada através da História da igreja (Agostinho/Pelágio, Lutero/Erasmo, Calvino/Armínio, Wesley/Whitefield) mas eu permaneço muito otimista quanto ao futuro crescimento do reino de Deus.



Fonte: Os Bereanos

domingo, 7 de junho de 2015

O SIGNIFICADO DE “DE ANTEMÃO CONHECEU” EM ROMANOS 8.29

O SIGNIFICADO DE “DE ANTEMÃO CONHECEU” EM ROMANOS 8.29

SÍNTESE CRISTÃ

Refletindo sobre a Escritura, a fé e a conduta cristã!

Por David N. Steele e Curtis C. Thomas
Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou.” (Romanos 8.29-30).

De um modo geral tem havido dois pontos de vista quanto ao significado e uso da palavra “conheceu” em Romanos 8.29. Uma categoria de comentaristas (os arminianos) mantém que Paulo está dizendo que Deus predestinou para a salvação aquele que ele previu que responderiam à sua oferta da graça (isto é, aquele que ele viu que se arrependeriam de seus pecados e creriam no evangelho pelo seu livre arbítrio). Godet, no comentário de Romanos 8.29, faz uma pergunta: “Em que sentido Deus os previu?” e responde que eles foram pré-conhecidos como certos de cumprir as condições de salvação, a fé; então pré-conhecidos pela fé”[1]. A palavra “ pré-conheceu” é assim entendida pelos arminianos como significando que Deus sabia de antemão quais pecadores creriam, etc., e com base neste conhecimento ele os predestinou para a salvação.
A outra classe de comentaristas (os calvinistas) rejeita a visão acima sobre dois fundamentos. Primeiro, porque a interpretação arminiana não está de acordo com o significado da linguagem de Paulo e segundo porque está fora de harmonia com o sistema de doutrina ensinado no restante das escrituras. Calvinistas contendem que a passagem ensina que Deus põe seu amor sobre certos indivíduos (isto é, conheceu de antemão); estes Ele predestinou para serem salvos. Observe que o texto não diz que Deus sabia ALGO SOBRE indivíduos particulares (que eles fariam isto ou aquilo), mas ele diz que Deus conhecia os próprios indivíduos — aqueles que Ele conheceu Ele predestinou para serem feitos como Cristo. A expressão “de antemão conheceu” como usada aqui é assim entendida como equivalente a “amados de antemão” — aqueles que foram os objetos do amor de Deus, Ele selecionou para a salvação.
As questões levantada pelas duas interpretações opostas são estas: Deus olhou através do tempo e viu que certos indivíduos creriam e assim os predestinou para a salvação com base nesta fé prevista? Ou Deus colocou seu amor sobre certos indivíduos e por causa deste amor por eles predestinou que eles deveriam ser chamados e concedida a fé em Cristo pelo Espírito Santo e assim serem salvos? Em outras palavras, a fé do indivíduo é a causa ou o resultado da predestinação de Deus?
A) O significado de “de antemão conheceu” em romanos 8.29
Deus sempre possuiu conhecimento perfeito de todas as criaturas e de todos os eventos. Nunca houve um tempo em que qualquer coisa do passado, presente ou futuro não fosse totalmente conhecida por ele. Mas não é seu conhecimento dos eventos futuros (do que as pessoas fariam, etc) que é referido em Romanos 8.29-30, pois Paulo claramente afirma que aqueles que Ele de antemão conheceu Ele predestinou, Ele chamou, Ele justificou, etc. Uma vez que nem todos os homens são predestinados, chamados e justificados, segue-se que nem todos os homens foramconhecidos de antemão por Deus no sentido falado no verso 29.
É por esta razão que os arminianos são forçados a adicionar alguma noção qualificadora. Eles leem na passagem alguma ideia não contida na própria linguagem tais como aqueles que Ele previu que creriam, etc., Ele predestinou, Ele chamou e justificou. Mas de acordo com o uso bíblico das palavras “conhecer”, “conheceu” e “conheceu de antemão” não há a mínima necessidade de fazer tal adição, e uma vez que não é necessária, é imprópria. Quando a Bíblia fala de Deus conhecendo indivíduos particulares, isto frequentemente significa que Ele tem uma consideração especial por eles, que eles são os objetos de sua afeição e interesse. Por exemplo em Amós 3.2, deus falando a Israel, diz: “de todas as famílias da terra somente a vósoutros vos conheci por isso eu os castigarei por causa de todas as suas maldades”. O Senhor conhece sobre todas as famílias da terra, mas Ele conheceu Israel de uma forma especial. Eles foram seu povo eleito a quem Ele tinha colocado seu amor Veja Deuteronômio 7.7-8; 10.15. Porque Israel era dele de uma forma especial Ele os castigou, cf. Hb 12.5-6. Deus falando a Jeremias, disse: “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci” (Jeremias 1.5). O significado aqui não é que Deus conhecia sobre Jeremias, mas que Ele teve uma consideração especial pelo profeta antes que Ele o formasse no ventre de sua mãe. Jesus também usou a palavra “conheci” no sentido de consciência pessoal, íntima. “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mateus 7.22,23). Nosso Senhor não pode ser compreendido aqui como se ele estivesse dizendo que não sabia nada sobre eles, pois é bastante evidente que Ele sabia muito sobre eles — o caráter mal e as obras más deles; daí, seu significado deve ser: “Eu nunca conheci vocês intimamente nem pessoalmente, Eu nunca considerei vocês como objetos do meu favor ou amor. Paulo usa a palavra do mesmo jeito em I Coríntios 8.3: “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele” e também II Timóteo 2.19: “O Senhor conhece os que lhe pertencem.” O Senhor conhece sobre todos os homens, mas Ele apenas conhece aqueles “que o amam, que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28) — aqueles que são seus!
O argumento de Murray em favor deste significado de “de antemão conheceu” é muito bom. “Deveria ser observado que o texto diz “aos que de antemão conheceu”; aos que é o objeto do verbo e não há adição de qualificação.” Isto, por si mesmo, mostra que, a menos que haja alguma outra razão constrangedora, a expressão “aos que de antemão conheceu” contém dentro dela mesma a diferenciação que é pressuposta. Se o apóstolo tinha em mente algum “adjunto qualificador” teria sido simples fornecê-lo. Uma vez que ele não acrescenta nenhum nós somos forçados a inquirir se os termos reais que ele usa pode expressar a diferenciação implicada. O uso da escritura fornece uma resposta afirmativa. Embora o termo “de antemão conheceu” é usado raramente no Novo Testamento, é completamente indefensável ignorar os significados tão frequentemente dados à palavra “conhecer” no uso da escritura; “conhecer de antemão” simplesmente acrescenta o pensamento de “antemão” à palavra “conhecer”. Muitas vezes na escritura “conhecer” tem um significado rico que vai além de mera cognição. Ele é usado em um sentido praticamente sinônimo de “amor”, conhecer com interesse particular, prazer, afeição e ação (cf. Gn 18.19; Ex 2.25; Sl 1.6; 144.3; Jr 1.5; Am 3.2; Os 13.5; Mt 7.23; I Co 8.3; Gl 4.9; II Tm 2.19; I Jo 3.1). Não há razão porque esta importação da palavra “conhecer” não deveria ser aplicada a “conhecer de antemão” nesta passagem, como também em 11.2 onde ela também ocorre no mesmo tipo de construção e onde o pensamento da eleição está evidentemente presente (cf 11.5-6). Quando esta importação é apreciada, então não há razão para adicionar qualquer noção qualificadora e “aos que de antemão conheceu” é visto para conter dentro de si mesmo o elemento distintivo requerido. Isto significa “aos que Ele conheceu da eternidade com afeição e prazer distintivos” e é praticamente equivalente a “aos que Ele amou de antemão”. Esta interpretação, além disso, está de acordo com a ação eficiente e determinante que é tão notável em todos os outros elos da corrente — é Deus quem predestina, é Deus quem chama, é Deus quem justifica, e é Ele quem glorifica. Previsão de fé estaria em desacordo com a ação determinante que é predicada de Deus nestes outros exemplos e constituiria um despertamento da ênfase total no ponto onde nós deveríamos menos esperar. Não é a previsão da diferença, mas o conhecimento antecipado que faz a diferença existir, não uma previsão que reconhece existência, mas o preconhecimento que determina a existência. É um amor distintivo soberano”[2]
Hodge observa que “como conhecer é frequentemente aprovar e amar, isto pode expressar a ideia de afeição peculiar neste caso; ou pode significar selecionarou determinar sobre. O uso da palavra é favorável à qualquer modificação desta ideia geral de preferir. “O povo que ele de antemão conheceu”, isto é, amou ou selecionou, Rm 11.2; “conhecido antes da criação do mundo”. I Pe 1.20; II Tm 2.19; Jo 10.14-15; veja também Atos 2.23; I Pe 1.2. A ideia, portanto, obviamente é que, aqueles que Deus particularmente amou, ao amar, distinguiu ou selecionou do resto da humanidade; ou para expressar ambas as ideias em uma palavra, aos que Ele elegeu Ele predestinou, etc.”[3]
Embora Deus conhecesse todos os homens antes que o mundo existisse, ele não conheceu todos os homens no sentido que a Bíblia às vezes usa a palavra “conhecer”, isto é, com consciência pessoal íntima e amor. É neste último sentido que Deus “conheceu de antemão” aqueles que Ele predestinou, chamou e justificou como delineado em Romanos 8.29-30.
B. Romanos 8.29 não se refere a previsão de fé, boas obras, etc.
Como foi enfatizado acima, é desnecessário e, portanto indefensável adicionar qualquer noção qualificadora tais como fé ao verbo “conheceu” [de antemão] em Romanos 8.29-30. Arminianos fazem esta adição, não porque a linguagem requeira isto, mas porque o sistema teológico deles requer — eles fazem isto para escapar das doutrinas da eleição incondicional. Eles leem a noção de fé prevista no verso e então apelam para ele no esforço de provar que a predestinação foi baseada nos eventos previstos. Assim é dito que indivíduos particulares são salvos, não porque Deus quisque eles devessem ser salvos (pois ele quis a salvação de todos), mas porque eles mesmos quiseram ser salvos. Daí a salvação é dependente em última análise da vontade do indivíduo, não da vontade soberana do Deus todo poderoso — a fé é entendida como sendo o dom do homem para Deus, não o dom de Deus para o homem.
Haldane, comparando escritura com escritura, mostra claramente que o pré-conhecimento mencionado em Romanos 8.29 não pode ter referência à fé prevista, boas obras, ou a resposta do pecador ao chamado de Deus. “A fé não pode ser a causa do pré-conhecimento, porque o pré-conhecimento é antes da predestinação, e a fé é o efeito da predestinação. ‘Todos que foram ordenados para vida eterna creram’, Atos 13.48. Nem pode isto significar o pré-conhecimento de boas obras, porque estas são os efeitos da predestinação.” Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos”; Ef 2.10. Nem pode significar pré-conhecimento de nossa cooperação com o chamado externo, pois o nosso chamado eficaz depende não apenas desta concorrência, mas do propósito e da graça de Deus, dados a nós em Cristo Jesus antes da fundação do mundo, II Tm 1.9. Por este pré-conhecimento, então, queremos dizer, como tem sido observado, o amor de Deus para aqueles a quem Ele predestina para serem salvos através de Jesus Cristo. Todos os chamados de Deus são conhecidos de antemão por Ele, isto é, eles são os objetos do seu amor eterno, e o chamado deles vem deste livre amor. “Eu a amei com amor eterno; com amor leal a atrai”, Jr 31.3.[4]
Murray, ao rejeitar a visão de que “de antemão conheceu” em Romanos 8.29 se refere à previsão de fé, está certamente correto ao afirmar que “é preciso ser enfatizado que a rejeição desta interpretação não é ditada por um interesse predestinariano. Ainda que nós admitíssemos que ‘de antemão conheceu’ significa previsão de fé, a doutrina bíblica da eleição soberana não é desse modo eliminada ou refutada. Pois é certamente verdadeiro que Deus prevê a fé; ele prevê tudo que acontece. A questão então seria simplesmente: de onde procede esta fé que Deus prevê? E a única resposta bíblica é que a fé que Deus prevê é a fé que Ele mesmo cria (cf. Jo 3.3-8; 6.44;45,65; Ef. 2:8; Fl. 1.29; II Pe 1.2). Assim sua eterna previsão de fé é pré-condicionada por seu decreto de gerar esta fé naqueles que Ele prevê como crendo, e nós somos deixados com a diferenciação que procede da própria eleição eterna e soberana de Deus para a fé e seus efeitos. O interesse, portanto, é simplesmente de interpretação como deveria ser aplicada a esta passagem. Por razões exegéticas nós teremos de rejeitar a visão de que “de antemão conheceu” se refere à previsão de fé”.

Livre arbítrio: Tenho liberdade para crer?

Livre arbítrio: Tenho liberdade para crer?


SÍNTESE CRISTÃ

Refletindo sobre a Escritura, a fé e a conduta cristã!

É comum pensar que a teologia reformada nega o livre-arbítrio humano e se mostra contrária a passagens que enfatizam a importância da decisão humana no processo de salvação. Na realidade, porém, a teologia reformada sempre reconheceu as atividades reais da vontade humana na salvação.
Embora a expressão “livre-arbítrio” não apareça nas Escrituras, num sentido técnico ou teológico, é correto dizer que a Bíblia tanto afirma como nega, de várias maneiras, que as pessoas possuam livre-arbítrio. Os teólogos reformados costumam abordar essa questão distinguindo entre a livre agência humana, o livre-arbítrio moral e a liberdade absoluta.
Em primeiro lugar, a livre agência simplesmente reconhece que os seres humanos são criaturas que possuem vontade própria. Ao contrário de pedras, árvores, montanhas e outras partes da criação, os seres humanos fazem escolhas morais. Todos os seres humanos são agentes livres, no sentido de que tomam decisões ao que farão. Por esse motivo, também somos moralmente responsáveis pelas nossas escolhas voluntárias. Foi assim com Adão tanto antes quanto depois de ele ter pecado; é assim agora e o será para os cristãos glorificados – um fato que é refletido ao longo da Bíblia. Todas as pessoas têm o dever de fazer escolhas certas e responsáveis (Js 24:15; 2Sm 12:1-10; Jo 7:24; Rm 1:18-32; 14:13). No entanto, a livre agência não inclui a capacidade de fazer qualquer escolha moral em qualquer circunstancia, nem a capacidade de escolher algo contrário à própria natureza. Uma vez que a obediência e fé no evangelho são contrárias a natureza humana decaída (Rm 8:4-8), o conceito de livre agência não afirma que o homem de caído possui o livre-arbítrio para fazer tais coisas.
O livre-arbítrio moral, por sua vez, é uma capacidade de escolher entre todas as opções morais que uma situação apresenta. Muitos teólogos cristãos do século 2º. (por exemplo, Clemente de Alexandria e Orígenes), ensinavam que a natureza humana decaída possui o livre-arbítrio. Negavam que os seres humanos limitados pela sua condição moral decaída, insistindo em vez disso que os homens são capazes de escolher qualquer rumo que desejarem, incluindo a decisão, pelo seu próprio poder e vontade, de crer no evangelho e obedecer a ele. Essa visão contrasta nitidamente com as Escrituras. Agostinho e teólogos reformados afirmaram corretamente apesar de a humanidade possuir livre-arbítrio moral antes da queda, o pecado original nos privou do mesmo.
Uma vez que somo descendentes de Adão, não temos a capacidade natural de discernir e escolher o caminho de Deus ou de crer no evangelho, pois não temos nenhuma inclinação natural para com Deus. Nosso coração é escravo do pecado e somente a graça e a regeneração podem nos libertar dessa servidão. Por isso Paulo ensinou em Romanos 6:16-23 que somente as pessoas libertas do domínio do pecado podem escolher entre a justiça livremente e de todo coração. Uma inclinação do coração para agradar a Deus é um dos aspectos da liberdade que Cristo concede aos seus seguidores (Jo 8:34-36; Gl 5:1,13).
Tem havido, e ainda há teólogos cristãos que argumentam de várias maneiras que, a fim de terem qualquer relevância, as escolhas humanas devem ser absolutamente livres dos decretos soberanos de Deus. A teologia reformada rejeita categoricamente este erro. Em primeiro lugar, é evidente que possuímos várias limitações físicas e mentais decorrentes da ordem natural determinada por Deus para este mundo. Não temos a liberdade absoluta em nenhuma área. Ademais, as Escrituras ensinam que Deus tem um plano imutável que abrange todos os acontecimentos que ocorrem, desde os maiores até os menores (Is 46:10; Mt 10:29-31). As escolhas humanas estão incluídas nesse plano, mas não podem, jamais, impedir ou frustrar os propósitos de Deus (Is 8:10; 14:26-27). Portanto, assim como estamos certos de que nenhum ser humano decaído tem a capacidade moral de escolher crer no evangelho, podemos ter certeza de que ninguém tem a capacidade de frustrar os propósitos de Deus nem a salvação que ele determinou para nós em Cristo (Rm 8:28-30). Todos os foram predestinados à salvação receberão o chamado eficaz, serão regenerados e escolherão crer. Essa limitação de nossa vontade não é, de maneira alguma, um fatalismo que diminui a importância da escolha humana, mas sim, uma afirmação sublime do nosso lugar importante no mundo de Deus.
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O Problema do Conhecimento Médio (Molinismo)

O Problema do Conhecimento Médio (Molinismo)

SÍNTESE CRISTÃ

Refletindo sobre a Escritura, a fé e a conduta cristã!

Por Herman Bavinck
Mas os jesuítas, entrando na discussão [sobre o pré-conhecimento de Deus], fizeram mudança. Com o intuito de articular a onisciência de Deus com a liberdade humana, seguindo a linha semi-pelagiana, eles introduziram o chamado conhecimento médio(media scientia) entre o conhecimento “necessário” e o conhecimento “livre” de Deus. Com esse conhecimento médio eles se referem a um conhecimento divino de eventos contingentes que é logicamente antecedente aos seus decretos. O objeto desse conhecimento ao é o meramente possível que nunca será realizado, nem aquilo que, em virtude de um decreto divino, é certo de acontecer, mas as possibilidades de que dependam, para sua realização, de uma ou outra condição. Ao governar o mundo, Deus faz que muitos resultados possíveis dependam de condições e sabe, com antecedência, o que fará, caso essas condições sejam ou não cumpridas pelos seres humanos. Em todos os casos, portanto, Deus está pronto. Ele antevê e conhece todas as possibilidades e toma suas decisões e providências levando em conta todas essas possibilidades. Ele soube, com antecedência, o que faria se Adão caísse e também se ele não caísse; se Davi fosse ou não até Queila; se Tiro e Sidom se arrependessem ou não. Portanto, o conhecimento que Deus tem de eventos contingentes precede seu decreto a respeito de eventos futuros “absolutos”. Embora os seres humanos, a cada momento, tomem suas decisões livres e independentes, nunca poderão surpreender Deus com as decisões que tomam ou desfazer seus planos, pois, em seu pré-conhecimento, Deus levou em conta todas as possibilidades. Essa teoria do conhecimento mediado foi apoiada por numerosos textos da Escritura que atribuem a Deus conhecimento daquilo que aconteceria em um dado caso se alguma condição fosse ou não fosse cumprida(e.g., Gn 11.6; Êx. 3.19; 34.16; Dt. 7.3, 4; 1Sm 23.10 – 13; 25.29ss; 2Sm 12.8; 1Rs 11.2; 2Rs 2.10; 13.19; Sl 81.14 – 16; Jr. 26.2, 3; 38.17 – 20; Ez 2.5 – 7; 3.4 – 6; Mt. 11.21, 23; 24.22; 26.53; Lc. 22.66 – 68; Jo. 4.10; 6.15; At. 22.18; Rm. 9.29; 1Co 2.8).
Embora, de fato, tenha recebido oposição dos tomistas e agostinianos (e.g., Bannez, os salmanticenses [carmelitas de Salamanca, Espanha] e Billuart), essa teoria do conhecimento médio também foi fervorosamente defendida pelos molinistas e congruístas (Suárez, Belarmino, Lessius, etc). O temor do Calvinismo e do jansenismo favoreceu essa teoria na Igreja Católica e, de maniera mais ou menos pronunciada, ganhou aceitação expressa por parte de quase todos os teólogos católicos. Desse modo, a linha de pensamento expressa por Agostinho foi abandonada e a de Orígenes foi recuperada. Ainda que a teologia grega tenha tomado essa posição desde o princípio, a teologia católica romana agora a seguiu. Os luteranos e os remonstrantes também não se mostraram indispostos com essa teoria. Em tempos modernos, muitos teólogos afirmaram, aproximadamente da mesma forma, que, para Deus, também, o mundo é um conhecimento médio. Ele, de fato, pré-conhece os eventos contingentes futuros como possíveis, mas descobre, com o mundo, se eles serão realizados ou não. Para todos os casos, porém, ele conhece “uma ação que se encaixará precisamente na ação da criatura, seja o que for que possa acontecer”. Ele estabeleceu o esboço do plano do mundo, mas deixa o enchimento desse esboço por conta das criaturas”. Em contraste com essa linha de pensamento, seguindo o exemplo de Agostinho, os reformados rejeitaram a teoria de um “pré-conhecimento nu”(nuda praescientia) e o “conhecimento médio”(media scientia).
Ora, com respeito a esse conhecimento médio, a pergunta não é se as coisas [ou eventos] não estão frequentemente relacionadas umas às outras por um tipo de conexão condicional, que é conhecida e desejada pelo próprio Deus. se isso fosse tudo o que ele quer dizer, ele seria aceito sem qualquer dificuldade, assim como Gomarus e Walaeus o entenderam e reconheceram nesse sentido. Entretanto, a teoria do conhecimento tem um objetivo diferente: se propósito é harmonizar a noção pelagiana da liberdade da vontade com a onisciência de Deus. Nessa interpretação, a vontade humana é, por sua natureza, indiferente. Ela tanto pode fazer uma coisa quanto outra. ela não é determinada nem por sua própria natureza nem pelas várias circunstâncias nas quais é colocada. Embora as circunstâncias possam influenciar a vontade, no fim das contas ela permanece livre e escolhe conforme desejar. É claro que a liberdade da vontade assim concebida não pode se harmonizar com um decreto de Deus, aliás, ela consiste essencialmente em independência do decreto de Deus. Em vez de determinar essa vontade, Deus a deixou livre. Ele não podia determinar a vontade sem destruí-la. Com relação a essa vontade de suas criaturas racionais, Deus tem de adotar uma postura de espera vigilante. Ele observa para ver o que elas farão. Ele, porém, é onisciente. Por isso ele conhece todas as possibilidades, todas as contingências e também pré-conhece todos os eventos futuros reais. Nesse contexto e conservando-o, Deus tomou todas as suas decisões e criou seus decretos. Se uma pessoa, em certas circunstâncias, aceitará a graça de Deus, ele escolheu essa pessoa para a vida eterna; se essa pessoa não crer, ela foi rejeitada.
Ora, é claro que essa teoria diverge, em princípio, do ensino de Agostinho e de Tomás de Aquino. Certamente, em sua mente, o pré-conhecimento de Deus precede os eventos e nada pode acontecer se não for pela vontade de Deus. “Nada, portanto, acontece, a não ser pela vontade do Onipotente”. Não o mundo, mas os decretos são o meio pelo qual Deus conhece todas as coisas. Portanto, os eventos contingentes e as ações livres podem ser conhecidos infalivelmente em seu contexto e ordem. O escolasticismo, reconhecidamente, às vezes já expressava, nesse ponto, de um modo que diferia de Agostinho. Anselmo, por exemplo, afirmou que o pré-conhecimento não implicava uma “necessidade interna e antecedente”, mas apenas uma “necessidade externa e consequente”. E Tomás de Aquino, de fato, acreditava que Deus eterna e certamente conhece os eventos futuros contingentes de acordo com o estado no qual eles realmente estão, isto é, de acordo com sua própria imediação, mas que, em suas “causas imediatas”, eles são contingentes e indeterminados. Isso, porém, não altera o fato de que, com relação à sua “causa primária”, esses eventos futuros contingentes são absolutamente certos e, portanto, não podem ser chamados de contingentes. E, em outro ponto, ele novamente afirma que “tudo que existe foi destinado a existir antes que viesse à existência, porque existia por sua própria causa para que pudesse vir à existência”.
A doutrina do conhecimento médio, porém, representa os eventos futuros contingentes como contingentes e livres também em relação a Deus. Isso é feito não somente com relação à predestinação de Deus, mas também com relação ao seu pré-conhecimento, como em Orígenes, em que as coisas não acontecem porque Deus as conhece, mas Deus as conhece porque elas acontecerão. Portanto, a sequência não é conhecimento necessário, conhecimento de visão, o decreto de criar (etc), mas, em vez disso, é conhecimento necessário, conhecimento médio, decreto de criar (etc), e o conhecimento de visão de Deus não deriva seu conhecimento dos livres atos dos seres humanos de seu próprio ser, de seus decretos, mas da vontade das criaturas.
Deus, portanto, torna-se dependente do mundo, extrai do mundo conhecimento que ele não tinha e não pode obter por si mesmo e, portanto, em seu conhecimento, deixa de ser um, simples, independente – isto é, deixa de ser Deus. Inversamente, a criatura, em grande parte, torna-se independente diante de Deus. Ela, de fato, em um momento, recebe o “ser”(esse) e o “ser capaz”(posse) de Deus, mas, agora, tem a “volição”(velle) completamente em suas próprias mãos. Ela soberanamente toma suas próprias decisões, realiza ou não realiza alguma coisa de forma totalmente independente de um decreto divino anterior. Uma coisa pode, portanto, vir à existência totalmente à parte da vontade de Deus. A criatura é, agora, criadora, autônoma, soberana: toda a história do mundo é tirada das mãos de Deus e colocada em suas mãos. Primeiro os seres humanos decidem, depois Deus responde com um plano que corresponde a essa decisão. Ora, se essa decisão ocorreu – como no caso de Adão – somos capazes de concebê-la. Mas decisões de maior ou menor importância ocorrem milhares de vezes em toda vida humana. O que podemos pensar, então de um Deus que sempre espera todas essas decisões e mantém à mão um estoque de todos os planos possíveis para todas as possibilidades? O que, então, resta até mesmo de um esboço de um plano mundial quando sua execução é deixada nas mãos dos seres humanos? E de que vale um governo cujo executivo é o escravo de seus próprios subordinados?
Na teoria do conhecimento médio, é exatamente isso o que acontece com Deus. Deus é um mero espectador, enquanto os seres humanos decidem. Não é Deus que faz distinção entre as pessoas, mas as pessoas é que se distinguem. A graça é concedida de acordo com o mérito e a predestinação depende das boas obras. As ideias às quais a Escritura, em toda parte, opõe-se e que Agostinho rejeitou em sua polêmica contra Pelágio são transformadas na doutrina católica romana padrão pelo ensino dos jesuítas. Os proponentes do conhecimento médio, de fato, recorrem a muitos textos da Escritura, mas totalmente sem fundamento. Não há dúvida de que a Escritura reconhece o fato de que Deus inseriu as coisas (eventos, etc) em uma rede variada de conexões umas com as outras, e que essas conexões são, frequentemente, de natureza condicional, de modo que uma coisa não pode acontecer se outra coisa não acontecer primeiro. [Por exemplo], sem a fé não há salvação, sem o trabalho não há sustento, etc.
No entanto, os textos citados pelos jesuítas para fundamentar a teoria do conhecimento médio não provam o que precisa ser provado. Reconhecidamente, eles falam sobre condição e cumprimento, obediência e promessa, aceitação e consequência daquilo que acontecerá se um ou outro caminho for escolhido. No entanto, nenhum desses textos nega que, em todos os casos, Deus – embora fale aos seres humanos e lide com eles em termos humanos – conhecia e determinou aquilo que será realizado – presente em Deus somente como uma ideia – e aquilo que é certo e foi decretado por Deus não há uma área que possa ser controlada pela vontade dos seres humanos. Uma coisa sempre pertence a uma área ou a outra. se ela é somente uma possibilidade e nunca será realizada, ela é objeto do conhecimento “necessário” de Deus e se, um dia, ela realmente será realizada, ela é conteúdo de seu conhecimento “livre”. Não há um terreno médio entre os dois, não há conhecimento “médio”.
As teorias do conhecimento médio, além disso, não alcançam seu objetivo. Elas têm o objetivo de colocar a liberdade da vontade humana – no sentido de indiferença – em harmonia com o pré-conhecimento divino. Ora, elas alegam que esse pré-conhecimento concebido como conhecimento médio deixa a conduta humana totalmente livre, não-necessária. De fato, isso está correto, a não ser que, nesse caso, ele deixe de ser pré-conhecimento. Se Deus conhece infalivelmente com antecedência o que uma pessoa fará em determinado caso, ele só pode pré-conhecer isso se os motivos da pessoa determinarem sua vontade em uma direção específica, e isso, portanto, não consistiria indiferença. Inversamente, se essa vontade fosse indiferente, o pré-conhecimento seria impossível, e só existiria um conhecimento post-factum. O pré-conhecimento de Deus a vontade concebida como arbitrariedade são mutuamente excludentes. Pois, como Cícero já dizia,
“se ele conhece, isso certamente acontecerá, mas, se isso obrigatoriamente deve acontecer, não existe algo como o acaso”.
Portanto, juntamente com Agostinho, devemos procurar a solução do problema em outra direção. A liberdade da vontade não consiste, como descobriremos adiante, em indiferença, arbitrariedade ou acaso, mas em “prazer racional”. Esse prazer racional, em vez de estar em conflito com o pré-conhecimento de Deusa, é implicado e sustentado por ele. A vontade humana – juntamente com sua natureza, antecedentes e motivos, suas decisões e consequências – está integrada à “ordem de causas que é certa para Deus e abrangida por seu pré-conhecimento”. No conhecimento de Deus, as coisas estão relacionadas na mesma rede de conexões nas quais ocorrem na realidade. Não é pré-conhecimento nem predestinação aquilo que intervém, vindo de cima, com força de imposição. Toda decisão humana, todo ato humano é motivado, em vez disso, por aquilo que o precede, e, nessa rede de conexões, está incluído no conhecimento de Deus. conservando sua própria natureza conhecida e ordenada por Deus, os eventos contingentes e as ações livres estão ligados na ordem de causas que, pouco a pouco, nos é revelada na história do mundo.

Fonte: BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 204 – 209.