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domingo, 7 de junho de 2015

Uma exegese de 1 Timóteo 4:10

Uma exegese de 1 Timóteo 4:10

SÍNTESE CRISTÃ

Refletindo sobre a Escritura, a fé e a conduta cristã!

“Pois para isto é que trabalhamos e lutamos, porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem.” (I Timóteo 4.10)
Em I Timóteo 4.10, Paulo está exortando Timóteo que a sã doutrina e a piedade persistente deveriam ser o impulso de nossa vida por causa da esperança do Deus vivo — nesta era e na por vir. Nós deveríamos estar confiantes em nossos credos e ética por causa da certeza da salvação. Paulo introduz o verso 10 com o indicador inferencial eis touto gar (pois para isto), seguido pela conjunção hoti (porque), que destaca seu ponto principal: “temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que é o salvador de todos os homens, especialmente dos que creem.” Seu ponto principal é corroborado pelo seu uso do tempo perfeito ēlpikamen (temos posto a nossa esperança), que define esta ação. É interessante que o único outro exemplo de um tempo perfeito nesta seção imediata é encontrada no verso 6:
“Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, nutrido pelas palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido (parēkolouthēkas)” – I Tm 4.6
Este é um termo incomum no novo testamento, usado apenas quatro vezes (Mc 16.17; Lc 1.3; I Tm 4.6; II Tm 3.10). No contexto de seguir uma crença ou prática, este termo significa “prestar atenção especial, seguir fielmente.” Em outras palavras, para Paulo, seguir a sã doutrina não é sobre uma afirmação estática das declarações credais em papel — é uma ativa, consciente e envolvida adaptação. (Paulo não teria nada a ver com uma “declaração de fé” ambígua de igreja!)
De volta ao verso 10. Na próxima declaração, o que se entende por “que é o salvador de todos os homens, especialmente dos que creem”?
Muitos crentes modernos leem isto com a hipótese de que Cristo veio a terra com a intenção de morrer por cada indivíduo que já viveu; por isso, “que é o salvador de todos os homens”. Mas só aqueles que creem terão sua expiação aplicada aos seus pecados; por isso, “especialmente os que creem.” Portanto, muitos leitores modernos, especialmente arminianos, acreditam que este verso mina qualquer noção de redenção particular e eleição, que é afirmada na teologia reformada.
Porém, nós deveríamos examinar mais que uma leitura prima facie deste verso e fazer a nós mesmos algumas perguntas. Há uma conexão teológica entre “o Deus vivo” e seu qualificador “que é o salvador de todos os homens”? O que “todos os homens” significa aqui para Paulo? Significa todas as pessoas sem exceção ou distinção? E mais importante, como Deus pode ser o salvador daqueles que não creem? Ou há algum outro elemento que tem escapado à nossa atenção?
Uma leitura universalista deveria ser excluída desde que contraditaria o ensino inequívoco de Paulo em seu corpus de que muitos perecerão eternamente.
Depois, a interpretação arminiana lê demais nesta declaração, “salvador de todos os homens”, com duas suposições: (1) que o termo “salvador” deve significar “possível salvador” e (2) ele denota “cada pessoa individual.”
Mas se Cristo morreu por todos os pecados, então não há base para ele punir ou condenar qualquer pecador para a perdição; fazendo assim do arminiano um universalista inconsistente. Que base há para punir o mesmo pecado duas vezes: na cruz e no pecador. Não há nenhuma.
Além disso, o contexto aqui não afirma o que Paulo quer dizer por “todos os homens”. Ele poderia se referir a cada pessoa individual, ou ele poderia se referir a todos os tipos de homens. Mais cedo nesta mesma epístola, no contexto similar de salvação e todos os homens, Paulo deixa claro que ele está se referindo a “todos os tipos de homens”, não cada pessoa individual que já viveu no planeta terra.
Alguns intérpretes tem sugerido que Deus é o “salvador de todos os homens” em um sentido físico-preservador — se você quiser, um salvador de graça comum.” Então ele é um salvador espiritual, especialmente daqueles que creem.
Esta é uma interpretação improvável uma vez que não há nada neste contexto onde Paulo define “salvador” nestas duas formas diferentes. E mais, o v. 8b fornece um contexto soteriológico, “da vida presente e da que há de vir.” E no v. 10 a leitura natural é que Paulo usa o mesmo significado para “salvador” pela humanidade em geral, e crentes em particular.
A interpretação mais plausível deste verso é o que eu chamo de interpretação exclusivismo-monoteístico. O que Paulo está dizendo é que Deus (e por extensão Cristo como redentor) é o único salvador real no mundo, portanto a humanidade não pode encontrar outro salvador competindo fora do Deus vivo. Eles não têm outro salvador para o qual tornar.
Não é por equívoco que a frase “Deus vivo”, um termo que sugere monoteísmo está conectado com este verso. Esta frase é frequentemente encontrada no contexto de politeísmo (At 14.15; I Ts 1.9; Js 3.10; I Sm 17.26, 36; II Rs 19.4). Desde que há um único Deus que é vivo, há somente um salvador para a humanidade abraçar.
Também, nesta mesma epístola Paulo faz uma declaração exclusiva parecida que há um mediador da salvação para humanidade: “pois há um só Deus e mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus homem” (I Tm 2.5). Aqui Paulo conecta isto com a verdade do “único Deus” com apenas um mediador, antecipando o que ele diz dois capítulos depois.
Além disso, isto é similar a declaração exclusiva de Jesus:
“E disse Jesus: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao pai senão por mim” (João 14.6)
E na mesma linha, Pedro proclama:
“E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos.” (Atos 4.12).
Para toda a humanidade só há um caminho, verdade, vida, pai, nome, mediador e salvador— especialmente dos que creem.
Finalmente, eu quero concluir com outra interpretação que é convincente. O termo para “especialmente” é malista. George W. Knight III argumenta que este termo aqui deveria ser traduzido “isto é”, funcionando assim como a explicação ou maior esclarecimento da frase anterior. A tradução seria como se segue: “que é o salvador de todos os homens, isto é, dos que creem.” Então esta interpretação não vê “aqueles que creem” como um subconjunto de “todos os homens”; em vez disso, “os que creem” identifica quem são “todos os homens”. Ele escreve:
“A frase [malista pistōn, “especialmente os que creem”] contém a mesma qualificação que Paulo e o NT sempre colocam para receber a salvação de Deus, isto é, “confiar” em Deus como o único salvador. Absoluto [pistōn] como usado aqui e em outro lugar no NT refere-se àqueles que creem em Cristo, isto é, os crentes… malista geralmente tem sido traduzido como “especialmente” e considerado como de alguma forma distinguindo aquilo que o segue daquilo que vem antes dele. Skeat [“especialmente os pergaminhos”] argumenta de forma persuasiva que [malista] em alguns casos (II Tm 4.13; Tt 1.10, 11; e aqui) deveriam ser entendidos como fornecendo uma melhor definição ou identificação daquilo que o precede e assim o traduz pelas palavras “isto é”. Ele cita vários exemplos das letras de papiro que pareceriam requerer este sentido e que em seus casos particulares excluiriam o sentido alternativo contrário. Se sua proposta estiver correta aqui, o que parece mais adequado, então a frase [malista pistōn] deveria ser traduzida como “isto é, os crentes”. Este entendimento também está em linha com a afirmação de Paulo de que todos os tipos e condições de homens estão em Cristo (mesmo às vezes usando [pantes]) e com sua insistência naqueles contextos que todos estão em Cristo e têm salvação pela fé (cf. Gl 3.26-28).” NIGTC, The Pastoral Epistles, 203–4.

O SIGNIFICADO DE “DE ANTEMÃO CONHECEU” EM ROMANOS 8.29

O SIGNIFICADO DE “DE ANTEMÃO CONHECEU” EM ROMANOS 8.29

SÍNTESE CRISTÃ

Refletindo sobre a Escritura, a fé e a conduta cristã!

Por David N. Steele e Curtis C. Thomas
Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou.” (Romanos 8.29-30).

De um modo geral tem havido dois pontos de vista quanto ao significado e uso da palavra “conheceu” em Romanos 8.29. Uma categoria de comentaristas (os arminianos) mantém que Paulo está dizendo que Deus predestinou para a salvação aquele que ele previu que responderiam à sua oferta da graça (isto é, aquele que ele viu que se arrependeriam de seus pecados e creriam no evangelho pelo seu livre arbítrio). Godet, no comentário de Romanos 8.29, faz uma pergunta: “Em que sentido Deus os previu?” e responde que eles foram pré-conhecidos como certos de cumprir as condições de salvação, a fé; então pré-conhecidos pela fé”[1]. A palavra “ pré-conheceu” é assim entendida pelos arminianos como significando que Deus sabia de antemão quais pecadores creriam, etc., e com base neste conhecimento ele os predestinou para a salvação.
A outra classe de comentaristas (os calvinistas) rejeita a visão acima sobre dois fundamentos. Primeiro, porque a interpretação arminiana não está de acordo com o significado da linguagem de Paulo e segundo porque está fora de harmonia com o sistema de doutrina ensinado no restante das escrituras. Calvinistas contendem que a passagem ensina que Deus põe seu amor sobre certos indivíduos (isto é, conheceu de antemão); estes Ele predestinou para serem salvos. Observe que o texto não diz que Deus sabia ALGO SOBRE indivíduos particulares (que eles fariam isto ou aquilo), mas ele diz que Deus conhecia os próprios indivíduos — aqueles que Ele conheceu Ele predestinou para serem feitos como Cristo. A expressão “de antemão conheceu” como usada aqui é assim entendida como equivalente a “amados de antemão” — aqueles que foram os objetos do amor de Deus, Ele selecionou para a salvação.
As questões levantada pelas duas interpretações opostas são estas: Deus olhou através do tempo e viu que certos indivíduos creriam e assim os predestinou para a salvação com base nesta fé prevista? Ou Deus colocou seu amor sobre certos indivíduos e por causa deste amor por eles predestinou que eles deveriam ser chamados e concedida a fé em Cristo pelo Espírito Santo e assim serem salvos? Em outras palavras, a fé do indivíduo é a causa ou o resultado da predestinação de Deus?
A) O significado de “de antemão conheceu” em romanos 8.29
Deus sempre possuiu conhecimento perfeito de todas as criaturas e de todos os eventos. Nunca houve um tempo em que qualquer coisa do passado, presente ou futuro não fosse totalmente conhecida por ele. Mas não é seu conhecimento dos eventos futuros (do que as pessoas fariam, etc) que é referido em Romanos 8.29-30, pois Paulo claramente afirma que aqueles que Ele de antemão conheceu Ele predestinou, Ele chamou, Ele justificou, etc. Uma vez que nem todos os homens são predestinados, chamados e justificados, segue-se que nem todos os homens foramconhecidos de antemão por Deus no sentido falado no verso 29.
É por esta razão que os arminianos são forçados a adicionar alguma noção qualificadora. Eles leem na passagem alguma ideia não contida na própria linguagem tais como aqueles que Ele previu que creriam, etc., Ele predestinou, Ele chamou e justificou. Mas de acordo com o uso bíblico das palavras “conhecer”, “conheceu” e “conheceu de antemão” não há a mínima necessidade de fazer tal adição, e uma vez que não é necessária, é imprópria. Quando a Bíblia fala de Deus conhecendo indivíduos particulares, isto frequentemente significa que Ele tem uma consideração especial por eles, que eles são os objetos de sua afeição e interesse. Por exemplo em Amós 3.2, deus falando a Israel, diz: “de todas as famílias da terra somente a vósoutros vos conheci por isso eu os castigarei por causa de todas as suas maldades”. O Senhor conhece sobre todas as famílias da terra, mas Ele conheceu Israel de uma forma especial. Eles foram seu povo eleito a quem Ele tinha colocado seu amor Veja Deuteronômio 7.7-8; 10.15. Porque Israel era dele de uma forma especial Ele os castigou, cf. Hb 12.5-6. Deus falando a Jeremias, disse: “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci” (Jeremias 1.5). O significado aqui não é que Deus conhecia sobre Jeremias, mas que Ele teve uma consideração especial pelo profeta antes que Ele o formasse no ventre de sua mãe. Jesus também usou a palavra “conheci” no sentido de consciência pessoal, íntima. “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mateus 7.22,23). Nosso Senhor não pode ser compreendido aqui como se ele estivesse dizendo que não sabia nada sobre eles, pois é bastante evidente que Ele sabia muito sobre eles — o caráter mal e as obras más deles; daí, seu significado deve ser: “Eu nunca conheci vocês intimamente nem pessoalmente, Eu nunca considerei vocês como objetos do meu favor ou amor. Paulo usa a palavra do mesmo jeito em I Coríntios 8.3: “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele” e também II Timóteo 2.19: “O Senhor conhece os que lhe pertencem.” O Senhor conhece sobre todos os homens, mas Ele apenas conhece aqueles “que o amam, que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28) — aqueles que são seus!
O argumento de Murray em favor deste significado de “de antemão conheceu” é muito bom. “Deveria ser observado que o texto diz “aos que de antemão conheceu”; aos que é o objeto do verbo e não há adição de qualificação.” Isto, por si mesmo, mostra que, a menos que haja alguma outra razão constrangedora, a expressão “aos que de antemão conheceu” contém dentro dela mesma a diferenciação que é pressuposta. Se o apóstolo tinha em mente algum “adjunto qualificador” teria sido simples fornecê-lo. Uma vez que ele não acrescenta nenhum nós somos forçados a inquirir se os termos reais que ele usa pode expressar a diferenciação implicada. O uso da escritura fornece uma resposta afirmativa. Embora o termo “de antemão conheceu” é usado raramente no Novo Testamento, é completamente indefensável ignorar os significados tão frequentemente dados à palavra “conhecer” no uso da escritura; “conhecer de antemão” simplesmente acrescenta o pensamento de “antemão” à palavra “conhecer”. Muitas vezes na escritura “conhecer” tem um significado rico que vai além de mera cognição. Ele é usado em um sentido praticamente sinônimo de “amor”, conhecer com interesse particular, prazer, afeição e ação (cf. Gn 18.19; Ex 2.25; Sl 1.6; 144.3; Jr 1.5; Am 3.2; Os 13.5; Mt 7.23; I Co 8.3; Gl 4.9; II Tm 2.19; I Jo 3.1). Não há razão porque esta importação da palavra “conhecer” não deveria ser aplicada a “conhecer de antemão” nesta passagem, como também em 11.2 onde ela também ocorre no mesmo tipo de construção e onde o pensamento da eleição está evidentemente presente (cf 11.5-6). Quando esta importação é apreciada, então não há razão para adicionar qualquer noção qualificadora e “aos que de antemão conheceu” é visto para conter dentro de si mesmo o elemento distintivo requerido. Isto significa “aos que Ele conheceu da eternidade com afeição e prazer distintivos” e é praticamente equivalente a “aos que Ele amou de antemão”. Esta interpretação, além disso, está de acordo com a ação eficiente e determinante que é tão notável em todos os outros elos da corrente — é Deus quem predestina, é Deus quem chama, é Deus quem justifica, e é Ele quem glorifica. Previsão de fé estaria em desacordo com a ação determinante que é predicada de Deus nestes outros exemplos e constituiria um despertamento da ênfase total no ponto onde nós deveríamos menos esperar. Não é a previsão da diferença, mas o conhecimento antecipado que faz a diferença existir, não uma previsão que reconhece existência, mas o preconhecimento que determina a existência. É um amor distintivo soberano”[2]
Hodge observa que “como conhecer é frequentemente aprovar e amar, isto pode expressar a ideia de afeição peculiar neste caso; ou pode significar selecionarou determinar sobre. O uso da palavra é favorável à qualquer modificação desta ideia geral de preferir. “O povo que ele de antemão conheceu”, isto é, amou ou selecionou, Rm 11.2; “conhecido antes da criação do mundo”. I Pe 1.20; II Tm 2.19; Jo 10.14-15; veja também Atos 2.23; I Pe 1.2. A ideia, portanto, obviamente é que, aqueles que Deus particularmente amou, ao amar, distinguiu ou selecionou do resto da humanidade; ou para expressar ambas as ideias em uma palavra, aos que Ele elegeu Ele predestinou, etc.”[3]
Embora Deus conhecesse todos os homens antes que o mundo existisse, ele não conheceu todos os homens no sentido que a Bíblia às vezes usa a palavra “conhecer”, isto é, com consciência pessoal íntima e amor. É neste último sentido que Deus “conheceu de antemão” aqueles que Ele predestinou, chamou e justificou como delineado em Romanos 8.29-30.
B. Romanos 8.29 não se refere a previsão de fé, boas obras, etc.
Como foi enfatizado acima, é desnecessário e, portanto indefensável adicionar qualquer noção qualificadora tais como fé ao verbo “conheceu” [de antemão] em Romanos 8.29-30. Arminianos fazem esta adição, não porque a linguagem requeira isto, mas porque o sistema teológico deles requer — eles fazem isto para escapar das doutrinas da eleição incondicional. Eles leem a noção de fé prevista no verso e então apelam para ele no esforço de provar que a predestinação foi baseada nos eventos previstos. Assim é dito que indivíduos particulares são salvos, não porque Deus quisque eles devessem ser salvos (pois ele quis a salvação de todos), mas porque eles mesmos quiseram ser salvos. Daí a salvação é dependente em última análise da vontade do indivíduo, não da vontade soberana do Deus todo poderoso — a fé é entendida como sendo o dom do homem para Deus, não o dom de Deus para o homem.
Haldane, comparando escritura com escritura, mostra claramente que o pré-conhecimento mencionado em Romanos 8.29 não pode ter referência à fé prevista, boas obras, ou a resposta do pecador ao chamado de Deus. “A fé não pode ser a causa do pré-conhecimento, porque o pré-conhecimento é antes da predestinação, e a fé é o efeito da predestinação. ‘Todos que foram ordenados para vida eterna creram’, Atos 13.48. Nem pode isto significar o pré-conhecimento de boas obras, porque estas são os efeitos da predestinação.” Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos”; Ef 2.10. Nem pode significar pré-conhecimento de nossa cooperação com o chamado externo, pois o nosso chamado eficaz depende não apenas desta concorrência, mas do propósito e da graça de Deus, dados a nós em Cristo Jesus antes da fundação do mundo, II Tm 1.9. Por este pré-conhecimento, então, queremos dizer, como tem sido observado, o amor de Deus para aqueles a quem Ele predestina para serem salvos através de Jesus Cristo. Todos os chamados de Deus são conhecidos de antemão por Ele, isto é, eles são os objetos do seu amor eterno, e o chamado deles vem deste livre amor. “Eu a amei com amor eterno; com amor leal a atrai”, Jr 31.3.[4]
Murray, ao rejeitar a visão de que “de antemão conheceu” em Romanos 8.29 se refere à previsão de fé, está certamente correto ao afirmar que “é preciso ser enfatizado que a rejeição desta interpretação não é ditada por um interesse predestinariano. Ainda que nós admitíssemos que ‘de antemão conheceu’ significa previsão de fé, a doutrina bíblica da eleição soberana não é desse modo eliminada ou refutada. Pois é certamente verdadeiro que Deus prevê a fé; ele prevê tudo que acontece. A questão então seria simplesmente: de onde procede esta fé que Deus prevê? E a única resposta bíblica é que a fé que Deus prevê é a fé que Ele mesmo cria (cf. Jo 3.3-8; 6.44;45,65; Ef. 2:8; Fl. 1.29; II Pe 1.2). Assim sua eterna previsão de fé é pré-condicionada por seu decreto de gerar esta fé naqueles que Ele prevê como crendo, e nós somos deixados com a diferenciação que procede da própria eleição eterna e soberana de Deus para a fé e seus efeitos. O interesse, portanto, é simplesmente de interpretação como deveria ser aplicada a esta passagem. Por razões exegéticas nós teremos de rejeitar a visão de que “de antemão conheceu” se refere à previsão de fé”.

Livre arbítrio: Tenho liberdade para crer?

Livre arbítrio: Tenho liberdade para crer?


SÍNTESE CRISTÃ

Refletindo sobre a Escritura, a fé e a conduta cristã!

É comum pensar que a teologia reformada nega o livre-arbítrio humano e se mostra contrária a passagens que enfatizam a importância da decisão humana no processo de salvação. Na realidade, porém, a teologia reformada sempre reconheceu as atividades reais da vontade humana na salvação.
Embora a expressão “livre-arbítrio” não apareça nas Escrituras, num sentido técnico ou teológico, é correto dizer que a Bíblia tanto afirma como nega, de várias maneiras, que as pessoas possuam livre-arbítrio. Os teólogos reformados costumam abordar essa questão distinguindo entre a livre agência humana, o livre-arbítrio moral e a liberdade absoluta.
Em primeiro lugar, a livre agência simplesmente reconhece que os seres humanos são criaturas que possuem vontade própria. Ao contrário de pedras, árvores, montanhas e outras partes da criação, os seres humanos fazem escolhas morais. Todos os seres humanos são agentes livres, no sentido de que tomam decisões ao que farão. Por esse motivo, também somos moralmente responsáveis pelas nossas escolhas voluntárias. Foi assim com Adão tanto antes quanto depois de ele ter pecado; é assim agora e o será para os cristãos glorificados – um fato que é refletido ao longo da Bíblia. Todas as pessoas têm o dever de fazer escolhas certas e responsáveis (Js 24:15; 2Sm 12:1-10; Jo 7:24; Rm 1:18-32; 14:13). No entanto, a livre agência não inclui a capacidade de fazer qualquer escolha moral em qualquer circunstancia, nem a capacidade de escolher algo contrário à própria natureza. Uma vez que a obediência e fé no evangelho são contrárias a natureza humana decaída (Rm 8:4-8), o conceito de livre agência não afirma que o homem de caído possui o livre-arbítrio para fazer tais coisas.
O livre-arbítrio moral, por sua vez, é uma capacidade de escolher entre todas as opções morais que uma situação apresenta. Muitos teólogos cristãos do século 2º. (por exemplo, Clemente de Alexandria e Orígenes), ensinavam que a natureza humana decaída possui o livre-arbítrio. Negavam que os seres humanos limitados pela sua condição moral decaída, insistindo em vez disso que os homens são capazes de escolher qualquer rumo que desejarem, incluindo a decisão, pelo seu próprio poder e vontade, de crer no evangelho e obedecer a ele. Essa visão contrasta nitidamente com as Escrituras. Agostinho e teólogos reformados afirmaram corretamente apesar de a humanidade possuir livre-arbítrio moral antes da queda, o pecado original nos privou do mesmo.
Uma vez que somo descendentes de Adão, não temos a capacidade natural de discernir e escolher o caminho de Deus ou de crer no evangelho, pois não temos nenhuma inclinação natural para com Deus. Nosso coração é escravo do pecado e somente a graça e a regeneração podem nos libertar dessa servidão. Por isso Paulo ensinou em Romanos 6:16-23 que somente as pessoas libertas do domínio do pecado podem escolher entre a justiça livremente e de todo coração. Uma inclinação do coração para agradar a Deus é um dos aspectos da liberdade que Cristo concede aos seus seguidores (Jo 8:34-36; Gl 5:1,13).
Tem havido, e ainda há teólogos cristãos que argumentam de várias maneiras que, a fim de terem qualquer relevância, as escolhas humanas devem ser absolutamente livres dos decretos soberanos de Deus. A teologia reformada rejeita categoricamente este erro. Em primeiro lugar, é evidente que possuímos várias limitações físicas e mentais decorrentes da ordem natural determinada por Deus para este mundo. Não temos a liberdade absoluta em nenhuma área. Ademais, as Escrituras ensinam que Deus tem um plano imutável que abrange todos os acontecimentos que ocorrem, desde os maiores até os menores (Is 46:10; Mt 10:29-31). As escolhas humanas estão incluídas nesse plano, mas não podem, jamais, impedir ou frustrar os propósitos de Deus (Is 8:10; 14:26-27). Portanto, assim como estamos certos de que nenhum ser humano decaído tem a capacidade moral de escolher crer no evangelho, podemos ter certeza de que ninguém tem a capacidade de frustrar os propósitos de Deus nem a salvação que ele determinou para nós em Cristo (Rm 8:28-30). Todos os foram predestinados à salvação receberão o chamado eficaz, serão regenerados e escolherão crer. Essa limitação de nossa vontade não é, de maneira alguma, um fatalismo que diminui a importância da escolha humana, mas sim, uma afirmação sublime do nosso lugar importante no mundo de Deus.
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POR QUE EU NÃO ACREDITO EM PERDA DA SALVAÇÃO?

POR QUE EU NÃO ACREDITO EM PERDA DA SALVAÇÃO?


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– “E farei com eles uma aliança eterna de não me desviar de fazer-lhes o bem; e porei o meu temor nos seus corações, para que nunca se apartem de mim.” (Jeremias 32:40);
– “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão.” (João 10:27-28)
– “Porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia.” (2 Timóteo 1:12)
– “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6)
– “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória” (Judas 24)
– “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória.” (Efésios 1:13-14)
– “Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 8:38-39)
– “E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou.” (Romanos 8:30)
– “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção.” (Efésios 4:30).
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O Problema do Conhecimento Médio (Molinismo)

O Problema do Conhecimento Médio (Molinismo)

SÍNTESE CRISTÃ

Refletindo sobre a Escritura, a fé e a conduta cristã!

Por Herman Bavinck
Mas os jesuítas, entrando na discussão [sobre o pré-conhecimento de Deus], fizeram mudança. Com o intuito de articular a onisciência de Deus com a liberdade humana, seguindo a linha semi-pelagiana, eles introduziram o chamado conhecimento médio(media scientia) entre o conhecimento “necessário” e o conhecimento “livre” de Deus. Com esse conhecimento médio eles se referem a um conhecimento divino de eventos contingentes que é logicamente antecedente aos seus decretos. O objeto desse conhecimento ao é o meramente possível que nunca será realizado, nem aquilo que, em virtude de um decreto divino, é certo de acontecer, mas as possibilidades de que dependam, para sua realização, de uma ou outra condição. Ao governar o mundo, Deus faz que muitos resultados possíveis dependam de condições e sabe, com antecedência, o que fará, caso essas condições sejam ou não cumpridas pelos seres humanos. Em todos os casos, portanto, Deus está pronto. Ele antevê e conhece todas as possibilidades e toma suas decisões e providências levando em conta todas essas possibilidades. Ele soube, com antecedência, o que faria se Adão caísse e também se ele não caísse; se Davi fosse ou não até Queila; se Tiro e Sidom se arrependessem ou não. Portanto, o conhecimento que Deus tem de eventos contingentes precede seu decreto a respeito de eventos futuros “absolutos”. Embora os seres humanos, a cada momento, tomem suas decisões livres e independentes, nunca poderão surpreender Deus com as decisões que tomam ou desfazer seus planos, pois, em seu pré-conhecimento, Deus levou em conta todas as possibilidades. Essa teoria do conhecimento mediado foi apoiada por numerosos textos da Escritura que atribuem a Deus conhecimento daquilo que aconteceria em um dado caso se alguma condição fosse ou não fosse cumprida(e.g., Gn 11.6; Êx. 3.19; 34.16; Dt. 7.3, 4; 1Sm 23.10 – 13; 25.29ss; 2Sm 12.8; 1Rs 11.2; 2Rs 2.10; 13.19; Sl 81.14 – 16; Jr. 26.2, 3; 38.17 – 20; Ez 2.5 – 7; 3.4 – 6; Mt. 11.21, 23; 24.22; 26.53; Lc. 22.66 – 68; Jo. 4.10; 6.15; At. 22.18; Rm. 9.29; 1Co 2.8).
Embora, de fato, tenha recebido oposição dos tomistas e agostinianos (e.g., Bannez, os salmanticenses [carmelitas de Salamanca, Espanha] e Billuart), essa teoria do conhecimento médio também foi fervorosamente defendida pelos molinistas e congruístas (Suárez, Belarmino, Lessius, etc). O temor do Calvinismo e do jansenismo favoreceu essa teoria na Igreja Católica e, de maniera mais ou menos pronunciada, ganhou aceitação expressa por parte de quase todos os teólogos católicos. Desse modo, a linha de pensamento expressa por Agostinho foi abandonada e a de Orígenes foi recuperada. Ainda que a teologia grega tenha tomado essa posição desde o princípio, a teologia católica romana agora a seguiu. Os luteranos e os remonstrantes também não se mostraram indispostos com essa teoria. Em tempos modernos, muitos teólogos afirmaram, aproximadamente da mesma forma, que, para Deus, também, o mundo é um conhecimento médio. Ele, de fato, pré-conhece os eventos contingentes futuros como possíveis, mas descobre, com o mundo, se eles serão realizados ou não. Para todos os casos, porém, ele conhece “uma ação que se encaixará precisamente na ação da criatura, seja o que for que possa acontecer”. Ele estabeleceu o esboço do plano do mundo, mas deixa o enchimento desse esboço por conta das criaturas”. Em contraste com essa linha de pensamento, seguindo o exemplo de Agostinho, os reformados rejeitaram a teoria de um “pré-conhecimento nu”(nuda praescientia) e o “conhecimento médio”(media scientia).
Ora, com respeito a esse conhecimento médio, a pergunta não é se as coisas [ou eventos] não estão frequentemente relacionadas umas às outras por um tipo de conexão condicional, que é conhecida e desejada pelo próprio Deus. se isso fosse tudo o que ele quer dizer, ele seria aceito sem qualquer dificuldade, assim como Gomarus e Walaeus o entenderam e reconheceram nesse sentido. Entretanto, a teoria do conhecimento tem um objetivo diferente: se propósito é harmonizar a noção pelagiana da liberdade da vontade com a onisciência de Deus. Nessa interpretação, a vontade humana é, por sua natureza, indiferente. Ela tanto pode fazer uma coisa quanto outra. ela não é determinada nem por sua própria natureza nem pelas várias circunstâncias nas quais é colocada. Embora as circunstâncias possam influenciar a vontade, no fim das contas ela permanece livre e escolhe conforme desejar. É claro que a liberdade da vontade assim concebida não pode se harmonizar com um decreto de Deus, aliás, ela consiste essencialmente em independência do decreto de Deus. Em vez de determinar essa vontade, Deus a deixou livre. Ele não podia determinar a vontade sem destruí-la. Com relação a essa vontade de suas criaturas racionais, Deus tem de adotar uma postura de espera vigilante. Ele observa para ver o que elas farão. Ele, porém, é onisciente. Por isso ele conhece todas as possibilidades, todas as contingências e também pré-conhece todos os eventos futuros reais. Nesse contexto e conservando-o, Deus tomou todas as suas decisões e criou seus decretos. Se uma pessoa, em certas circunstâncias, aceitará a graça de Deus, ele escolheu essa pessoa para a vida eterna; se essa pessoa não crer, ela foi rejeitada.
Ora, é claro que essa teoria diverge, em princípio, do ensino de Agostinho e de Tomás de Aquino. Certamente, em sua mente, o pré-conhecimento de Deus precede os eventos e nada pode acontecer se não for pela vontade de Deus. “Nada, portanto, acontece, a não ser pela vontade do Onipotente”. Não o mundo, mas os decretos são o meio pelo qual Deus conhece todas as coisas. Portanto, os eventos contingentes e as ações livres podem ser conhecidos infalivelmente em seu contexto e ordem. O escolasticismo, reconhecidamente, às vezes já expressava, nesse ponto, de um modo que diferia de Agostinho. Anselmo, por exemplo, afirmou que o pré-conhecimento não implicava uma “necessidade interna e antecedente”, mas apenas uma “necessidade externa e consequente”. E Tomás de Aquino, de fato, acreditava que Deus eterna e certamente conhece os eventos futuros contingentes de acordo com o estado no qual eles realmente estão, isto é, de acordo com sua própria imediação, mas que, em suas “causas imediatas”, eles são contingentes e indeterminados. Isso, porém, não altera o fato de que, com relação à sua “causa primária”, esses eventos futuros contingentes são absolutamente certos e, portanto, não podem ser chamados de contingentes. E, em outro ponto, ele novamente afirma que “tudo que existe foi destinado a existir antes que viesse à existência, porque existia por sua própria causa para que pudesse vir à existência”.
A doutrina do conhecimento médio, porém, representa os eventos futuros contingentes como contingentes e livres também em relação a Deus. Isso é feito não somente com relação à predestinação de Deus, mas também com relação ao seu pré-conhecimento, como em Orígenes, em que as coisas não acontecem porque Deus as conhece, mas Deus as conhece porque elas acontecerão. Portanto, a sequência não é conhecimento necessário, conhecimento de visão, o decreto de criar (etc), mas, em vez disso, é conhecimento necessário, conhecimento médio, decreto de criar (etc), e o conhecimento de visão de Deus não deriva seu conhecimento dos livres atos dos seres humanos de seu próprio ser, de seus decretos, mas da vontade das criaturas.
Deus, portanto, torna-se dependente do mundo, extrai do mundo conhecimento que ele não tinha e não pode obter por si mesmo e, portanto, em seu conhecimento, deixa de ser um, simples, independente – isto é, deixa de ser Deus. Inversamente, a criatura, em grande parte, torna-se independente diante de Deus. Ela, de fato, em um momento, recebe o “ser”(esse) e o “ser capaz”(posse) de Deus, mas, agora, tem a “volição”(velle) completamente em suas próprias mãos. Ela soberanamente toma suas próprias decisões, realiza ou não realiza alguma coisa de forma totalmente independente de um decreto divino anterior. Uma coisa pode, portanto, vir à existência totalmente à parte da vontade de Deus. A criatura é, agora, criadora, autônoma, soberana: toda a história do mundo é tirada das mãos de Deus e colocada em suas mãos. Primeiro os seres humanos decidem, depois Deus responde com um plano que corresponde a essa decisão. Ora, se essa decisão ocorreu – como no caso de Adão – somos capazes de concebê-la. Mas decisões de maior ou menor importância ocorrem milhares de vezes em toda vida humana. O que podemos pensar, então de um Deus que sempre espera todas essas decisões e mantém à mão um estoque de todos os planos possíveis para todas as possibilidades? O que, então, resta até mesmo de um esboço de um plano mundial quando sua execução é deixada nas mãos dos seres humanos? E de que vale um governo cujo executivo é o escravo de seus próprios subordinados?
Na teoria do conhecimento médio, é exatamente isso o que acontece com Deus. Deus é um mero espectador, enquanto os seres humanos decidem. Não é Deus que faz distinção entre as pessoas, mas as pessoas é que se distinguem. A graça é concedida de acordo com o mérito e a predestinação depende das boas obras. As ideias às quais a Escritura, em toda parte, opõe-se e que Agostinho rejeitou em sua polêmica contra Pelágio são transformadas na doutrina católica romana padrão pelo ensino dos jesuítas. Os proponentes do conhecimento médio, de fato, recorrem a muitos textos da Escritura, mas totalmente sem fundamento. Não há dúvida de que a Escritura reconhece o fato de que Deus inseriu as coisas (eventos, etc) em uma rede variada de conexões umas com as outras, e que essas conexões são, frequentemente, de natureza condicional, de modo que uma coisa não pode acontecer se outra coisa não acontecer primeiro. [Por exemplo], sem a fé não há salvação, sem o trabalho não há sustento, etc.
No entanto, os textos citados pelos jesuítas para fundamentar a teoria do conhecimento médio não provam o que precisa ser provado. Reconhecidamente, eles falam sobre condição e cumprimento, obediência e promessa, aceitação e consequência daquilo que acontecerá se um ou outro caminho for escolhido. No entanto, nenhum desses textos nega que, em todos os casos, Deus – embora fale aos seres humanos e lide com eles em termos humanos – conhecia e determinou aquilo que será realizado – presente em Deus somente como uma ideia – e aquilo que é certo e foi decretado por Deus não há uma área que possa ser controlada pela vontade dos seres humanos. Uma coisa sempre pertence a uma área ou a outra. se ela é somente uma possibilidade e nunca será realizada, ela é objeto do conhecimento “necessário” de Deus e se, um dia, ela realmente será realizada, ela é conteúdo de seu conhecimento “livre”. Não há um terreno médio entre os dois, não há conhecimento “médio”.
As teorias do conhecimento médio, além disso, não alcançam seu objetivo. Elas têm o objetivo de colocar a liberdade da vontade humana – no sentido de indiferença – em harmonia com o pré-conhecimento divino. Ora, elas alegam que esse pré-conhecimento concebido como conhecimento médio deixa a conduta humana totalmente livre, não-necessária. De fato, isso está correto, a não ser que, nesse caso, ele deixe de ser pré-conhecimento. Se Deus conhece infalivelmente com antecedência o que uma pessoa fará em determinado caso, ele só pode pré-conhecer isso se os motivos da pessoa determinarem sua vontade em uma direção específica, e isso, portanto, não consistiria indiferença. Inversamente, se essa vontade fosse indiferente, o pré-conhecimento seria impossível, e só existiria um conhecimento post-factum. O pré-conhecimento de Deus a vontade concebida como arbitrariedade são mutuamente excludentes. Pois, como Cícero já dizia,
“se ele conhece, isso certamente acontecerá, mas, se isso obrigatoriamente deve acontecer, não existe algo como o acaso”.
Portanto, juntamente com Agostinho, devemos procurar a solução do problema em outra direção. A liberdade da vontade não consiste, como descobriremos adiante, em indiferença, arbitrariedade ou acaso, mas em “prazer racional”. Esse prazer racional, em vez de estar em conflito com o pré-conhecimento de Deusa, é implicado e sustentado por ele. A vontade humana – juntamente com sua natureza, antecedentes e motivos, suas decisões e consequências – está integrada à “ordem de causas que é certa para Deus e abrangida por seu pré-conhecimento”. No conhecimento de Deus, as coisas estão relacionadas na mesma rede de conexões nas quais ocorrem na realidade. Não é pré-conhecimento nem predestinação aquilo que intervém, vindo de cima, com força de imposição. Toda decisão humana, todo ato humano é motivado, em vez disso, por aquilo que o precede, e, nessa rede de conexões, está incluído no conhecimento de Deus. conservando sua própria natureza conhecida e ordenada por Deus, os eventos contingentes e as ações livres estão ligados na ordem de causas que, pouco a pouco, nos é revelada na história do mundo.

Fonte: BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 204 – 209.