sexta-feira, 1 de maio de 2015

O conceito bíblico de "a letra mata e o Espírito vivifica"


(Por Gabriel F. M. Rocha)

Considerações iniciais:

Diante de algumas leituras que andei fazendo por aí, senti a necessidade de postar uma análise de 2 Cor 3:6, pois, através desse versículo isolado, algumas pessoas com sérias tendências legalistas e religiosas, assim como sérias características sectárias e heréticas em seus ensinamentos, estão justificando dogmas e doutrinamentos que não encontrariam (e não encontram) um respaldo total na Escritura, isso, quando analisamos as tais justificações à luz de uma hermenêutica e exegese séria e sem comprometimentos “denominacional-partidários”. Hoje, percebe-se a imposição (às vezes peremptória) de um “evangelho” deturpado por parte de alguns grupos, principalmente de rótulo neopentecostal. A imagem do Evangelho de Jesus Cristo está sendo embaçada pela mentira e pelo engano de uma teologia herética. Seitas já surgiram... Seitas continuam surgindo e a fé continua pertencendo a alguns e não a todos que se dizem crentes.
Hoje, por exemplo, se torna comum a atitude de alguns homens e mulheres que se dizem “teólogos” sem sequer terem concluído um genuíno, sério e devidamente certificado bacharelado em Teologia. Não que isso seja fundamental para se formar um crente ou um servo de Cristo. Mas, para os que pretendem atuar no ramo da teologia acadêmica, no mínimo um bacharel legítimo de teologia devem ter.  Desses “teólogos” (que muitas vezes nem o ensino médio concluíram) têm saído as diversas mazelas que vemos hoje no meio “evangélico”. Se não emanam desses tais as tantas heresias, pelo menos por eles essas são defendidas e pregadas. Na cidade onde moro mesmo, conheço um “teólogo” de fundo de quintal que, além de viver plagiando textos, postagens e mal sabe escrever e articular as palavras, tem se intitulado “teólogo”, sem um testemunho digno e com o casamento desarranjado, defendendo heresias à luz da famosa e errônea justificação de que “a letra mata, mas o espírito vivifica”. Gente! Isso é demais para mim! O genuíno Teólogo zela pela verdade e não a deturpa jamais. O verdadeiro teólogo, além de dominar bem aquilo que aprendeu no âmbito acadêmico, ama, sobretudo, a Deus e zela fervorosamente por sua Santa Palavra. Não há lugar para textos isolados que são meros pretextos para suas heresias sem tamanho.
Indo para o texto:
A Igreja de Jesus Cristo (seu Corpo) deve atuar frente ao mundo na pregação expositiva do Evangelho sem retoques e sem "fermentos" que levedam a "massa", pois o Evangelho é o poder de Deus para aquele que crê. O Evangelho transforma vidas através da Revelação do Cristo vivo e glorificado e através da operação regeneradora e remidora do Espírito Santo que revela o Cristo ressurreto à Igreja e o apresenta eficientemente ao pecador (Jesus é a própria manifestação da graça e misericórdia de Deus). Portanto, deve-se - sem medo e sem libertinagens, formalismos (e legalismos) pregar a Mensagem da Cruz!
Portanto, a abrangência e a face acadêmica da teologia devem estar restritas apenas àqueles que se nutrem um interesse mais profundo em relação ao conhecimento da mesma. O incentivo da Igreja, dos pastores, professores e líderes diversos em relação à congregação dos santos (eleitos) deve ser dado para que TODOS leiam a Bíblia e aprendam sobre a fé e a prática das Escrituras. A leitura da Bíblia deve, portanto, ser incentivada! Sem "novos ensinos" e, tampouco, "novas revelações". Sem ocultismos e apelos legalistas e farisaicos da religiosidade. Sem introdução do Velho Testamento no seio da igreja, pois o sangue de Cristo abriu o novo e vivo Caminho pela graça de Deus. Logo, nosso esforço a partir de então é vão. 

O querer justificar as bênçãos de Deus através de nossos méritos é anulação da graça ou, no mínimo, não entendimento do Evangelho de Jesus Cristo. Mas a leitura e o estudo devem ser incentivados através de um importante meio de graça: a oração. Dois meios de graça importantíssimos para a formação do caráter cristão destacamos aqui: a oração e a leitura devocional da Bíblia. Além do frequentar a igreja, do louvor, etc.
Com isso, cria-se uma dependência do Espírito Santo e, ao mesmo tempo, dá-se lugar para que a obra do Espírito Santo em nós venha ser aperfeiçoada até o último dia (Cl 1: 6), pois a Bíblia tem todos os elementos espirituais necessários para que o crente possa caminhar firme, constante e abundante naquilo que lhe foi proposto.

A Bíblia, portanto, deve ser lida sob a tutela do mesmo Espírito Santo. Ele ensina, Ele exorta, Ele confronta, Ele liberta, Ele transforma, Ele capacita, Ele dá o entendimento, Ele redime, Ele envia. Portanto, a leitura da Bíblia está em paralelo com a dinâmica da Obra do Espírito Santo na vida do crente e, de forma paralela, evidencia a salvação e efetiva a segurança da mesma. O crente que lê, estuda, analisa e pratica a Bíblia, cresce em graça e conhecimento e é "pau para toda obra". É capacitado para o serviço santo, pois conhece e sabe em quem tem crido, porque a fé já foi gerada pelo Palavra. (Rm 10: 17).

No caso específico de 2 Cor 3: 6, Paulo estava dizendo que: nos tornamos aptos para a fé e prática cristã operante por causa dos méritos de Cristo. Isso pode ser identificado pelo contexto. A partir disso, ele deixa claro que somos ministros agora de uma nova aliança (Novo Testamento) por Cristo. Portanto a Lei (letra) já não tem a eficácia para salvar. Pelo contrário, ela mostra o pecado e, se mostra o pecado, mostra a morte. Portanto, "mata". Se a letra (Lei) não salva, logo o homem (que é já destituído da glória de Deus) morre em seu natural processo ordenado por Deus. Paulo não está falando de uma morte obrada ativamente pelos escritos da Lei, mas sim da sua ineficiência em salvar, sendo que Cristo (o Suficiente e Perfeito), agora pela graça, poderia salvar mediante sua obra redentora. Concluindo: participamos agora do ministério do Espírito Santo, aquele que dá vida, ou seja, vivifica. Em momento algum Paulo falava da invalidez das Escrituras ou dizia que precisaríamos buscar "novas revelações" "além da letra", porque "a letra (Bíblia) mata". Isso, além de abstração, é ignorância e ofensa às Escrituras.

Portanto, a "letra" que mata é a "letra" do legalismo denominacional e religioso que se traveste de piedade e humildade, mas está cheio de rapina farisaica, impondo ritos, costumes e dogmas "além da letra" e, assim, embaçando a graça de Deus no entendimento alheio.
O objetivo mascarado desse entendimento através de uma citação isolada da Bíblia (em que muitos usam para incentivarem o membro a não ler a Bíblia a fim de não ter sua Cor 3: 6) é promover a manutenção das fábulas que criaram sob a égide da "nova revelação" (ou do outro evangelho). Não querem que seus dogmas sejam analisados à luz das Escrituras, pois sabem que não se sustentam pelo crivo da mesma. 

Já sabemos que Jesus é o clímax da revelação de Deus: "Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer" (Jo 1.18). Jesus é a maior revelação de Deus e, todas as outras inspirações e revelações de Deus aos homens por parte do Criador, eram para mostrar Jesus. A finalidade da revelação é tornar Deus conhecido dos homens.
Para isso, as Palavras do Deus espiritualmente e intelectualmente superior à razão dos homens devem ser mostradas pelo Espírito Santo, aquele que “vos ensinará todas as coisas”. A Bíblia é a revelação que temos em mãos para o conhecimento necessário acerca do projeto salvífico de Deus.

 Jesus, no Antigo Testamento, estava oculto. No Novo Testamento, Ele é revelado e nas cartas neotestamentárias, Ele é conhecido e sua doutrina é explicitada. Quem diz ou ensina que a leitura literal da Bíblia é inválida ou que devemos "espiritualizar" a Bíblia a fim de encontrar "novas coisas" está cometendo um grave erro baseado num versículo isolado da Bíblia em (IICor 3:6).

“[...] porque a letra mata, mas o Espírito vivifica”.

Como já destacamos aqui, Paulo não falava da invalidez das Escrituras, mas sim da validez da mesma sobre a intervenção iluminadora do Espírito Santo, sendo que, no contexto da carta ele explica que a Lei não tinha mais a eficácia para a salvação e que tal graça (a salvação) se dava pelo mérito de Cristo e pela obra do Espírito Santo. Paulo falava da Lei e isso não pode fazer alusão à Bíblia que hoje nós temos que é a revelação de Deus. Porém a expressão “letra”, do grego “gramma” que pode falar da Lei, mas pode falar do livro todo, uma epístola e Escrituras (considerando que ali não existia só a Lei, mas a Lei e os Profetas). Essa expressão grega vem do substantivo “grapho” = “escrever” e remete ao sentido literal da escrita. Então não podemos ignorar que Paulo advertia a igreja do mau uso da letra literal, fundamentalista e religiosa.

Mas o que vale como informação central nesse texto é o seguinte: Não é a Lei e nem a Palavra de Deus escrita, em si mesmas, que matam. Trata-se, pelo contrário, das exigências da Lei, que sem a vida e o poder do Espírito, trazem condenação (veja em Jr 31:33; Rm3:31). Mediante a salvação em Cristo, o Espírito santo concede vida e poder espiritual ao crente no manejo das Escrituras que também são vivificadas.

Trocando em miúdos e tendo em vista todo o contexto, Paulo disse assim: "a Lei (grego = "gramma" que pode ser traduzido também por "letra") mostra o pecado, mas o Espírito (grego = pneuma) mostra a Vida. Contudo, podemos em segurança dizer que a Vida mostrada pelo Espírito Santo na Palavra é a Revelação de Jesus Cristo, corroborando assim com as próprias palavras de Paulo.
“a Lei mostra o pecado e o Espírito mostra a vida”. Tal afirmação corrobora também com todo o contexto que explica que: pela Lei não podemos nos salvar, mas por Cristo sim.
O que mata, de fato, são as exigências da Lei tão operantes em algumas igrejas, usos e costumes exacerbados, legalismo religioso, farisaísmo, sectarismo, etc. Isso tende a abafar a fé e fazer com que a mesma não dê seus devidos frutos na constante anulação da graça. Não que a graça seja vencida e resistida, mas é negada e essa negação (pela religiosidade operante) será paga com terrível condenação.
Até que ponto sua igreja, de fato, é igreja compromissada com a Palavra de Deus a fim de te dar todo o apoio necessário para o crescimento pessoa e congregacional? Ou até que ponto as concepções dogmáticas estranhas às Escrituras imperam ali dentro? Tais conceitos são justificados pela Palavra?
Se sua denominação, através de sua liderança, ensina que ela (a igreja) surgiu por meio de uma "nova revelação" e que você está na igreja perfeita, na única obra de Deus, no único lugar que Deus fala, numa igreja "mais especial" e única "igreja fiel a Cristo", e que, se você sair dela, você não tem mais a benção de Deus, ou, que usa "dons espirituais" (ou supostos dons espirituais) para manipular e formatar mentes, ou se tem um conjunto de doutrinas e práticas que não se justificam pelas Escrituras e ainda são sustentadas por argumentos abstratos como "doutrina revelada" ou coisa parecida, ou, não apresenta uma estrutura fiscal clara para a congregação a fim de cometer diversas promiscuidades com as arrecadações financeiras, ou se tem um líder que não abandona a liderança por nada, pois a igreja pertence ele, ou se a liderança é corrupta e já estampou capas de jornais e noticiários televisivos por causa de escândalos e os tais continuam em suas funções de liderança sem qualquer sinal de arrependimento, ou, se dizem que você não precisa estudar a Bíblia, pois a "letra mata" e usa outros textos fora de contextos em pretextos para sustentar suas heresias, ou, se firmam em usos e costumes diversos, te medem pelo que você veste e promove amor denominacional acima do amor pelas vidas, sinto em te informar: o legalismo mata! Você está num lugar complicado. A Lei anula a genuína piedade. Se queres crescer em graça e em crescimento na fé e no conhecimento de Jesus Cristo, você já tem vários motivos para não congregar ali e procurar um lugar onde o Evangelho é pregado conforme a graça divina e conforme os parâmetros das Escrituras (que é a Revelação de Deus na Pessoa Ressurreta e Glorificada de Jesus Cristo).
Enfim, termino com a palavra do Rev. Augustus Nicodemus que fala a respeito dessa má (e tendenciosa) interpretação de “a letra mata...” como “desculpa de quem não tem nem argumento e nem exemplo para dar”.


(Por Gabriel F. M. Rocha)

Um comentário:

Gilfredo Olanda disse...

Mt boa postagem me edificou bastante �� ��
Que Deus continue te usando mais e mais!