Mostrando postagens com marcador congregação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador congregação. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de outubro de 2014

A casa de Deus

A casa de Deus, lugar de glória
O rei Davi escreveu:
“Eu amo, Senhor, a habitação de tua casa e o lugar onde tua glória assiste” (Sl 26.8).
Davi era um homem sedento por Deus. Tinha glórias e riquezas, sucesso e fama, mas seu prazer estava no Senhor. Podia frequentar os lugares mais belos, conhecer os lugares mais exóticos, mas o seu prazer era estar na presença de Deus, na casa de Deus. Davi não ama o lugar em si como alguns hoje amam. Ele amava a presença na Deus, pois a habitação real de Deus no horizonte terreno é no coração do crente e não dentro das quatro paredes. Lá, no templo físico Ele se revela ao seu Corpo reunido. Davi também não amava uma visita passageira, esporádica e irrefletida na casa de Deus, mas amava a habitação da casa de Deus num contexto dinâmico. Estava ali sempre!
Desejava estar na casa de Deus, mais do que qualquer outro deleite da vida. Pois ali, em seu tempo, tinham os elementos que representavam a graça divina que se revelaria em Jesus. Davi historicamente e racionalmente não sabia sobre Jesus Cristo, mas sabia sobre o Messias que viria. Jesus se revelava no Templo. Hoje, não existem mais esses elementos, mas Jesus se revela através do Espírito Santo através da sua Santa Palavra, a saber, a Bíblia. Tendo a Bíblia bem pregada num culto cristocêntrico, o Espírito Santo passa a ter lugar, pois a fé foi gerada pela Palavra. A fé veio pelo ouvir a Palavra de Deus.
Ele buscava isso com todas as forças de sua alma. Tinha anseio por Deus como os guardas anseiam pelo romper da alma. Tinha sede de Deus como as corças que correm sôfregas e arquejantes para as correntes de águas. Davi desejava habitar na casa de Deus, pois a casa de Deus é o lugar onde a glória de Deus assiste. O que é a glória de Deus? A glória de Deus não é um atributo de Deus como sua santidade e amor. A glória de Deus é a somatória de todos os atributos de Deus em seu pleno fulgor. É a manifestação máxima da presença manifesta de Deus. Davi amava a casa de Deus porque amava a Deus. Davi não amava em primeiro lugar um sistema religioso partidário, mas a Verdade das Escrituras que apontavam para a graça salvadora. Quando encontramos Deus, encontramos o sentido da vida. É na presença de Deus que existe plenitude de alegria. É à destra de Deus que existem delícias perpetuamente. Deus é a fonte das águas vivas. O manancial de paz e alegria. Nele temos vida em abundância. Ele é o nosso prazer, nossa herança, a razão da nossa vida.
Glorificar a Deus é a razão da nossa existência, o fim principal do homem. O centro do universo é Deus e não o homem. O humanismo idolátrico é uma distorção, uma deturpação do significado da vida. Quanto mais o homem exalta a si mesmo, menos ele se conhece e mais ele se perde nos labirintos de sua própria alma. Porém, quanto mais o homem se volta para Deus, para amá-lo, conhecê-lo, fruí-lo e glorificá-lo, mais encontra o sentido da vida. Só em Deus desfrutamos de vida maiúscula e superlativa. Só Jesus, o Filho de Deus, tem vida abundante para dar. Só nele desfrutamos de alegria indizível e cheia de glória. Quando Deus é a nossa herança, a nossa alegria e a nossa motivação, então, estar na casa de Deus, na presença de Deus, é a maior de todas as aventuras, o maior de todos os prazeres, o sentido maior da nossa própria vida.
Missões não é a principal missão da igreja; adoração é. A principal missão da igreja é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. Fazemos missões para que Deus seja glorificado na salvação dos pecadores. Fazemos missões para que as nações se voltem de seus ídolos para Deus e o adorem em espírito e em verdade. Fazemos missões para que todos aqueles que foram comprados com o sangue do Cordeiro, procedentes de todas as tribos, povos, raças, línguas e nações ouçam a voz do bom, grande e supremo pastor e façam parte de seu rebanho. Fazemos missões para que a salvadora graça de Deus brilhe nos salvos, pelos séculos eternos. Fazemos missões para que os perdidos sejam encontrados, os cativos sejam libertos e os que vivem no reino das trevas sejam trasladados para o reino da luz. Fazemos missões para que todos os que foram amados de antemão, predestinados na eternidade, chamados no tempo, justificados pelo sangue do Cordeiro e selados com o Espírito Santo da promessa, desfrutem da glória eterna e exaltem o Filho de Deus, por tão grande salvação, pelos séculos sem fim.
Oh! Que nossa alma se deleite mais e mais em Deus, porque quanto mais pertos de Deus e quanto mais cheios de Deus, mais prazer teremos na adoração e mais comprometidos seremos no cumprimento da grande comissão. Adoração desemboca em missões e missões têm como propósito adoração!

Rev. Hernandes Dias Lopes

Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória-ES

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A importância vital da unidade cristã

A importância vital da unidade cristã

Referência: Filipenses 2.1-5

1. A unidade espiritual da igreja é produzida por Deus
A unidade espiritual da igreja é uma obra exclusiva de Deus. Não podemos produzir unidade, mas apenas mantê-la. Todos aqueles que crêem em Cristo, em qualquer lugar, em qualquer tempo fazem parte da família de Deus e estão ligados ao corpo de Cristo pelo Espírito.
Esta unidade não é externa, mas interna. Ela não é unidade denominacional, mas espiritual. Só existe um corpo de Cristo, uma igreja, um rebanho, uma noiva. Todos aqueles que nasceram de novo e foram lavados no sangue do cordeiro fazem parte dessa bendita família de Deus.
Esta unidade é construída sobre o fundamento da verdade (Ef 4.1-6). Por isso, a tendência ecumênica de unir todas as religiões, afirmando que doutrina divide enquanto o amor une é uma falácia. Não há unidade cristã fora da verdade.
2. A unidade espiritual da igreja precisa ser preservada com diligência
William Barclay diz que o perigo que ameaçava a igreja de Filipos e ainda ameaça todas as igrejas saudáveis é a desunião. Os negócios internos da igreja não iam tão bem quanto os negócios externos. Havia alguns transtornos em casa, diz William Hendriksen. Paulo exorta a igreja de Filipos a tapar as brechas que estavam comprometendo a unidade da igreja, como já havia exortado a igreja de Éfeso (Ef 4.3).
Paulo recorre a este tema, depois de tê-lo abordado no capítulo anterior (1.27). Ninguém pode destruir o fato de que pessoas que creram em Cristo, foram adotadas na família de Deus, nasceram do Espírito, foram seladas pelo Espírito e batizadas no corpo de Cristo pelo Espírito são um em Cristo Jesus. Porém, essas mesmas pessoas podem quebrar essa comunhão como os membros de uma família que em vez de viver em amor, vivem brigando entre si, deixando de desfrutar a alegria de uma convivência harmoniosa. Quando os crentes vivem brigando e falando mal uns dos outros, isso é um espetáculo lamentável e vergonhoso diante do mundo que desonra a Cristo e a própria igreja.
Paulo faz uma transição dos inimigos externos (1.28), para os perigos internos (2.1-4). Ralph Martin diz que esta transição que a palavra grega oun “pois” demarca, presume que Paulo está deixando a ameaça de um mundo hostil, para tratar de um problema igualmente ameaçador, o da comunidade dividida. Paulo alerta para o fato de que uma igreja dividida é uma presa fácil no caso de um ataque frontal da sociedade externa. Assim, não basta apenas ficar firme contra os perigos que vêm de fora, é preciso acautelar-se contra o perigo de esboroar-se por causa das divisões intestinas. Werner de Boor diz que, para Paulo “uma santa e una igreja” não era apenas um artigo de fé.
A palavra inicial usada por Paulo é traduzida melhor por “visto que”, ao invés de “se”. Essa conjunção grega ei “se” implica a inexistência de qualquer dúvida quanto à realidade destas bênçãos, quer na mente de Paulo, quer na experiência dos filipenses: poderia ser traduzido assim: “Tão certo quanto…”.
Acompanhemos o ensino de Paulo sobre esse tema fundamental para a igreja de Cristo em todos os tempos.
I. OS ALICERCES DA UNIDADE (2.1)
O apóstolo Paulo antes de exortar a igreja sobre a questão da unidade cristã dá a base doutrinária. Há quatro pilares que sustentam a unidade cristã. Esses pilares não são criados pela igreja, mas são dádivas de Deus à igreja. Robertson diz que há quatro fundamentos dados por Paulo para justificar seu apelo à unidade. Ele coloca esses fundamentos em forma cláusulas condicionais, mas ele assume em cada uma que a condição é verdadeira. Esses pilares já existem e eles precisam ser o alicerce da unidade.
J. A. Motyer destaca que podemos ver a obra da própria Trindade na construção da unidade da igreja. Os crentes estão em Cristo, experimentando a realidade do amor de Deus, pela ação do Espírito Santo. J. B. Lightfoot diz que o apóstolo Paulo apela aos filipenses por meio de sua mais profunda experiência como cristãos para preservarem a paz e a concórdia. Dos quatro fundamentos da unidade, o primeiro e o terceiro são objetivos (exortação em Cristo e comunhão do Espírito), os princípios externos do amor e harmonia; enquanto o segundo e o quarto (consolação de amor e entranhados afetos e misericórdias) são subjetivos, os sentimentos interiores que nos inspiram.
1. Exortação em Cristo (2.1)
A palavra grega paraklesis sugere que há uma obrigação colocada sobre os filipenses, oriunda diretamente de sua vida comum “em Cristo”, para trabalharem juntos, em harmonia. Paulo está convidando os filipenses a lembrar-se de seu status de comunidade amada por Cristo. Bruce Barton diz que todo crente tem recebido encorajamento, exortação e conforto de Cristo. Essa comum experiência deveria unir os crentes de Filipos. William Barclay alerta para o fato de que ninguém pode caminhar desunido com seu semelhante e ao mesmo tempo estar unido a Cristo. Ninguém pode viver a atmosfera de Cristo e viver ao mesmo tempo odiando a seus semelhantes.
2. Consolação de amor (2.1)
Robertson afirma que a palavra “consolação” aqui deveria ser traduzida como encorajamento e consolação, pois a idéia é terna persuasão do amor. Aqui é o amor de Cristo pela igreja que Paulo tem em vista. Ao conclamá-los para que vivam juntos em harmonia, Paulo apela para os mais altos motivos: o amor que o Senhor da Igreja nutre por seu povo deve impeli-los a viver dignamente. O amor nos leva a amar como Cristo nos amou (1Jo 3.16). O amor nos leva a suportar uns aos outros. O amor nos leva a perdoar uns aos outros. O inferno é a condição eterna dos que fizeram da relação com Deus e seus semelhantes algo impossível porque destruíram em suas vidas o amor.
William Barclay alerta para o fato de que não significa só amar aos que nos amam, aos que nos agradam ou aos que são dignos de ser amados. Significa uma boa vontade invencível para aqueles que nos odeiam. É o poder de amar aos que não nos agradam, é a capacidade semelhante à de Jesus Cristo de amar o que não é amável nem digno de amor.
3. Comunhão do Espírito (2.1)
A participação comum no Espírito, pela qual os crentes são batizados em um só corpo, deveria determinar a morte de toda desavença e espírito de partidarismo. F. F. Bruce diz que o Espírito trouxe os cristãos de Filipos à comunhão uns com os outros. Aquele que os uniu em Cristo, também os uniu uns aos outros. É o Espírito Santo que produz a nossa comunhão com Deus e a nossa comunhão com o próximo. É o Espírito que nos une a Deus e ao próximo de tal maneira que todo aquele que vive em desunião com seus semelhantes dá provas de não possuir o dom do Espírito. Bruce Barton afirma: “Porque só há um Espírito, há um só corpo (Ef 4.4); facções ou divisões não têm lugar no corpo de Cristo”.
O Espírito Santo é o princípio unificador na igreja local (1Co 12.4-11). Somente ele pode dar ordem ao caos e preservar a harmonia no corpo de Cristo. A não ser que o Espírito Santo reine, haverá na igreja confusão. Sem o Espírito Santo não há vida nem poder na igreja, diz Robertson. Onde reina o Espírito Santo, existe amor, porque o amor é fruto do Espírito.
4. Entranhados afetos e misericórdia (2.1)
A palavra grega splanchna “afetos” significa literalmente “as entranhas humanas”, consideradas como a sede da vida emocional (1.8). Enquanto no primeiro capítulo a palavra está se referindo ao amor de Paulo pelos filipenses, aqui ela se refere ao amor de Cristo por eles e através deles. Já a palavra grega oiktirmoi “misericórdias” é a palavra que descreve a emoção humana da piedade terna, ou simpatia. A irmandade em uma igreja não se limita a “sentimentos” nem se resume em atividades de ajuda e frias ações. Certamente nossas “entranhas” precisam ser movidas, e as aflições do irmão precisam despertar em nós uma viva compaixão.
Quando o Espírito Santo trabalha na vida do crente, o fruto do Espírito é produzido (Gl 5.22,23). Paulo destaca dois desses frutos que acentuam o verdadeiro cuidado de um para com o outro, o que pavimenta a unidade entre os crentes. “Afeto” refere-se à sensibilidade para com as necessidades e sentimentos dos outros, enquanto “compaixão” significa o sentimento de dor que alguém sente ao ver o outro sofrer e o desejo de aliviá-lo desse sofrimento. Tal preocupação fortalece a unidade entre os crentes. Toda desarmonia na igreja de Deus é falta dos entranhados afetos. É ausência de misericórdia.
II. OS PERIGOS CONTRA A UNIDADE (2.3,4)
O apóstolo Paulo já havia mencionado o exemplo negativo de alguns crentes de Roma que estavam trabalhando com a motivação errada (1.15,17). Esse comportamento fere a comunhão entre os irmãos e perturba a unidade da igreja. Agora, Paulo fala sobre dois perigos que conspiram contra a unidade da igreja.
1. Partidarismo (2.3)
A igreja de Filipos tinha muitas virtudes, a ponto de Paulo considerá-la sua alegria e coroa (4.1). Mas esta igreja estava ameaçada por alguns sérios perigos na área da unidade. Havia tensões dentro da igreja. A comunhão estava sendo atacada. A palavra grega eritheia traduzida por “partidarismo” é o resultado do egoísmo. Depois de Paulo mencionar a atitude mesquinha de alguns crentes de Roma que, movidos por inveja pregavam a Cristo para despertar nele ciúmes, pensando que o seu trabalho apostólico era uma espécie de campeonato em busca de prestígio, volta, agora, suas baterias para apontar os perigos que estavam afetando, também, a unidade na igreja de Filipos.
Em primeiro lugar, o perigo de trabalhar sem unidade (1.27). Nada debilita mais a unidade do que os crentes estarem engajados no serviço de Deus sem unidade. A obra de Deus não pode avançar quando cada um puxa para um lado, quando cada um busca mais seus interesses do que a glória de Cristo. Na igreja de Filipos havia ações desordenadas. Eles estavam todos lutando pelo Evangelho, mas não juntos.
Em segundo lugar, o perigo de líderes buscarem seus próprios interesses (2.21). Paulo ao enviar Timóteo à igreja de Filipos e dar bom testemunho acerca dele, denuncia, ao mesmo tempo, alguns líderes que buscavam seus próprios interesses. Esses líderes eram amantes dos holofotes; eles não buscavam a glória de Deus nem a edificação da igreja, mas a construção de monumentos aos seus próprios nomes.
Em terceiro lugar, o perigo de falsos mestres se infiltrando na igreja (3.2). Os falsos mestres, os maus obreiros e a heresia são sempre uma ameaça à igreja. Os lobos sempre buscarão uma brecha para entrarem no meio do rebanho (At 20.29). Paulo está alertando a igreja de Filipos sobre os judaizantes que tentavam desacreditar seu apostolado, ensinando que os gentios precisavam ser circuncidados caso desejassem ser salvos. Assim, eles negavam a suficiência da fé em Cristo e acrescentavam ritos judaicos como condição indispensável para a salvação.
Em quarto lugar, o perigo do mundanismo na igreja (3.17-19). A unidade da igreja de Filipos estava sendo ameaçada por homens mundanos, libertinos e imorais. Essas pessoas fizeram Paulo sofrer de tal modo, que o levaram às lágrimas (3.18). Paulo os chama de inimigos da cruz de Cristo (3.18). Essas pessoas eram mundanas, pois só se preocupavam com as coisas terrenas (3.19). Eram comilões, beberrões e imorais, com uma visão muito liberal da fé cristã, do tipo que está sempre dizendo: “isso não é pecado, não tem problema”. Em vez de a igreja seguir a vida escandalosa desses libertinos, deveria imitar o seu exemplo (2.17).
Em quinto lugar, o perigo dos crentes viverem em conflito dentro da igreja (4.2). Aqui o apóstolo está trabalhando com a questão do conflito entre lideranças da igreja local, pessoas que disputam entre si a atenção e os espaços de atuação na igreja. Paulo Lockmann comentando este texto diz que quando o trabalho era dirigido pela família de Evódia, o pessoal de Síntique não participava, e quando era promovido por Síntique quem não participava era o pessoal de Evódia.
2. Vanglória ou egoísmo (2.3)
Vanglória é buscar glória para si mesmo. A palavra grega kenodoxia traduzida por “vanglória” só aparece aqui em todo o Novo Testamento. Ela denota uma inclinação orgulhosa que busca tomar o lugar de Deus, e a estabelecer um status auto-assertivo que rapidamente induz ao desprezo do próximo (Gl 5.26). A vanglória destrói a verdadeira vida comunitária. Paulo colocou seu “dedo investigativo” bem na ferida dos filipenses. Os membros da igreja de Filipos estavam causando discórdia por causa de suas atitudes ou ações. Eles desejavam reconhecimento ou distinção, não por puros motivos, mas meramente por ambição pessoal. Eles estavam criando partidos baseados em prestígio pessoal, ao mesmo tempo em que desprezavam os outros.
III. O IMPERATIVO DA UNIDADE (2.2)
O apóstolo Paulo está preso, algemado, na ante-sala do martírio, mas sua atenção não está voltada para si mesmo. Havia alegria no coração do apóstolo (4.4,10), mas sua medida ainda não estava cheia. Um grau mais elevado de unidade, de humildade e de solicitude em família pode completar o que ainda falta no cálice da alegria de Paulo. Seu principal anseio não era a rápida libertação da prisão, mas o progresso espiritual dos filipenses. Sua alegria, não vem de suas condições pessoais, mas da condição da igreja de Deus. Mesmo preso Paulo diz que a igreja de Filipos era sua alegria e coroa (4.1). Suas orações em prol dos cristãos filipenses eram orações alegres (1.4). Mas, agora, o apóstolo deseja que o cálice da sua alegria transborde e por isso ordena: “Completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma cousa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento” (2.2). Paulo não pode estar alegre enquanto o espírito de facção existir nessa generosa igreja de Filipos.
F. F. Bruce diz que Paulo exorta, na verdade, para que tenham unanimidade de coração. Não se trata da unanimidade formal que se consegue manter mediante o exercício do poder de veto; trata-se daquela unanimidade sincera de propósitos, pela qual ninguém deseja impor um veto sobre as pessoas.
Aquela mesma igreja que estava comprometida com Paulo no apoio missionário, dando-lhe conforto e sustento financeiro, estava sendo ameaçada por divisões internas e isso estava toldando a alegria no coração do velho apóstolo.
Como a igreja poderia completar a alegria de Paulo?

1. Demonstrando unidade de pensamento (2.2)
A unidade de pensamento não é uma coisa fácil de alcançar, especialmente onde as pessoas têm uma mente ativa e um espírito independente. O verbo grego phronein usado aqui para definir “o pensar a mesma coisa” é muito importante nesta epístola, uma vez que aparece nesta carta dez vezes, enquanto aparece apenas mais treze vezes em todas as demais epístolas. Werner de Boor corretamente afirma que phronein não tem em vista o “pensamento” teórico do teólogo, mas o pensar prático, subordinado ao querer. Trata-se do phronein de Jesus Cristo, que neste caso não é o raciocínio doutrinário, com o qual o eterno Filho de Deus sem dúvida poderia ter apresentado uma imagem condizente de todas as coisas. Aqui se trata do “pensamento” que conduziu o Filho de Deus do trono da glória para a vergonha da morte na cruz! Se todos “pensarem” da maneira como Jesus Cristo também pensou, como ele morreu por pecadores, não poderão se separar; hão de apegar-se aos irmãos. Nessa mesma linha de pensamento Moule diz que a palavra phronein traduzida aqui por “mente” denota não uma capacidade intelectual, mas uma ação e uma atitude moral.
Bruce Barton está correto quando diz que “ter uma só mente” não significa que os crentes têm que concordar em tudo; em vez disso, cada crente deve ter a mesma atitude de Cristo, que Paulo descreve em Filipenses 2.5-11.
2. Demonstrando unidade nos relacionamentos (2.2)
Os irmãos da igreja de Filipos precisam ter o mesmo amor uns pelos outros, igual ao que Cristo tem por eles. Bruce Barton diz que o amor de Cristo o trouxe do céu para a humilde condição da natureza humana, para morrer na cruz em favor dos pecadores. Muito embora os crentes não podem fazer o que Cristo fez, eles podem seguir seu exemplo, quando expressam o mesmo amor na maneira de lidar uns com os outros.
3. Demonstrando unidade espiritual (2.2)

A igreja precisa ser unida de alma. Jesus orou para que todos aqueles que crêem possam ser um como ele e o Pai são um (Jo 17.22-24). Robertson diz que essa frase significa dois corações batendo como se fosse um só. Na igreja de Deus não há espaço para disputas pessoais. A igreja não é um concurso de projeção pessoal nem um campeonato de desempenhos pessoais. A igreja é um corpo onde cada membro coopera com o outro, visando a edificação de todos.
4. Demonstrando unidade de sentimento (2.2)
A igreja precisa ser ter o mesmo sentimento. A igreja é como um coro que deve cantar no mesmo tom. Os crentes não são competidores, mas cooperadores. Eles não são rivais, mas parceiros. Eles não estão lutando por causas pessoais, mas todos buscando a glória de Deus. Na igreja de Deus não devem existir disputas políticas, briga por cargos, ciúmes e invejas. O espírito de Diótrefes que buscava primazia e desprezava os outros, não deve ser cultivado na igreja de Deus (3Jo 9-11).
IV. A VIRTUDE QUE PROMOVE A UNIDADE (2.3-5)
A humildade é a virtude que promove a unidade. A humildade é o remédio para os males que atacam a unidade da igreja. A palavra grega tapeinophrosyne é um termo cunhado pelo cristianismo. Ralph Martin diz que “humildade” era uma expressão de opróbrio no pensamento clássico grego, tendo conotações de “servilismo”, como nas atitudes de um homem vil, ou de um escravo. Lightfoot diz que quase sempre entre os escritores gregos “humildade” tem um significado negativo. Entre o povo de Deus, a humildade é um imperativo, pois “Deus escarnece dos escarnecedores, mas dá graça aos humildes” (Pv 3.34). Tiago diz que Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes (Tg 4.6) e o apóstolo Pedro ordena: “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte” (1Pe 5.5). A humildade deve ser a marca do cristão, pois seu senhor e mestre foi “manso e humilde de coração” (Mt 11.29). Os discípulos de Cristo demoraram entender essa lição e muitas vezes discutiram quem devia ocupar a primazia entre eles. Nessas ocasiões Jesus lhes dizia que maior é o que serve e que ele mesmo veio não para ser servido, mas para servir (Mc 10.45).
1. O que é humildade? (2.3)
A humildade provém do conhecimento de Deus e de um correto conhecimento de si mesmo. Enquanto a ambição e o preconceito arruínam a unidade da igreja, a genuína humildade a edifica. Ser humilde envolve ter uma correta perspectiva sobre nós mesmos em relação a Deus (Rm 12.3), que por sua vez nos coloca numa correta perspectiva em relação ao próximo. O apóstolo Paulo deu o seu próprio testemunho em suas cartas. Durante a sua terceira viagem missionária se qualificou de “o menor dos apóstolos” (1Co 15.9), durante sua primeira prisão em Roma se intitulou de “o menor dos menores de todos os santos” (Ef 3.8), e um pouco mais tarde, durante o período que se estendeu da primeira à segunda prisão em Roma, levou essas descrições humildes de sua pessoa ao clímax, designando-se de “o principal dos pecadores” (1Tm 1.15). Jamais o orgulho prevalece no coração de alguém que conhece a Deus e a si mesmo. F. F. Bruce, citando James Montgomery lança luz sobre o que é humildade:
O pássaro que alça as asas nos céus,
Constrói seu ninho lá em baixo, na terra.
E o que trina maviosamente,
Canta de noite quando tudo repousa.
Na cotovia e no rouxinol vemos
Quanta honra cabe à humildade.
O santo que usa a coroa mais brilhante do céu,
Curva-se em humilde adoração.
O peso da glória faz que se prostre,
Quanto mais se prostra mais sua alma ascende;
O escabelo da humildade deve estar
Bem perto do trono de Deus.
2. Como a humildade se manifesta? (2.3,4)
O apóstolo Paulo menciona duas manifestações da humildade.
Em primeiro lugar, a humildade olha para o outro com honra (2.3). No capítulo primeiro, Paulo colocou Cristo em primeiro lugar (1.21). Agora, coloca o outro acima do eu (2.3). Uma pessoa humilde não tem sede de fama, projeção e aplausos. Ela não se embriaga com o poder. Ela não busca os holofotes do palco nem corre atrás das luzes da ribalta. Uma pessoa humilde não canta “quão grande és tu” diante do espelho. Werner de Boor diz que uma pessoa humilde tem prazer de realizar o serviço pouco aparente, o trabalho que permanece nos bastidores, a obra insignificante, deixando com alegria aos outros aquilo que parece mais importante e obtém maior reconhecimento.
Em segundo lugar, a humildade busca o interesse do outro com solicitude (2.4). A igreja de Filipos era multirracial: Lídia era uma judia rica, a jovem liberta era uma escrava grega e o carcereiro era um oficial romano da classe média. Nessas condições não era fácil manter a unidade da igreja. Ter interesse em proteger os interesses alheios, porém, faz parte dos alicerces da ética cristã. No mundo cada um cuida primeiro de si, pensa somente em si e tem o olhar atento apenas para os próprios interesses. Os interesses dos outros estão fora de seu verdadeiro campo de visão. Por isso tampouco existe no mundo verdadeira comunhão, mas somente o medo recíproco e a ciumenta autodefesa contra o outro. Na irmandade da igreja de Jesus pode e deve ser diferente, diz Werner de Boor.
É importante ressaltar que Paulo não exige que eu negligencie as minhas coisas e somente me engaje em favor dos outros. Porém, Paulo espera que meu olhar de amor e preocupação também caia sobre as necessidades, dificuldades e aflições do irmão, e presume que ainda restem tempo, energia e capacidade em quantidade suficiente.
3. O supremo exemplo da humildade (2.5)
Neste capítulo dois, Paulo cita quatro exemplos de humildade, ou seja, colocar o “outro” na frente do “eu” (2.5; 2.17; 2.20; 2.30). Porém, o argumento decisivo de Paulo é o exemplo de Cristo (2.5). F. F. Bruce diz que o exemplo de Cristo é sempre o argumento supremo de Paulo na exortação ética, principalmente quando trata do interesse altruísta pelo bem-estar do próximo. Se o exemplo de Cristo deve ser seguido, é melhor, então, manter maior interesse pelos direitos dos outros e pelos nossos deveres, do que cuidar principalmente de nossos direitos e dos deveres dos outros.
O texto que registra a encarnação, esvaziamento, humilhação, obediência, morte e exaltação de Cristo não é uma peça doutrinária escrita por um teológico de gabinete que está traçando reluzentes verdades doutrinárias contra o nevoeiro denso das heresias, mas foram escritas por um homem que, com humildade e amor lutava pela verdadeira concórdia de seus irmãos. Essas frases, com todo o seu teor dogmático são parte dessa luta. A leitura correta deste magno texto cristológico não é apenas aquela que trata da humilhação e exaltação do Filho de Deus, mas a que abala nosso coração egoísta e vaidoso por meio da trajetória seguida por Jesus.

Rev. Hernandes Dias Lopes

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A UNIDADE DA IGREJA

Entendendo e vivendo a unidade
(a doutrina do Corpo de Cristo na sua aplicação prática)

 “…para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim.” (João 17.23*).

A unidade cristã é um dos fatores vitais para a vida da igreja. Uma das marcas da Queda em nós é a dificuldade que temos de conviver pacificamente uns com os outros. Os relacionamentos quase sempre resultam em conflitos, que vão dos menores às guerras mais sangrentas. Para alguns a solução tem sido o isolamento ou individualismo.
A igreja tem uma natureza essencialmente coletivista, e a falta de unidade sempre resulta em fracasso na tentativa de ser igreja. Por isso, é preciso entender e viver a unidade. Sabendo o quanto ela é importante, Jesus pediu a Deus em nosso favor que fôssemos “perfeitos em unidade”. A unidade nos proporciona benefícios incontáveis. Vamos listar alguns:
A unidade promove o preparo espiritual da igreja para a vinda de Jesus
Por quê? Pois é no Corpo que o Espírito Santo realiza sua obra redentora que, por ser redentora, prepara o crente para o triunfo de Cristo em sua volta através de sua operação dinâmica e efetiva na igreja, seja em sinais, dons, santificação e edificação espiritual.

A unidade proporciona edificação espiritual
Em 1 Tessalonicenses 5.11 o apóstolo Paulo nos manda edificar uns aos outros. Construir uns aos outros, fazer o outro ser o quer tem que ser, para a glória de Deus. Este poder está na comunhão dos santos, no convívio dos crentes uns com os outros. A convivência tem o poder de nos aperfeiçoar por meio do compartilhamento de conhecimentos e experiências.
A unidade proporciona quebrantamento e transformação
Em 1 Pedro 4.12 o apóstolo nos exorta a não estranhar o “fogo ardente” que surge no meio da igreja, que parece algumas vezes comprometer a unidade. Unidade não é meramente ausência de conflitos, e sim, o foco fechado no ideal comum de glorificar o Salvador. Na unidade somos confrontados com nossas imperfeições e nossa tendência sempre é ir para a defensiva e negar as falhas, o que gera conflitos gigantescos e complexos. Muitas vezes tais conflitos não podem comprometer nossa unidade, antes, eles são permitidos por Deus para produzirem em nós quebrantamento. Por eles somos transformados. Em Provérbios 27.17 podemos ler: “Assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro.” Somos afiados e melhorados na unidade.
A unidade proporciona prestação de contas e santificação
Tiago 5.16 nos ensina a confessar nossos pecados uns aos outros, dentro do ambiente da unidade, pois nesta prática Deus derrama um poder natural de cura e vitória sobre o pecado. Muitos entendem que ninguém tem nada a ver com a vida deles, e por isso, acreditam que não precisam prestar contas de nada a ninguém. Este estilo de vida autônomo é uma das grandes tragédias da vida humana. Ninguém pode ser juiz de se mesmo, pois se for, estará só e totalmente vulnerável.
A unidade proporciona o ambiente para exercitar do amor fraternal
Temos aqui um grande desafio, pois não podemos e não devemos anular nossas particularidades. Temos muitas diferenças em várias áreas, em maturidade, cultura, em percepção, em conhecimento, em personalidade, em origem, em condição social etc. É exatamente nessa diversidade que o amor verdadeiro se expressa. O desafio consiste em entender e viver a unidade na diversidade.
A unidade viabiliza o cumprimento da missão
Viver em unidade não é apenas benéfico a nós no ambiente da igreja, mas também gera um poder extraordinário no serviço a Deus, e por si só, consiste em um testemunho eficaz aos da obra de Deus. Jesus disse em sua oração: “Para que o mundo creia que tu me enviaste”. (Grifo meu). Ou seja, a unidade da Igreja do Senhor é um fator imprescindível para um testemunho eficaz diante de todos os homens.
A unidade envolve pessoas diversas na formação de um corpo bem articulado, vivendo em total harmonia. Mesmo sendo tão diferentes, precisamos ser um, ter o mesmo propósito, observar a grandeza do que nos une e colocar de lado tudo aquilo que nos separa. Fomos resgatados das trevas e reunidos na Igreja, que é o Corpo de Cristo, para entendermos e vivermos a unidade. Para a glória de nosso Senhor.

Comunhão autêntica


Essa expressão “comunhão autêntica” é preciosa demais! E tem marcas identificadoras! Vejamos algumas marcas de uma comunhão autêntica!
1) Gente que se encontra!
“Todos os que creram estavam juntos…” (Atos 2:44).
A igreja primitiva tinha essa narrativa bíblica a seu respeito, uma informação de que “estavam juntos”. E isso é fundamental para a comunhão ser autêntica: estar junto! Estar no mesmo lugar. Se encontrar sempre. Relacionar- se. Um hábito natural para o ambiente de trabalho. Uma agenda semanal para os estudantes. Contudo, para os crentes em Cristo Jesus, um encontro prazeroso e desejado! Um momento esperado e marcado na agenda do coração! Os crentes em Cristo Jesus não conseguem ficar sem se encontrar! Encontram-se no prédio das reuniões de culto, nas casas, nos hospitais, nos acampamentos, nos congressos, nas viagens missionárias, nas reuniões de oração… e em tantos outros lugares e ocasiões!
2) Gente que se ajuda!
“Saudai Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus” (Romanos 16:3)
Aliás, na lista de todo o capítulo 16 de Romanos (até o verso 16), encontramos essas marcas de comunhão autêntica! Cooperação, trabalho, acolhimento, hospitalidade, oração, aconselhamento, celebração, solidariedade, interesse, amizade, etc… etc… etc. Esse “negócio” de chamar um ao outro de “Ô meu irmão! Ô minha irmã!” É de fato e de verdade! Há um parentesco espiritual realizado pela obra redentora de Jesus Cristo em cada um de nós! Essa adoção pelo Espírito nos faz filhos de Deus (Romanos 8:12-17). E viver essa fé familiar em comunhão com o povo de Deus é bênção demais para quem tem o privilégio e a alegria de participar e permanecer!
3) Gente que se ama
O número do crente é 13: 35! João 13: 35 – “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros”.
O amor é marca da comunhão autêntica, expressa através de atitudes de envolvimento e total comprometimento. Na comunidade da fé o amor não precisa de tragédias para se manifestar, ou seja, no ordinário, no cotidiano, no corriqueiro da vida ele está! Aliás, Jesus definiu esta como uma marca, um sinal de seu discipulado em nós!
4) Gente que se perdoa

Aquele “assim como” de Mateus 6:12, ou seja, na mesma medida. Somos perdoados por Deus e perdoamos uns aos outros, sempre!

Na força que vem de Deus, perdão livre e sempre pronto para fluir a quem dele necessitar. E isso tudo é tão saudável e leve. Todos que assim procedem são bem mais alegres e felizes! Comunhão autêntica, o plano de Deus para todos nós! Venha e faça parte conosco você também!

(*Citação bíblica extraída da Tradução Almeida Corrigida Fiel/ACF – Sociedade Bíblica Trinitária do Brasil.).


Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte

terça-feira, 27 de maio de 2014

Igreja, um corpo e uma organização


.

Por Renato César


Nos últimos anos, com o crescente aumento das megaigrejas, cujos líderes passaram a povoar programas televisivos com objetivos supostamente evangelísticos, cresceu também a rejeição de muitos adeptos de outras religiões, dos que se denominam ateus e até mesmo dos próprios evangélicos aos persistentes apelos financeiros desses líderes religiosos.

Na contramão do discurso de “promessas de bênçãos divinas para os dizimistas fiéis” surgiram grupos de evangélicos, muitos dos quais decepcionados com as instituições religiosas e seus líderes, apregoando o ensinamento de que o dízimo não é para os cristãos, mas uma prática restrita ao povo judeu do Antigo Testamento. Esse novo grupo de cristãos tem ganhado cada vez mais espaço, especialmente entre os “sem igreja”, e atraído mais e mais crentes.

A despeito da validade ou não dos argumentos, o fato é que essa nova ala de evangélicos não-dizimistas está evoluindo em seus argumentos, caminhando exatamente na contramão do discurso tradicional do templo sagrado como local onde o povo de Deus deve se congregar, bem como tem combatido ardorosamente a atual estrutura em que está envolto o ambiente eclesiástico, especialmente no que diz respeito à remuneração de pastores.

Não tenho a intenção de discutir aqui a fundamentação bíblica do dízimo para os cristãos, e nem se pastores devem ou não ser remunerados. Esse embate esconde um viés ainda mais preocupante. Refiro-me ao extremo ao qual alguns cristãos tem chegado ao se posicionarem contra qualquer tipo de institucionalização da igreja, contrapondo-se à histórica prática cristã de reunião em templos. Os mais radicais condenam qualquer forma de ajuntamento que implique organização, ou seja a existência de um líder e de uma estrutura administrativa. Uma igreja não organizada formalmente não teria despesas administrativas, incluindo pastores, e logo poderia ter todos os seus recursos destinados a causas mais nobres que manutenção dela mesma, argumentam.

Muitas das críticas feitas à forma como as igrejas se tem portado são pertinentes, e eu mesmo estou entre aqueles que reprovam a maneira pouco eficaz e, muitas vezes, nada honesta como o dinheiro tem sido gerido pelas igrejas institucionalizadas. Mas seria a solução jogar para o ar todo tipo de estrutura administrativa montada em torno da pregação do evangelho? Organizações eclesiásticas trazem realmente mais malefícios que benefícios ao Reino de Deus na Terra?

Quando um grupo de cristãos está reunido, Deus está presente entre eles como está em qualquer outro lugar. Se essas pessoas são apenas um grupo, então elas irão se reunir com objetivos próprios e voltar para suas casas. Alguns poderão alcançar seus objetivos, outros não, mas isso não deverá interferir na estabilidade do grupo. Contudo, se esse ajuntamento não for só um grupo, mas uma equipe, isso significa que as pessoas têm objetivos em comum, que irão direcionar todo o grupo para um objetivo que é de todos. Isso tornará necessário a existência de um líder, e também de uma organização mínima do recursos que permita haver uma combinação de esforços mútuos num mesmo sentido. Agora pense: qual desses dois se parece mais com o corpo de Cristo?

O corpo de Cristo é sua igreja, que tem muitos membros exercendo diferentes dons, que se complementam a fim de que o corpo seja perfeito. Como bem ensinou o apóstolo Paulo em 1Co 12, o corpo de Cristo possui muitos membros, cada um com seu papel, de modo que são todos importantes. Isso é uma equipe! Pessoas com tarefas específicas (dons) trabalhando em torno de um objetivo (proclamação do evangelho) sob a autoridade de um líder (Cristo).

Dessa forma, se servimos a Deus com tudo que temos, devemos servir também com nossos recursos financeiros. Mas se cada um usa seu dinheiro como bem entende, de modo que uns escolhem doar para organizações de caridade, outros para projetos missionários específicos, e ainda outros para a igreja, temos que não há neste caso organização, nem muito menos uma equipe, mas tão somente um grupo de pessoas que se reúnem, e isso não representa o que realmente é o corpo de Cristo.

É claro que ninguém está impedido de contribuir de forma particular e com fins diferenciados, mas deve haver um mínimo de sincronismo entre aqueles que se reúnem num mesmo ajuntamento, no sentido de reunir recursos humanos e financeiros para a consecução de um objetivo comum a todos, pois isso não somente é mais coerente com a ideia de corpo, como também mais eficiente. Dois separados são apenas dois, mas juntos eles podem ser mais. Isso se chama sinergia.

Não à toa existem redes de supermercados ou ocorrem fusões de grandes empresas. Quase todos sabem que unidos podem fazer mais que sozinhos. Falta aos cristãos "modernos" saberem disso também, e tentarem encontrar um meio termo entre suas indignações e a missão da igreja, que poderá ser mais eficazmente realizada se nos concentrarmos em trabalhar juntos, apesar de nossas diferenças e pecados.