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domingo, 28 de junho de 2015

Trabalho de Hermenêutica (Gabriel F. M. Rocha)



Exercício 1:

·         Como se harmonizam os textos de Paulo e Tiago, dizendo um: “[...] concluímos, pois que o homem é justificado pela fé, independente das obras da lei”. E outro: “[...] verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente”.


Desenvolvimento do exercício:


1)    Contexto geral da frase escrita por Paulo em Romanos 3. 28:

             Paulo, em todo o contexto do capítulo 3 (desdobrando o tema também nos capítulos posteriores), fala a respeito da justificação pela fé. A abordagem desse assunto parte da tentativa de refutar a antiga noção israelita de meritocracia e exclusivismo através da guarda da Lei[1]. Paulo, portanto, estava – em todo o contexto – explicando que, a justificação (perdão dos pecados e aceitação diante de Deus) viria não pela posse ou pelas obras da lei[2] (a guarda da lei), pois, como afirma Paulo, não há acepção de pessoas. Por que não há? Por que não há nenhuma vantagem em guardar a Lei, pois, “[...] não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram e se fizeram inúteis...”[3]. Portanto, a lei apenas mostra ao homem (e especialmente mostrava ao judeu) sua incapacidade de se auto-justificar por ela, pois, simplesmente não consegue tal feito. Contudo, Paulo mostra que “[...] sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem [...] sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus [...] mediante a fé, para manifestar a sua justiça [...]”[4].


2)    O objetivo de Paulo ao escrever a seguinte frase: “[...] concluímos, pois que o homem é justificado pela fé, independente das obras da lei”:
      Paulo, portanto, queria dizer que:

A)   Embora os judeus tivessem em mãos e Lei, não havia alguma acepção de pessoas (2. 11- 15);
B)   Todos, sem exceção, pecaram e foram afastados da glória de Deus (3. 12);
C)    E que, sem lei, manifestou a justiça (ou justificação) pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo. Portanto, o homem é justificado sem alguma “obra extra” ou “ajuda”, sendo a justificação suficiente em si através da fé. Desse modo, a idéia de mérito (pelas obras) é superada.

            Assim, ao falar que a justificação se dá somente pela fé, Paulo não está dizendo que as nossas obras são logo invalidadas. Tanto é verdade isso que, em Rm 314, ele justifica que alguns gentios que andaram “em conformidade com a lei”, mostraram a obediência à vontade divina tendo a lei “gravada no coração”. Portanto, considerando que a parte extinta da lei se refere apenas à cerimonial (ou religiosa), pois essa foi cumprida em Cristo, ainda está mantida a face objetiva da lei os benefícios da ação (intersubjetiva) da lei, a saber, o conteúdo moral e alguns aspectos da lei civil. Portanto, “as obras da lei” não estão sendo refutadas por Paulo em sua afirmação em Rm 3. 28, mas ele apenas quer mostrar que o ato da justificação se dá suficientemente em Cristo mediante nossa fé em Jesus Cristo.

3)    A frase de Tiago (Tg 2. 24):


            A frase de Tiago, por sua vez, não está em desacordo (ou desarmonia) com a frase paulina conforme a análise acima. Tiago diz: “[...] Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente[5]. Há uma harmonia implícita. Vejamos:

1)    É necessário fazer primeiro uma análise textual:

             Várias vezes em sua carta, Tiago usa o verbo “justificar”. Pois bem, o verbo aparece em Tg 2. 21e 2. 24,25 do mesmo modo que aparece em Rm 3. 28. O termo grego para “justificar” ou “justificação” é “dikaioo” que remete à idéia de: justiça, retidão, tornar alguém justo, considerar alguém justo, ser justo, absolver, inocentar, e livrar de uma possível condenação. Note que no contexto paulino (Rm 3. 28), a “justificação” (que é somente pela fé) aparece no sentido de “inocentar”, “absolver”, “livrar de uma condenação” e, sobretudo, “tornar alguém justo”. Mas, Tiago em sua carta, usa o termo em total harmonia com o próprio contexto da frase. O que o contexto de Tiago cap. 2 informa? Resumidamente, Tiago está falando a respeito da necessidade das obras como evidência intrínseca da fé. Como se prova isso? Veja que desde o início de sua carata, Tiago trata de questões que envolvem postura moral, espiritual e religiosa (1. 4- 11; 1. 14-27/ 2. 1-13). Após tais advertências, ele rapidamente liga sua fala à questão da necessidade de se evidenciar as “boas obras” como evidência e “prova” da própria fé. Veja em Tg 2. 14-23. Portanto, Tiago está querendo mostrar que, a fé é meio para a justificação com Deus (pois aceita a dádiva da fé e a suficiência da fé em 1. 3; 1. 6; 2. 1; 2. 5), mas, discorre sua fala ao mostrar que a nossa fé deve pressupor as boas obras. “Boas obras” aqui não num sentido sinergista (participação humana na própria justificação e salvação), mas no sentido de “obras como extensão intersubjetiva (ou visível) da fé”. A fé subjetiva (fé para mim mesmo) é insustentável, pois, nas afirmações de Tiago, a fé é necessariamente desdobrada em boas obras. Que boas obras? Boas atitudes que evidenciam a genuína fé e a genuína religião (Tg 1. 22- 27).
            Portanto, não existe contradição entre Paulo e Tiago. Pelo contrário: é fácil enxergar a harmonia entre ambos.  O termo “justificado” em G 2. 24 é o mesmo usado por Paulo em Rm 3. 28, mas não tem uma conotação semelhante. É totalmente aceitável que Tiago tenha usado “dikaioo” (justificado) para definir “justo” como um tipo de reconhecimento. Justiça é uma virtude e virtude só se torna virtude quando é reconhecida e aplicada em relação ao outro. Como se reconhece um justo? Pelos atos de justiça, pelos atos virtuosos. Isso corrobora em tudo com o contexto explicativo de Tiago. O termo “justificado” no original também dá a idéia de “ser justo”. Ou seja, “o homem é justo (ou se mostra justo) pelas obras...”. “E não somente a fé”. O “somente” aqui não supõe a insuficiência da fé (o que poderia, de fato, entrar em contradição com Paulo), mas transmite a idéia de que: ninguém pode se dizer justificado por simplesmente professar a fé (falar que tem fé)[6], pois a verdadeira fé se mostra (se prova) pelas obras e pelos frutos. A fé verdadeira necessariamente produz seus frutos. Frutos que se mostram nas obras do genuíno cristão. Quem é o genuíno cristão? Aquele que foi justificado por sua fé em Jesus Cristo.


Termino o primeiro exercício citando a CFW (Confissão de Fé de Westminster) XI, I e II:

I. Os que Deus chama eficazmente, também livremente justifica. Esta justificação não consiste em Deus infundir neles a justiça, mas em perdoar os seus pecados e em considerar e aceitar as suas pessoas como justas. Deus não os justifica em razão de qualquer coisa neles operada ou por eles feita, mas somente em consideração da obra de Cristo; não lhes imputando como justiça a própria fé, o ato de crer ou qualquer outro ato de obediência evangélica, mas imputando-lhes a obediência e a satisfação de Cristo, quando eles o recebem e se firmam nele pela fé, que não têm de si mesmos, mas que é dom de Deus.

Rom. 8:30 e 3:24, 27-28; II Cor. 5:19, 21; Tito 3:5-7; Ef. 1:7; Jer. 23:6; João 1:12 e 6:44-45; At. 10:43-44; Fil. 1:20; Ef. 2:8.

II. A fé, assim recebendo e assim se firmando em Cristo e na justiça dele, é o único instrumento de justificação; ela, contudo não está sozinha na pessoa justificada, mas sempre anda acompanhada de todas as outras graças salvadoras; não é uma fé morta, mas obra por amor.

João 3:16, 18, 36; Rom. 3:28, e 5: I; Tiago 2:17, 22, 26; Gal. 5:6.


Exercício 2:

·         Como se explica a afirmação de João de que o cristão não pode pecar (1Jo 3. 9)?

            João inicia o capítulo dizendo que nós fomos feitos “filhos de Deus”[7]. Por isso “o mundo não nos conhece, porquanto não conheceu a ele”. Essas duas afirmações é quem vão definir a ideia da frase de 1Jo 3. 9.
            Se nós somos filhos de Deus e Deus é Santo, como filhos nós não podemos continuar em pecado. Há uma sutil diferença em “nunca pecar” e “não estar (ou andar) em pecado”. João em momento nenhum se contradiz ou faz alguma confusão quando afirma em 1. 8 que somos seres de pecados e, “[...] se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos...”. Mesmo que logo ele afirme que “todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado” (3. 9). Por quê?

1)    Porque na carta admite-se que todos são pecadores quando a mesma afirma que, pelo sangue de Jesus, somos purificados de todo o pecado. “[...] o sangue [...] purifica” está aplicado no original não no sentido de “uma vez nos purificou para jamais pecar novamente” (embora a proposta do Evangelho seja mesmo essa). Mas, João  transmite a idéia de uma continuidade, pois o pecado é ainda parte da própria estrutura corruptível da humanidade. Além disso, em 2. 1é advertido a não pecar, mas, “se todavia alguém pecar, temos um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo”[8] e seu sangue nos purifica te todo o pecado quando confessamos[9]. Portanto, em lugar nenhum João está afirmando que estamos livre de todo o pecado, sendo altamente fatal cometer uma falha qualquer.
2)    João está dizendo que: sendo nós filhos de um Deus santo, não podemos andar, praticar, cometer deliberadamente o pecado, pois somos nascidos de Deus, portanto: todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado [...] este não pode viver pecando, porque é nascido de Deus”. Não há a idéia falsa de que jamais podemos pecar, pois contrariaria a própria condição humana e, a perfeição pessoal, alcançaremos ainda em glória. Mas, a idéia é: devemos buscar a santidade a fim de não cometer nenhum pecado. Como explica João: não podemos permanecer pecando, pois não seríamos filhos de Deus, mas sim do diabo[10].


Perguntas:

1)    Pergunta 1:

·         A parábola do trigo e do joio (Mateus 13. 25-30) parece ensinar que o erro dentro da igreja não deve ser julgado pelo receio de arrancar “também com ele o trigo”. como você conciliaria este ponto como evidente ensino de Mateus 7. 15-20, Tito 3. 10 e outros versículos que parecem ensinar que a igreja deve julgar o mal e o erro em seu meio?

Resposta:

           Para iniciar a resposta, deve-se postular o seguinte: o campo é o mundo inteiro, não somente Israel ou a igreja. Não poderia haver um julgamento imediato por parte de Deus, por consideração aos seus eleitos pelo mundo. Alé disso, há um tempo determinado para isso. Antes, deve haver os frutos entre os fieis (ao mesmo tempo em que o mundo também dá seus frutos ruins, pois foram lançados pelo diabo). Por último, o “lançar ao fogo” pertence a Deus e não a nós. Diante dessa prévia análise, não sei se a parábola fala propriamente de julgar erros dentro das igrejas, embora se encaixe bem com essa ideia. O certo é que os justos têm vivido entre os injustos desde os primórdios da humanidade.
           Mas, considerando a idéia central da parábola (a “moral” da história), sabemos que os pecadores e injustos não poderão ser “recolhidos” e “lançados no fogo” agora. Há um tempo determinado para a “colheita”.
            Porém, considerando que o texto trate também a respeito de pecados e pecadores dentro da igreja (o que de fato existe), podemos conciliar com outras afirmativas, como a de Mt 7. 15-20.

A)   Primeiro:

           Há uma diferença de advertência em ambos os textos. Mt 13. 25-30 trata da perspectiva de Deus em relação ao seu trato final com aqueles que são pecadores e que se “parecem” ou se “misturam” com os crentes (perceba que joio e trigo têm certa semelhança). A parábola está falando de quê? Do reino. Do reino de quem? De Deus. Portanto, a perspectiva de Deus quanto à retirada definitiva do pecado é que é tratada na parábola. Lembremos que: mesmo que todos os crentes fieis julguem segundo a reta justiça (Jo 7. 24) e denunciem todos os erros, pecados e enganadores (Mt 7. 15-20), até o dia da Volta de Cristo esses ainda estarão entre os santos. Veja as advertências de Cristo às sete igrejas da Ásia (Ap 2. 1-28 a 3. 1-22). Erros e acertos sempre existirão dentro das igrejas, mas caberá sempre à própria igreja “consertar” tais erros, julgando e refutando todas as obras erradas entre eles.
           Portanto, o ato de julgamento da igreja (segundo a reta justiça e em obediência a Mt 7. 15-20) deverá existir constantemente como uma das tarefas específicas da Igreja. Contudo, a “arrancada definitiva’ (idéia da parábola do joio e do trigo) só acontecerá no juízo final com a ação poderosa do próprio Juiz (Deus). Concluindo: são perspectivas diferentes. A primeira remete à ação do próprio Deus no estabelecimento definitivo de seu reino, arrancando todo fruto ruim (e em todo o contexto Jesus fala sobre como é e como será o reino de Deus) e a segunda fala da ação da própria igreja em cautela para não ser contaminada com os enganadores e falsos crentes, buscando conhecer, desde já, os frutos de cada um.

B)   Segundo:

           Em Tito 3. 10 há a seguinte advertência de Paulo: “Evita o homem faccioso, depois de admoestá-lo primeira e segunda vez [...]”. Essa frase corrobora em tudo com outra frase paulina: “[..] Evita, de igual modo, os falatórios inúteis e profanos...” (2 Tm 2. 16). Note que o contexto dessa frase é de admoestação em relação aos falsos crentes e doutrinas, ou seja, é necessário evitar tudo e todos dentro das igrejas quando se tratam de erros, falsas doutrinas, falsos crentes, pecados, etc.

2)    Pergunta 2:

·         Um cristão perdeu o emprego durante a recessão de 1974-75. Ele e a esposa interpretaram Romanos 8. 28 (“Todas as coisas cooperam para o bem”), no sentido de que ele perdeu o emprego a fim de que Deus pudesse dar-lhe um mais bem remunerado. Conseqüentemente ele rejeitou diversas oportunidades de emprego de remuneração inferior ou igual a que ele tinha, e permaneceu na condição de desempregado por mais de dois anos antes de voltar ao trabalho. Concorda você com a interpretação que ele deu a esse versículo? Por que sim ou por que não?

Resposta:

            Não concordo! Por que não concordo? Porque o contexto da frase de Rm 8. 28 não se trata – exatamente – de uma cooperação no sentido aplicado pelo rapaz. Explico: o contexto de Romanos 8, desde o versículo 1, trata a respeito da segurança do crente em relação à sua salvação em Cristo e da vida espiritual em detrimento da vida carnal (veja em: Rm 8. 1-11/ Rm 8. 26 -39). Paulo transmite que fomos reconciliados para vivermos, agora, em espírito, pois somos de Cristo. E, estando em Cristo, venceremos com Ele e perseveraremos até o fim. Portanto, mesmo com as adversidades carnais, temporais, circunstanciais, etc. a morte e a condenação poderá nos tragar e, mesmo que tente, o Espírito Santo intercede por nós em nossa fraqueza e, nesse contexto e nessa idéia, é que Paulo escreve: “[...] todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus...”. Quem são os que amam? Os que “são chamados segundo o seu propósito” (v. 28). O propósito de Deus pode ser contrariado? Não! (veja em Rm 8. 30-39) Seremos conservados em Cristo. Portanto, todas as coisas, mediante a intercessão do Espírito Santo, cooperarão para o nosso bem a fim de que não venhamos ser tragados pela derrota, pois, se não fosse a intercessão do Espírito Santo de Deus, não perseveraríamos e cairíamos derrotados pela carne e pelo pecado.Portanto, o cristão desempregado fez uma leitura radical de Rm 8. 28.

            O versículo poderia, de algum modo, sugerir uma cooperação de Deus para o bem (em vários sentidos) de cada cristão? Sim! Mas isso não é uma regra, pois, embora nós crentes tenhamos a certeza do cuidado de Deus e da vitória em Cristo, podemos também padecer faltas, carências e decréscimos nesta vida. E, mesmo assim, tais “infelicidades” não implicariam numa não-cooperação divina, pois, como disse o próprio Paulo:


“[...] já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece”.[11]



 Gabriel Felipe M. Rocha










 Gabriel F. M. Rocha é presbiteriano, formado em História (licenciatura e bacharelado), pós-graduado em Sociologia; mestrando em Filosofia (Ética e Antropologia), professor e pesquisador/ professor de História da Igreja pela Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte.




[1] Rm 2. 12-29; 3. 1-20.
[2] Rm 2. 11; 2. 12-16.
[3] Rm 3. 11,12.
[4] Rm 3. 21-25.
[5] Tg 2. 24.
[6] Tg 2. 17-23.
[7] 1Jo 3.1.
[8] 1Jo 2. 1.
[9] 1Jo 1. 7.
[10] 1Jo 3.8.
[11] Fp 4. 11-13.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

CONTINUISMO



Amados e selecionados leitores do Blog Palavra a Sério, a paz! Revirando alguns artigos teológicos que tenho em meus arquivos escolares, achei este texto de Sam Storms muito interessante sobre o 'continuísmo'. Como eu ainda estou escrevendo um estudo bíblico e doutrinário que pretendo postar em março, posto este. Vale a pena ler!
 "E então, por que sou continuísta? Seguem minhas razões (por favor note que escrevi diversos artigos que fornecem ampla evidência para os pontos que defendo, mas a limitação de espaço me permite apenas citá-los nominalmente. Todos podem ser encontrados no meu site.

Deixe-me começar com a presença sólida, certamente difundida e inteiramente positiva de todos os dons espirituais por todo o Novo Testamento (NT). Os problemas que surgiram na igreja de Corinto não se deram por conta dos dons espirituais, mas por pessoas imaturas. As advertências de Paulo não se referiam aos dons de Deus mas, sim, à distorção infantil, ambiciosa e orgulhosa da parte de alguns.

Além do mais, começando com o Pentecoste e percorrendo todo o livro de Atos, vemos que toda vez que o Espírito era derramado sobre os novos convertidos, eles experimentavam do seu carisma. Não há nada que indique que esses fenômenos eram restritos a eles e à época. Tais manifestações parecem ser tanto difundidas quanto comuns na igreja do NT. Os cristãos em Roma (Rm 12), Corinto (1 Co 12-14), Samaria (At 8), Cesareia (At 10), Antioquia (At 13), Éfeso (At 19), Tessalônica (1 Ts 5) e Galácia (Gl 3) experimentaram dos dons de milagres e revelação. É difícil imaginar como os autores do NT poderiam ter falado mais claramente sobre como deveria ser o Cristianismo da Nova Aliança. Em outras palavras, o fardo de provar o contrário está com o cessacionista. Se certos dons de uma classe especial cessaram, a responsabilidade de prová-lo depende dele ou dela.

Evidência extensa

 Gostaria de apontar também a extensa evidência neotestamentária dos chamados dons milagrosos entre cristãos que não são apóstolos. Ou seja, vários homens e mulheres que não eram apóstolos, jovens e anciãos, em toda a extensão do império romano exerciam de maneira consistente esses dons do Espírito (e Estevão e Felipe ministravam no poder de sinais e maravilhas). Aqueles que exerciam os dons miraculosos mas não eram apóstolos são (1) os 70 que foram comissionados em Lucas 10.9, 19-20; (2) pelo menos 108 pessoas dentre os 120 que estavam reunidos no salão superior no dia de Pentecostes, (3) Estevão (At 6,7); (4) Felipe (At 8); (5) Ananias (At 9); (6) membros da igreja de Antioquia (At 13); (7) convertidos anônimos em Éfeso (At 19.6); (8) mulheres em Cesareia (At 21.8,9); (9) os irmãos sem nome de Gálatas 3.5; (10) crentes em Roma (Rm 12.6-8); (11) crentes em Corinto (1 Co 12-14); e (12) cristãos em Tessalônica (1 Ts 5.19,20).

Também temos que dar espaço para o objetivo explícito e frequentemente repetido do propósito dos carismas: nomeadamente, a edificação do corpo de Cristo (1 Co 12.7; 14.3; 26). Nada do que leio no NT ou do que vejo na condição da igreja em qualquer era, passada ou presente, me leva a crer que progredimos além da necessidade pela edificação – e consequentemente além da necessidade pela contribuição dos carismas. Eu confesso livremente que os dons espirituais foram essenciais para o nascimento da igreja, mas por que eles seriam menos importantes ou necessários para o crescimento e amadurecimento contínuos?

Há também a continuidade fundamental ou o relacionamento espiritual orgânico entre a igreja de Atos e a igreja dos séculos subsequentes. Ninguém nega que houve uma era ou período no começo da igreja que chamemos de “apostólica”. Temos que reconhecer o significado da presença pessoal e física dos apóstolos e o seu papel único na formação da fundação da igreja nos primeiros séculos. Mas não há no NT qualquer coisa que sugira que certos dons espirituais eram exclusiva e unicamente ligados a eles ou que os dons se encerraram com a partida deles. A igreja universal ou corpo de Cristo que foi estabelecida por meio do ministério dos apóstolos é a mesma igreja universal e corpo de Cristo hoje. Estamos juntos com Paulo, Pedro, Silas, Lídia, Priscila e Lucas, membros do mesmo corpo de Cristo.

Bem ligado ao ponto anterior é o que Pedro diz em Atos 2, referente aos ditos dons miraculosos como característicos da era pactual da igreja. Como já disse D. A. Carson: “A vinda do Espírito não está associada meramente com o nascimento da nova era, mas com a sua presença, não meramente com o Pentecoste, mas com todo o período do Pentecoste até o retorno de Jesus, o Messias” (em A Manifestação do Espírito, Ed. Vida Nova). Novamente, os dons de profecia e línguas (At 2) não são retratados como mera inauguração da nova era pactual, mas para caracterizá-la (não esqueçamos de que a era atual da igreja equivale aos “últimos dias”).

Devemos também notar 1 Coríntios 13.8-12. Nesse texto Paulo certifica que os dons espirituais não “passarão” (ver v.8-10) até a vinda do “perfeito”. Se o “perfeito” é realmente a consumação do propósito redentivo de Deus tal qual expressado pelo novo céu e nova terra seguindo a volta de Cristo, podemos confiantemente esperar que Ele continue a abençoar e capacitar a sua igreja com dons até aquela hora.

Um ponto semelhante aparece em Efésios 4.11-14. Aqui, Paulo fala de dons espirituais (junto com o ofício de apóstolo) – e particularmente dos dons de profecia, evangelismo, pastoreio e ensino – como construção da igreja “até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo” (V. 13, NVI – grifos meus). Já que a plenitude de Cristo certamente ainda não foi atingida pela igreja, podemos antecipar com confiança a presença e o poder de tais dons até que aquele dia chegue.

Gostaria de também apontar a ausência de uma noção explícita ou implícita de que devemos enxergar os dons espirituais de maneira diferente que outras práticas e ministérios neotestamentários retratados como essenciais à vida e ao bem estar da igreja. Quando lemos o NT, parece evidente que a disciplina na igreja deve ser praticada em nossas assembleias atuais, devemos celebrar a mesa do Senhor e o batismo com água e que os requerimentos para o exercício do ancião como descrito nas epístolas pastorais ainda determinam como a vida na igreja deve ser levada, citando apenas alguns. Quais boas razões exegéticas ou teológicas podem ser dadas para explicar por que devemos tratar a presença e operação dos dons espirituais de maneira diferente?

Testemunho consistente

 Ao contrário do que muitos pensam, há um testemunho consistente ao longo de grande parte da história da Igreja referente à operação dos dons miraculosos do Espírito. Simplesmente não é verdade que os dons cessaram ou desapareceram da vida no começo da Igreja após a morte do último apóstolo. O espaço não permite citar a evidência maciça concernente, então me referirei a quatro artigos que escrevi com uma documentação extensa (ver Spiritual Gifts in Church History).

Cessacionistas frequentemente argumentam que sinais e maravilhas, assim como certos dons, serviram somente para confirmar e autenticar o grupo original de apóstolos e que quando esses morreram, também cessaram os dons. A verdade é que nenhum texto bíblico (nem mesmo Hb 2.4 ou 2 Co 12.12, dois textos que explico em artigos nowww.samstorms.com) chega a dizer que sinais e maravilhas ou certos dons espirituais serviram para autenticar os apóstolos. Sinais e maravilhas autenticaram Jesus e a mensagem apostólica referente a ele. Se sinais e maravilhas foram designados exclusivamente para autenticar os apóstolos, não temos como explicar porque pessoas que não eram apóstolos (como Felipe e Estevão) foram capacitados a exercê-los (ver especialmente 1 Co 12.8-10, onde o “dom” de “milagres”, entre outros, foi dado a crentes medianos, que não eram apóstolos).

Portanto, essa é uma boa razão para ser cessacionista apenas se você puder demonstrar que a autenticação ou testificação da mensagem apostólica era o propósito único e exclusivo de tais demonstrações de poder divino. Todavia, em nenhum lugar do NT o propósito ou função dos milagres ou carismas é reduzido à testificação. O agir miraculoso, em qualquer forma que seja, servia a outros propósitos distintos: doxológico (para glorificar a Deus: Jo 2.11, 9.3, 11.4, 11.40 e Mt 15.29-31); evangelístico (para preparar o caminho para que o Evangelho fosse conhecido: ver At 9.32-43); pastoral (como expressão de compaixão e amor e cuidado com as ovelhas: Mt 14.14; Mc 1.40,41); e edificação (para levantar e fortalecer os crentes: 1 Co 12.7 e o “bem comum”; 1 Co 14.3-5, 26).

Todos os dons do Espírito, seja línguas ou ensino, profecia ou misericórdia, cura ou auxílio, foram dados (dentre outras razões) para a edificação, fortalecimento, encorajamento, instrução, consolo e santificação do corpo de Cristo. Então, mesmo que o ministério dos dons miraculosos para atestar e autenticar tenha cessado, um ponto que concedo apenas para efeitos de argumentação, tais dons teriam que continuar a funcionar na igreja pelas outras razões citadas.

Ainda final e suficiente

Talvez a objeção mais comum dos cessacionistas seja que reconhecer a validade dos dons de revelação, como profecia e palavra de conhecimento, necessariamente compromete a finalidade e suficiência das Escrituras Sagradas. Mas esse argumento é baseado na falsa suposição de que esses dons nos dão verdades infalíveis com igual autoridade à do próprio texto bíblico (veja o meu artigo “Why NT Prophecy Does NOT Result in ‘Scripture-Quality’ Revelatory Words“).

Também é mencionado o apelo cessacionista a Efésios 2.20, como se esse texto descrevesse todo o possível ministério profético. O argumento diz que os dons de revelação como profecia foram unicamente ligados aos apóstolos e portanto designados para funcionar apenas durante o dito período de fundação da igreja nos primeiros séculos. Abordo esta visão fundamentalmente errônea em detalhe aqui. Um exame cuidadoso das evidências bíblicas referentes tanto à natureza do dom de profecia quanto à sua extensa presença entre cristãos indica que este dom servia a outros propósitos muito além da fundação da igreja. Portanto, nem a morte dos apóstolos, nem o desenvolvimento da igreja além dos seus primeiros séculos têm importância sobre a validade de profecias para hoje. Também é citado com frequência o argumento do agrupamento, por assim dizer, que diz que os fenômenos miraculosos e sobrenaturais foram supostamente concentrados ou agrupados em períodos específicos na história redentora. Já abordei este argumento num outro artigo e mostrei que é falso.

Finalmente, apesar de tecnicamente não ser uma razão ou argumento para ser um continuísta, não posso ignorar a experiência. O fato de que eu já vi todos os dons espirituais sendo operados, de ter testado e confirmado e os experimentado em primeira mão em inúmeras ocasiões. Como afirmei, esta não é tanto uma razão para se tornar um continuísta, e mais uma confirmação (apesar de não ser infalível) da validade dessa decisão. A experiência, isolada do texto bíblico, prova muito pouco. Mas a experiência deve ser considerada, especialmente se esta ilustra ou incorpora aquilo que vemos na palavra de Deus".

SAM STORMS é pastor há mais de 40 anos, e atualmente lidera a Bridgeway Church, em Oklahoma City. Foi professor de Teologia no Wheaton College e fundador do ministério Enjoying God, além de autor e editor de mais de 20 livros. É casado com Ann, tem dois filhos e quatro netos. 

Nota – Abertos para Reforma: texto traduzido com autorização de The Gospel Coalition, publicado originalmente no dia 23 de janeiro de 2014

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O método alegórico nas pregações

O método alegórico nas pregações

Hoje li uma postagem em determinada rede social onde uma citada igreja é atacada por utilizar com freqüência o método alegórico, assim como os métodos que envolvem tipologias, simbologias, analogias e também a forma literal para desenvolver uma pregação à congregação com base no textos bíblicos.  Na postagem dizia-se assim:
“A (igreja em questão) tem sua própria interpretação da Bíblia, obedecendo a um modelo que a liderança criou. Eles chamam essa interpretação de “revelação” bíblica, como se fosse algo novo, divino, inspirado, especial. Mas não existe nada de especial nisso. O que eles fazem, muitas vezes, nada mais é do que a alegorizaçao das escrituras. O que é alegorizaçao? Alegorizar é procurar algum significado oculto no texto. É como se o sentido literal fosse apenas uma superfície de um terreno, que devemos escavar até encontrarmos outros significados, que muitas vezes estão dissociados do verdadeiro sentido. Essa era uma pratica comum entre os gregos antigos e que foi reconhecida como uma maneira errada de se entender a Bíblia”.

Bem, primeiro corrigi a pessoa que postou isso dizendo que determinada igreja não tem esse método (ou modelo) como único meio de interpretar a Bíblia e nem único modelo de pregação ou sermão. A generalização foi doentia e sem fundamento. Mas deixei minha opinão.
Na oportunidade que tive de entrar para a área acadêmica como mestrando em Filosofia e ter que manusear alguns textos filosóficos (clássicos), eu pude constatar que a ‘alegorização’ é um método, assim como outros, que alguns textos incitam por si próprios e vemos, de igual modo, na Bíblia alguns textos que incitam uma busca hermenêutica maior (mais profunda) tornando apto o uso de alguns métodos como alegoria, tipologia, analogia, simbolismo, exegese, etc. Assim como a própria Bíblia é repleta de textos que, na forma literal, você já tem a informação e a definição. Primeiro temos que definir o seguinte: no caso da citada igreja, vemos que o erro ali é a sistematização e o uso indiscriminado de um método no qual chamamos aqui "alegoria". Porém discordei quanto ao fato de afirmar que tal igreja usa apenas esse método, sendo que já ouvi ali muitas mensagens levadas à luz de outros métodos. Eu mesmo (por costume) faço o uso de métodos mais próximos possíveis do literal para não correr algum risco. Outro erro é dizer que tal alegoria, tipologia, etc. é "revelação" e está "além da letra". Isso pode ser realmente perigoso, embora eu creio que haja sim uma iluminação do Espírito Santo no uso e no manejo das Escrituras. Aliás, se afirmamos que ela é a Palavra de Deus, logo, Deus fala por intermédio de seu Espírito pela Bíblia (que é um livro de caráter profético, além de simplesmente histórico ou legalista). Portanto, alegoria é um método assim como tantos outros e sendo usado tendo em vista o contexto real daquilo que está sendo pregado, não pode oferecer malefício algum. O erro está exatamente na sistematização cega de símbolos, tipos e alegorias como certa vez foi elaborado pela igreja em questão. Mas, independente do erro da citada igreja, não se anula o fato de tais métodos serem úteis para a compreensão, para o ensino e a exposição de um sermão baseado em exemplos e situações selecionadas nos textos bíblicos.
A Bíblia como um livro que transcende o histórico e o literal, e também não se resume apenas num conjunto de "regras" e normas (pois aí configura o legalismo e fundamentalismo extremo) pode ser entendida tanto com métodos interpretativos diversos, como também pode ser 'iluminada' pelo Espírito Santo que tende a mostrar, iluminar, esclarecer ou revelar o projeto salvífico implícito nela, uma vez que cremos que ela, a Bíblia, é a Palavra de Deus. E quem é a Palavra de Deus? Jesus, o Verbo. Ele é (e deve ser) a única chave hermenêutica para o entendimento da Bíblia, pois ela testifica d´Ele. E se Cristo é vivo e a Bíblia revela o Cristo vivo e glorificado, logo ela é profética e deve ser, nessa perspectiva, discernida espiritualmente (isso não anula o fato de usarmos os métodos hermenêuticos presentes na qual a alegoria faz parte). Se Jesus e o projeto de redenção do pai estão implícitos na Bíblia, é o Espírito Santo na sua função mediadora quem pode (se darmos lugar) iluminar a mensagem bíblica de caráter profético. Em João 14, o Esp. Santo é tido como "O Consolador" (do grego 'parákletos') que significa exatamente "estar ao lado", "advogado", "intercessor". Logo, no mesmo contexto bíblico, João descreve conforme as Palavras de Cristo que esse Consolador "vos ensinará todas as coisas...". O verbo ensinar aparece ali como 'didatikos' cuja raiz gramatical está estreitamente ligada ao termo grego "dogmatizô" que pode ser traduzido por "doutrina". Sendo dessa forma e segundo esse horizonte hermenêutico, é o Esp. Santo quem revela e ensina a Igreja a praticar a sã doutrina. O que é a sã doutrina? Um conjunto sistematizado de regras e normas? Alguém poderia dizer qual foi a 'doutrina' que Jesus Cristo nos deixou de forma sistematizada? O fato é que Jesus não deixou um conjunto de regras, aliás, Ele veio cumprir toda a legalidade e proclamar a graça ao invés de instituir outra Lei. A doutrina cristã (ou as doutrinas cristãs) foram todas sistematizadas pelos apóstolos, inclusive, Paulo foi um grande ‘sistematizador’ da doutrina cristã. Tanto que, em Atos dos Apóstolos, a doutrina cristã é chamada de "doutrina dos apóstolos". Ali imperava, de fato, a operação do Espírito Santo na consolidação do projeto salvífico e nesse contexto é que as doutrinas foram surgidas. Logo, se há ainda hoje a operação do Esp. Santo, o batismo e o uso dos dons espirituais, a doutrina ainda é aperfeiçoada na perspectiva prática. Lógico que isso não significa dizer que o mesmo Espírito "revela" algo "novo", tampouco um "outro evangelho". Aí entra a importância dos métodos hermenêuticos na interpretação e da iluminação do Consolador Espírito Santo, pois a Bíblia é para o crente não uma "regra" de fé (no sentido legalista da palavra), mas sim "modelo” de fé e conduta, 'norteadora da igreja' e referência literária única e insubstituível.
Portanto nenhum aspecto pode vir como "algo novo" nem “algo a mais” se não tiver um embasamento bíblico (não falo do fundamentalismo). Toda 'revelação', assim como todo 'dom espiritual' no seio da igreja deve ter respaldo bíblico e nunca ultrapassar a sã doutrina de Cristo. Logo, usar métodos como alegorias, analogias, tipologias etc. para anunciar a verdade bíblica e a sã doutrina de Cristo (que se resume em: amor a Deus e ao próximo, proclamação do Reino e anúncio da vinda de cristo e do juízo divino) é totalmente saudável. Porém é saudável quando não há a deturpação do contexto bíblico e nem invenções fajutas corroboradas por alegorias dúbias. Mas, contudo, a própria Bíblia é repleta de alegorias a serem interpretadas, assim como tipologias e analogias diversas. O que dizer de Apocalipse? Interpretaremos tal livro de forma literal? Creremos então em dragões, cavalos voadores e bestas estranhas? Será que o livro de cantares está limitado apenas à mensagem conjugal de cunho extremamente íntimo? Será que se não lançarmos mão da analogia e das alegorias poderemos interpretar seguramente as profecias de Daniel? O que dizer das parábolas do Mestre? Porque o Cristo ensinava com símbolos? Porque curou três cegos de forma diferente? Qual era o ensinamento contido nesses atos? Seria ali um convite à reflexão ou uma incitação pela busca de algo ainda mais profundo, além ou oculto? O que o sangue nas vergas das portas queria nos ensinar? O que Paulo queria nos dizer quando afirmara que devemos correr como os que correm nos estádios em busca da “coroa”? Será que cada item da “armadura de Deus” (Efésios 6) tem algo a mais para nos oferecer? Essas são as perguntas que não podemos ignorar.

A religião cristã tem sua superioridade em evidência exatamente por ser a mais racional em relação às outras religiões. Existe, como escreveu Jean Ladrière em sua obra “A fé e o destino da razão”/ capítulo IV: “fé e racionalidade”, uma racionalidade na fé. Muitas vezes essa racionalidade não pode ser facilmente captada no imediato. As curas e os sinais operados por Cristo eram imediatos, mas ali o Mestre deixava algo oculto para a sua igreja desvendar tendo em mãos a chave da revelação (como aquela dada a Pedro quando teve uma revelação dos céus). Portanto, há a necessidade da iluminação espiritual.

Essa foi só uma contribuição singela aos irmãos e amigos. Paz a todos!!!

Gabriel Felipe M. Rocha
Graduado em História (licenciatura e bacharelado);
Pós graduado em Sociologia (lato sensu)/ Sociologia da Educação;
Bacharel em Teologia (ênfase em História da Igreja);

Mestrando em Filosofia (campo de estudo: Ética e Antropologia).