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sábado, 2 de janeiro de 2016

O propósito de nosso chamado (da série: meditação em Efésios)

Não é fácil ser Cristão de verdade! Definitivamente, nosso chamado não implica algum sossego ou plena paz (pelo menos por agora). Não obstante a graça maravilhosa que nos resgatou e a esperança firme que nos caracteriza como cristãos e salvos, nosso chamado é para a morte, para a renúncia, para o serviço, para a oposição, para a exposição pessoal, para o possível vitupério em diversas situações, etc.

Dizer-se eleito, afirmar-se salvo, intitular-se cristão e atribuir a si mesmo características evangélicas são atitudes que não podem ser tão simples a ponto de subsistirem apenas no âmbito das palavras. A nossa eleição é evidenciada pela nossa atuação, nossa ação. O meu cristianismo é mais o que eu faço do que o que eu digo. Nossa vida precisa evidenciar a mensagem que nos salvou. Precisamos nos aderir seriamente ao nosso chamado e fazer firme nossa vocação, pois isso dará prova, razão e testemunho de nossa fé e de nossa salvação.

Você que é cristão, freqüenta alguma igreja, carrega uma Bíblia, etc., sabe para quê foi chamado? Entende o objetivo da sua eleição? Pode evidenciar os reais motivos de ser um “escolhido de Deus”?

Sobre isso, Paulo fala em Efésios 1.

Deus elegeu o seu povo antes da fundação para que o mesmo fosse santo, irrepreensível perante ele. Em amor, Deus predestinou soberanamente cada um e, em momentos específicos, chamou cada um para que todos fossem filhos por meio de Jesus Cristo, pelo qual temos a remissão de nossos pecados. Portanto, nós fomos chamados para vivermos distantes do pecado, embora o pecado habite em nossa antiga natureza.
Não obstante a velha natureza pecadora e inimiga de Deus, o Eterno nos elegeu para sermos santos, dando a cada um de nós subsídios necessários para assumirmos em nossa vida a nova natureza, pois Cristo nos revestiu de novidade de vida e fez de cada um – por seu sangue – "nova criatura" para o louvor e para a glória de Deus. Recebemos a plenitude do Espírito Santo para que, regenerados e frutificados, venhamos nos portar dignamente conforme quer o nosso Pai que, em Cristo, adotou-nos eternamente.

Não é uma questão de sinergia, mas de evidenciar em nossa vida aquilo que Deus fez e garantiu para mim e você em Cristo Jesus.

Precisamos, então, saber, conhecer (para praticar) qual é a esperança do nosso chamamento, qual é a riqueza de sua glória da sua herança, qual é a grandeza e a eficácia do seu poder. Pois, se pela grandeza da graça de Deus, Cristo (sendo Deus) ressuscitou, agora eu e você, que morremos para o pecado, podemos ressurgir para uma nova vida cuja finalidade é sermos agradáveis a Deus em tudo e cumprir toda a sua vontade santa enquanto igreja do Senhor.
Somos a Igreja de Deus. Cristo é o cabeça da Igreja (Ef. 4.15)! É o Senhor nosso! Se nós somos, de fato, igreja e noiva de Cristo, que andemos, pois, conforme o Cabeça da Igreja, a saber, conforme o próprio Cristo.

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência, desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra [...]” (v.3-10);


“[...] Não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,
acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (v. 16-23).

Gabriel F. M. Rocha

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Tu me amas? (um chamado para o relacionamento)

“Tu me amas?”
(um chamado para o relacionamento)



Por Gabriel Felipe M. Rocha
Texto base: João 21: 15-17

             Pedro foi um dos mais queridos apóstolos de Jesus. Sua presença nos evangelhos não é a mesma presença firme e peremptória das cartas que levam o seu nome. Muito pelo contrário, o Pedro dos evangelhos é o homem como qualquer um de nós. Não que o Pedro restaurado das cartas, do fiel apostolado e do heroico martírio não fosse também o mesmo homem no que se refere às paixões, limitações e temporalidade, mas, nos evangelhos, mostra-se um Pedro com todo o destaque na figura do discípulo, aprendiz e vacilante. Simão de Betsaida – a quem Jesus chamava de Pedro – era um homem inconstante, errôneo e afoito, embora em seu coração houvesse declaradamente um altar erguido para Deus.
             Contudo, na ocasião da prisão de seu Mestre, Pedro cometeu – podemos afirmar a partir da Escritura – um dos mais marcantes desvios de conduta de sua vida, a saber, a negação pública de seu Senhor (Jo 18: 17, 25, 27). Como disse certa vez o reverendo Alceu D. Cunha, certamente não bastavam os espinhos da coroa, os impropérios da multidão, a bofetada em seu rosto, ser cravado numa cruz com agudos pregos, Cristo ainda teve de enfrentar mais uma dor, a saber, a dor da negação pública por parte de um de seus discípulos mais íntimos. 
             No entanto, para Pedro, a dor gerou amargura de espírito, sentimento de remorso e um visível arrependimento quando esse se pôs a chorar. Segundo as Escrituras, Pedro chorou amargamente (Mt 26: 75). Cristo, embora conhecedor da situação e do propósito da mesma, certamente sofreu pelo ato de Pedro, mas pôde, dentre as tantas dores, sofrer esse acréscimo de suplício em sua alma e, como cordeiro mudo, entregar seu espírito e perdoar o pecado de sua Igreja na cruz. Mas Pedro não tinha o controle de situação alguma. Nem mesmo de sua vida e de suas ações, como prova os evangelhos. Podemos imaginar o quanto Pedro sofreu a dor, o remorso, o arrependimento, a culpa pela negação e tudo isso sem um imediato consolo. \talvez, se não fosse a graça divina na firmeza da eleição, Pedro teria o mesmo destino de Judas Iscariotes. Viu seu chamado perder o brilho. Viu seu ministério perder o sentido. Viu sua comunhão com Cristo como algo irreconciliável. Viu sua vida como uma vida imerecida da glória de um Deus tão Santo, tão Bom e tão misterioso. Tão misterioso que permitiu que o Cristo, Filho do Deus Vivo, fosse à cruz e morresse. Foi-se, por um momento, a esperança.
              Mas, certa vez, após algum tempo de sua ressurreição, Jesus surge irreconhecível diante de alguns discípulos (v. 4-8), no entanto, com a mesma autoridade. Estavam todos no barco, pescando pela madrugada. Jesus, então, se revela mostrando-os mais um milagre no meio deles. Estavam todos precisando de um milagre. Estavam todos precisando de algum renovo e consolo. Seus ministérios não prosperariam (talvez nem saíssem do lugar) se não fosse a Palavra de Deus se revelar, a saber, o próprio Cristo em autoridade divina. Uma primeira lição que tiramos disso é: Jesus se importa com os seus escolhidos. Se Ele se entregou numa cruz, levando sobre si pecados que não eram seus, sofrendo a dor que seria nossa e morrendo a morte que seria também nossa, por que Ele simplesmente nos abandonaria? Não escaparemos de sua mão (João10: 17,18). Ainda bem que nada depende de nós no que tange a salvação, pois, se dependesse, o mais provável seria, diante das circunstâncias, deixarmos o Mestre e esquecermo-nos de suas palavras. Nossa escrava vontade só poderia nos levar para longe de Deus e nos fazer voltar pelo caminho, voltar para a origem, para os lugares de onde um dia nós fomos chamados e praticar as velhas coisas (João 21: 3). Embora erremos, falhemos, e sempre pequemos, Deus nos dá a oportunidade do arrependimento e, diante da sua graça e misericórdia, crescemos em novidade de vida, perseverança e firmes rumo à perfeição (Fp 3: 12-16). Embora venha o desânimo, a incerteza, alguma aflição, tristeza e, junto com tudo isso, a desesperança, Cristo surge com um milagre. Surge no tempo dele, surge na oração nossa, surge na perseverança, surge pela promessa e pelos decretos de um Deus soberano, justo e generoso. Jesus se revela! Jesus se revela na situação e no contexto de nossa prova, luta, embaraço ou mesmo desânimo. 
Jesus, ali, pergunta aos seus discípulos se eles tinham algo para comer. Logo eles respondem que não. Ele, com sua Palavra, vai direto naquilo que nos incomoda e nos atribula. Ele arranca de nós a resposta e dá a solução. E da solução, vem o avivamento. Assim é a Palavra de Deus na vida do cristão: é a atuação e a revelação (o surgimento) de um Jesus vivo que transforma tudo, começando por nós mesmos.
             Um momento interessante dessa passagem é quando João (identificado ali como o “discípulo a quem Jesus amava”) reconhece a Jesus e vai tão logo, em notável entusiasmo, a Pedro e diz: “é o Senhor!”. Imaginemos a cena da seguinte maneira: Pedro certamente podia ter compartilhado com João de sua angústia desde o trágico dia da negação. Algo muito natural, quando a própria Bíblia mostra que João e Pedro tinham certa proximidade, uma vez que os dois aparecem juntos em várias situações extras aos momentos de comunhão, banquetes e viagens (Mc 14: 33; Atos 3: 1). Quando João, então, percebe o Cristo, logo diz a Pedro em tom de esperança renovada: “É o Senhor”! Foi como dizer: “é o Mestre, Pedro! Não tem nada perdido! Ânimo!”. Posso imaginar o sentimento de esperança em Pedro mesclada com o medo de alguma reprovação por parte de seu Senhor, o que seria justo. Entretanto, o que se sabe é que Pedro se lançou ao mar e foi ao encontro de seu Senhor. Certamente esse ato evidencia o desespero de Pedro por Cristo e sua indisfarçável vontade de reconciliar-se tão logo com seu Senhor.
             E, diferente de qualquer tipo de reprovação ou mesmo a retribuição da negação, Jesus, recebe a Pedro com a mesma igualdade com que recebe os demais discípulos e os convida a comer.
Uma segunda lição pode-se tirar dessa passagem bíblica: Deus está sempre pronto a perdoar, apagando toda a transgressão (Is 43: 25,26) quando o buscamos de coração contrito. Jesus está sempre pronto a se revelar e nos auxiliar quando damos ouvidos à Sua Palavra (João 21: 6-8). Ele está sempre disposto a nos receber quando vamos ao seu encontro (João 21: 7; João 10: 9).
              Mas, a partir do verso 15, Pedro terá um acerto de contas com seu Senhor. Haverá um confronto onde toda a angústia, desesperança, crise, maus pensamentos, desânimo, etc. irão desaparecer para dar lugar ao avivamento que todo o discípulo e servo de Cristo precisam um dia, ou sempre. Uma terceira lição adianta-se: existem momentos e situações em que, em vista de algum panorama ruim, deixamo-nos levar por algum descontentamento, por alguma frieza no serviço cristão, por alguma aparente derrota, por um objetivo que não é realizado, maus pensamentos, etc. Todos nós – que professamos a fé em Cristo – estamos sujeitos à frieza. Podemos lembrar aqui do exemplo dos dois discípulos no caminho de Emaús (Lc 24: 13-35). Deixaram-se guiar pela desesperança das “últimas notícias” (v. 18) e, desanimados e angustiados (v. 17-21), deixaram Jerusalém indo de volta para Emaús. A ordem de Jesus, antes de sua ascensão, era para que ninguém se ausentasse de Jerusalém (Atos 1: 4), pois ali se cumpriria uma importante promessa para a efetivação da missão da Igreja (Atos 1: 4,5; 2: 1-47). Mas a primazia às circunstâncias, o não desenvolvimento da fé, o sentimento de culpa, a ausência de oração, a não vigilância e a desesperança provocam a perda de foco. Isso é algo, infelizmente, comum no seio de tantas igrejas, líderes, ministérios e grupos. Contudo, os decretos de Deus para com nossas vidas (incluindo a salvação) não podem ser minados, pois Cristo nos comprou com total suficiência e jamais escaparemos de suas mãos (Jo 10: 28; Fp 1: 6), mas, existem momentos onde exercer a nossa vocação e fazê-la firme só é possível através de um “impulso no motor” para fazer mover toda a máquina. Então, Cristo surge!
Assim foi também com Pedro. Houve, portanto, o marcante diálogo entre Jesus e Pedro. Foi uma interrogação feita na terceira aparição de Jesus após sua ressurreição (João 21: 1-14). 
             Jesus faz três perguntas a Pedro. Pela dinâmica do relato, pode-se entender que essas interrogações se deram ali mesmo diante dos outros discípulos. Assim como Pedro negara a Jesus em público, Pedro confessaria seu amor por Cristo em público. Obviamente Jesus não queria dar algum “troco” a Pedro e nem mesmo expor o mesmo diante do colégio apostólico ali reunido. Era mesmo um necessário momento de confronto!
             Foi feita a primeira pergunta: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros?” (v. 15). Pedro respondeu: “sim, Senhor, tu sabes que te amo”. É interessante notar que a mesma boca que negou Jesus em público, diante de pessoas escarnecedoras e carentes de Deus, confessava o amor ao mesmo Cristo diante da congregação de santos. Não estamos aqui negando ou duvidando da sinceridade da resposta de Pedro, pois, a Bíblia não nos permite essa afirmação e acreditamos na total sinceridade de Pedro ao dar sua resposta. Mas o texto nos convida a refletir sobre uma quarta lição: a mesma boca pode professar benção e maldição (Tg 3: 10). Talvez, para alguns, seja difícil confessar seu chamado, sua vocação e sua postura diante do mundo e acaba negando a Cristo, mas – incrivelmente – confessa o seu incoerente amor a Cristo em sua congregação, cantando louvores, levantando as mãos para o alto em sinal de reverência e quebrantamento. Pregam a Cristo com total facilidade e talento, vestem a camisa da igreja, cuja estampa diz: “eu amo Jesus”, mas seu coração está longe dessa afirmação, pois as obras não manifestam e comprovam essa confissão. Esse não foi o caso de Pedro, pelo menos a Bíblia não nos dá margem para tais afirmações através da vida do mesmo. No caso de Pedro, a boca proferiu aquilo que estava latente no coração (Lc 6: 45). Por isso, Pedro respondeu dizendo: “tu sabes”. Isso pôde revelar uma coisa: o que tentar dizer com palavras no desgaste espiritual de uma vida que certa hora afirmou que morreria por Cristo (Mt 26: 33-35) e, no mesmo episódio, o negou três vezes? Mas há uma semelhança entre Pedro e nós mesmos, a saber, a humanidade, o pecado, a passividade em relação a algumas coisas, a vaidade, o orgulho, a descrença, o medo, etc. Embora possa haver isso, o chamado de Cristo às nossas vidas continua de pé. Ele nos chama para o serviço. Pedro, assim que respondeu a primeira pergunta, foi surpreendido com a ordem de Cristo: “apascenta os meus cordeiros” (v. 15). Pedro podia – com algumas razões – ter pensado que seu ministério, seu chamado, sua vocação, sua instrumentalidade estariam esgotados ou perdidos. Mas Jesus sempre dá novas chances. Ele nos chama para servir. Jesus como o Sumo Pastor da Igreja, convoca a Pedro para pastorear as suas ovelhas. Isso é o mesmo que dizer: “vem sofrer as minhas aflições” (2 Tm 4:5; Cl 1: 24). Pedro foi chamado para pastorear, para ser um ministro do Evangelho. 
              Cada um de nós tem um chamado, um talento ou um dom a ser desenvolvido para o Reino de Deus. Então, vem a quinta lição: Cristo quer restaurar nossa instrumentalidade para o serviço do Reino. Ele está disposto a esquecer o que se passou e avivar nossas vidas para a glória de seu Nome. Seu Espírito Santo – Consolador (parakletos) – faz-nos esquecer de tudo que para trás fica, dando o devido consolo e renovo. E admoesta-nos a prosseguir para o alvo. Como o “parakletos” (advogado, o que anda junto, consolador), Ele coloca o alvo novamente à nossa frente e nos ajuda a mirar e atirar corretamente. Essa analogia é de fundamental relevância aqui, pois, o “errar o alvo” é nada mais e nada menos que o significado do termo “hamartia” que se traduz também por “pecado”. Esse foi o renovo de Pedro e é também o nosso: Cristo faz com que esqueçamos o passado e nos faz mirar para o futuro, para agora, atirar certo, melhor e eficazmente. 
                 Logo, veio a segunda pergunta: “Pedro, amas-me?”, E Pedro novamente respondeu: “sim, Senhor, tu sabes...”. Semelhante à primeira, a segunda pergunta de Jesus foi transcrita para o grego através do mesmo termo, a saber, “agapao”, que vem de “agan” (muito). Esse termo traduzido para o português como “amas-me” remete, em vista do original, a um amor social e moral. Remete também ao amor por veneração, respeito, obrigação. Sua raiz, “ágape”, trata-se de um amor sublime. É o mesmo amor citado nas Escrituras para definir o amor ao próximo, por exemplo. Vamos para a sexta lição: responder diante da igreja, do mundo, dos amigos e da família esse amor não tem sido tão difícil quando não se tem a disposição para vivê-lo na íntegra. É o tipo de amor que se banalizou na fala, nas pregações, nos cânticos de vários cristãos (e até mesmo não cristãos). Para vestir uma camisa ou pegar um microfone e dizer “eu amo Jesus” não necessita de uma adesão tão séria a essa afirmação. Na verdade, necessitaria sim, mas o simples dizer com os lábios “sim, Senhor, eu te amo” pode não implicar um real compromisso com a confissão. Muitos que dizem “eu te amo” não têm a vida transformada pelo Evangelho. Vivem de fantasias, experimentalismos ou, até mesmo, participam de alguma forma, da graça de Deus. Mas suas vidas são infrutíferas. São capazes de responder as duas primeiras perguntas, mas são incapazes de apascentar as ovelhas de Deus, ou, em outras palavras, trabalhar e se envolver – em diferentes modos – no serviço cristão. Suas bocas professam um nobre sentimento e uma declaração comum às pessoas piedosas, mas suas atitudes revelam rebelião contra Deus em várias áreas. Para a conclusão da sexta lição, colocamos o seguinte: deve haver uma coerência entre a nossa confissão e a nossa atitude. O fato de Jesus, nas três interrogações, ter imediatamente convocado ao serviço nada mais é para mostrar que a confissão deve se estreitar com a atitude. Só prova que ama o Senhor quem a Ele serve (João 15: 2-15; Mc 3: 35; Mt 7: 21).
             Mas a terceira pergunta causa confronto. Ela mexe no íntimo. Causa reboliço e auto-análise. Leva para o arrependimento e causa a tristeza segundo Deus.
             Tendo Pedro respondido já a segunda pergunta com aparente facilidade, Jesus tão logo reafirma a convocação para o serviço. Mas faltava a última pergunta. No verso 17, Jesus faz a terceira interrogação: “Simão, filho de João, tu me amas?” O relato bíblico deixa evidente que a tristeza surgiu diante dessa terceira pergunta. Mas, por quê? 
            Diferente das duas primeiras perguntas, Jesus usou o termo, que transcrito para o grego, foi “phileo”, e que traduzido para o nosso português, ficou, como nas duas perguntas, “me amas”. Porém, o amor “phíleo” tem outra conotação. “Phíleo” significa “ser amigo”, “gostar de”, “ter prazer em”, “sentir afeto”. Pode expressar a deliberada concordância da vontade com aquilo que se conhece e deseja. A tradução mais popular para “phíleo” é “amigo”, ou, “amor de amigo”. Também pode conotar “relacionamento” e “intimidade”, como a intimidade e o relacionamento entre um casal.
            Essa expressão – na terceira pergunta – deixou Pedro triste, pois, era exatamente o que faltava em sua vida: correspondência de sua vontade com a vontade de Deus. Havia em Pedro o amor por Jesus Cristo, mas era um amor ainda estático, sem crescimento, influenciável, volúvel e insuficiente para assumir em sua vida o ministério. Diante do relato da terceira pergunta de Jesus a Pedro, deixamos a sétima e última lição: a escrava e corrupta vontade apenas levaram a Pedro ao pecado e à angústia, ao desânimo e à vergonha, mas, a vontade de Deus se manifestou na revelação de Jesus Cristo, tocando em seu espírito, comunicando-o a sua vocação, fazendo-o desejar servir a Deus com mais intensidade, amor, devoção, amizade, relacionamento, intimidade, etc. Por isso, confiantemente, embora com tristeza, Pedro respondeu à terceira interrogação: “Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo” (v. 17). “Tu sabes” havia sido ainda a única argumentação possível a Pedro diante do confronto. Dizer ao Senhor “tu sabes” é um convite que podemos fazer ao nosso Deus em oração para sondar nosso coração (Sl 7: 9; Sl 17: 3; Sl 139: 1). É o mesmo que dizer a Deus que não podemos nada por nós mesmos, mas, Ele sabe que há um pequeno fogo aceso em nosso coração e basta só uma ação e palavra Sua para fazer arder o nosso coração (Lc 24: 32).
             Ainda nessa sétima e última lição, o amor com que Cristo nos convida a amá-lo é o amor que implica não só as palavras e declarações. Mas, sobretudo, o amor que implica relacionamento, intimidade, serviço, atitudes, piedade, compromisso, afeto, zelo, reverência, fidelidade, obediência, resignação, santificação e perseverança. Quando a “terceira pergunta” é feita a muitos, a tristeza toma conta e muitos não prosperam nesse amor (Mt 16: 19-22). Por outro lado, alguns repensam se realmente amam ao Senhor e perseveram.
              Para quem não é capaz de responder com total certeza a essa terceira pergunta, Jesus surge! Há uma chama acesa, pois o próprio Senhor nos batizou com o Seu Santo Espírito para que possamos ser efetivamente seus. As provações ministeriais, pessoais e familiares sempre virão. O desânimo e a desesperança poderão bater aas portas. Contudo, Cristo está ao nosso lado como esteve com os discípulos no barco. Ele nos ensina a pescar. Ele – através da Palavra – se revela com autoridade e muda a situação. Ele responde nossa oração e renova a alma, removendo a tristeza. Ele, portanto, nos faz capazes de cumprir aquilo que Ele mesmo nos chamou para fazer. 
Para quem já pôde responder e para quem ainda vai responder á pergunta de Jesus, a convocação está posta: “apascenta as minhas ovelhas!”. Em outras palavras, “participe de minhas aflições e da minha glória”. “Se relacione comigo”. “Seja meu amigo”. “Ande comigo sempre”. “Não perca o foco em mim”.

Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo o quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (João 15: 15);
Mas, como está escrito: nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1 Co 2: 9).

Com orações,
Gabriel Felipe M. Rocha


Referências: 
Bíblia de Estudos de Genebra (Almeida revista e atualizada);
Bíblia de Estudos Palavras-chave/ Hebraico e Grego (Almeida revista e corrigida).

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O partir do pão: a função delegada à Igreja

O partir do pão: a função delegada à Igreja

E, tomando o cálice e havendo dado graças, disse: Tomai-o e reparti-o entre vós [...] Isto é meu corpo que por vós é dado, fazei isso em memória de mim(Lucas 22: 17-19)

Os Evangelhos nos ensinam que Jesus comeu a Última Ceia com seus discipulos em uma "sala grande acima" próximo do Templo. Nesta refeição, Jesus levanta um copo de vinho e brinda: “Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós” (Lucas 22:20).
A palavra Hebraica para testamento é “brit”, um termo político que se refere a um contrato por escrito entre um rei e seus súditos. O sangue era utilizado para assinar esses contratos como sinal de seriedade, para assumir "que sabemos que o preço pela violação do tratado é a morte". Isso é exatamente o que acontece no caso do velho testamento, quando Moisés lança o sangue do boi sacrificatório no povo (Êxodo 24:8).
Mas Jesus não é apenas o novo Moisés, selando um simples testamento com seu sangue. Mas Ele é o Cordeiro Perfeito, o Perfeito Sumo Sacerdote que, com seu sangue, selou o Novo Testamento. Ele também diz que o sangue é é “derramado por muitos, para remissão dos pecados” (Mateus 26:28). Esta oferta de expiação sacrificatória pelos pecados é o maior presente que Deus (através de Jesus) poderia dar aos seus discípulos a aos seus escolhidos; é por este motivo que ele esperou até o último instante para dar-lhes. “Desejei muito comer convosco...” (v. 15).
Na Ceia, Jesus reparte então o cálice e o pão entre seus discípulos e eles repetem o mesmo gesto.
O repartir do pão tem um significado importante: Assim como no repartir do vinho (o sangue que era símbolo da Nova Aliança em Cristo), Jesus repartia (oferecia) seu Corpo em sacrifício.
A Igreja foi instituída para também fazer assim.
Tomar posse do Corpo de Jesus e, da mesma forma, repartir com os outros tem também um importante significado:
Sendo inaugurada a Nova Aliança pela graça, a Igreja representava – agora – o Corpo vivo de Cristo sobre a Terra. Responsável é a igreja para compartilhar da Vida de Cristo, uma vez que - pela graça - ela tem abundância dessa vida em si. Isso por mérito de Jesus Cristo e não nosso. Assim como o Ministério de Cristo foi um Ministério de entrega, doação de Vida, compartilhamento de amor, acolhimento, perdão, ensino, anúncio, sofrimento, cruz e sacrifício, o ministério da Igreja (sob a tutela do Espírito Santo) não seria diferente.
Fomos chamados para repartir o pão. O sangue derramado uma vez em sacrifício perfeito é o símbolo da nossa aptidão ao serviço e ao cumprimento do chamado, sendo que, esse sangue, representa a Vida e a ação do Espírito Santo na existência da Igreja.
Sendo o Corpo de Cristo aqui no mundo, ela (a igreja) revela – pela Palavra (na ação do mesmo Espírito Santo) o Cristo Vivo ao mundo. O próprio Senhor intercedeu ao pai, rogando para nós essa aptidão em amor:
Eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim e que tens amado a eles...” (João 17:22,23).
A Igreja, portanto, parte o pão e o passa adiante, memorizando todos os dias o amor e a entrega de Cristo. Quando ela acolhe, quando ele ensina a Verdade das Escrituras, quando ela cuida, quando ela exorta, quando ela acompanha e dá suporte, ela está entregando em mãos o pedaço de pão e esse gesto é contínuo. Jesus se revela através da igreja e é conhecido por muitos através da entrega e da doação de vida da igreja. A Igreja é a luz que o mundo tem e por ela Cristo é conhecido pelos que ainda hão de receber a fé. A Igreja dá o suporte para os santos para que assim todos caminhem em perfeita comunhão e unidade.
"Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente [...]" (Colossenses 3:13);
"Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé, um só batismo;
Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós.
Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo
" (Efésios 4:4-7)
A igreja, estando firme na Palavra, ajustada na Verdade, em prática do amor, ajuda mútua e nos fundamentos de Jesus Cristo, é a própria presença viva e operante de Cristo no mundo. Ela compartilha do mesmo sentimento entre os santos e compartilha da mesma esperança e fé no mundo. Ela dá testemunho vivo da fé. Ela testemunha com real engeamento da luz. Ela cumpre com diligência a sua tarefa. Ela ama servir. Ela vive para a glória de Deus.
Ela (a igreja de Deus) é você, cristão. Você firmado nesse fundamento que é Cristo.
Você que está lendo esse post, tem repartido o pão? Tem evangelizado? Tem acolhido? Tem mostrado e testemunhado o caminho? Tem exortado com amor? Tem cuidado dos feridos, dos órfãos, das viúvas e dos necessitados em geral?
Sejamos luz! Sejamos sal! E, assim, carreguemos todos os dias a nossa cruz. Nossa missão já foi proposta e basta, agora, zelarmos por cumpri-la em amor, devoção e entrega até o Dia de Jesus Cristo.
Amém!

 (Gabriel Felipe M. Rocha)
Gabriel Felipe M. Rocha é membro da Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte; graduado em História (licenciatura e bacharelado); pós graduado em Sociologia/ lato sensu (Sociologia da Educação); mestrando em Filosofia (Ética e Antropologia) e professor.


sábado, 27 de setembro de 2014

O propósito da salvação em 1 Pedro - 1/5 (1ª parte)

 O propósito da salvação em 1 Pedro - 1/5

(Por Leonardo Dâmaso)

Olá, amigos, leitores e verdadeiros estudantes da Palavra de Deus, a paz! Venho através deste estudo (dividido em duas partes) deixar um ensinamento consistente e coerente com as Escrituras a respeito do propósito bíblico da salvação. Como estou demasiadamente atarefado com meus estudos e escrevendo um artigo para postar aqui em breve, deixo esse rico artigo de Leonardo Dâmaso (fonte: Bereanos) para nosso aprendizado.

Como já tenho dito e reafirmado aqui, o Blog Palavra a Sério é um blog comprometido com a verdade das Escrituras e com a Revelação de Jesus Cristo e não com dogmas e ensinamentos extra bíblicos de grupos religiosos específicos. Isso é atestado pela seriedade de nossos artigos e pela coerência do nosso ensino.
Louvado seja Deus pela grande salvação em Cristo Jesus e pela benção constante e operante do Espírito Santo que ilumina nossas postagens.

Vamos ao estudo:

O propósito da salvação
(1 Pedro 1.13-25)

Introdução

Após tecer um louvor de agradecimento a Deus, e, ao mesmo tempo, discorrer com virtude sobre a obra da salvação em Cristo Jesus através de uma série de afirmações indicativas (vs.3-12), Pedro, dessa vez, relaciona a santidade na vida cristã como evidência e finalidade da salvação. Se outrora o apóstolo afirmou a nossa salvação expondo algumas das principais doutrinas da graça, tais como: eleição, expiação, regeneração, santificação (vs.2-3), agora ele nos chama através de uma série de imperativos (exortações) para viver esta salvação na vida prática (1.13-25). Além de explicar para quê o cristão foi salvo, estas doutrinas da graça são, também, a base do chamado a um estilo de vida em obediência.

O esboço homilético desta seção pode ser dividido em três pontos, ou seja, o propósito da salvação consiste em: 1 Uma vida em santidade (1.13-16). 2 Uma vida com reverência (1.17-21). 3 Uma vida em amor (1.22-25).         

1. Uma vida em santidade (1.13-16)

Tendo recebido o dom da salvação em Cristo Jesus (vs.9), os destinatários de Pedro bem como os cristãos em geral não devem desprezar este inefável presente sendo negligentes na salvação. Como filhos de Deus, devemos viver em conformidade com a sua vontade, que consiste numa vida em obediência a sua Palavra (veja Mc 3.35; Jo 9.31; 1Pe 2.15). A realidade da salvação deve se expressar em santidade vivida. 

1.13 Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.

Pedro, através de uma série de imperativos (exortações), instrui os seus leitores e a todos os cristãos em como viver uma vida que glorifica a Deus. Para vivermos em santidade é necessário:

a) Dispormos a mente. A preposição por isso é uma conclusão afirmativa que antecede o tema da obra da salvação tratado nos versículos 3-12. Pedro, agora, liga a salvação com a santidade (vs.13), e, desse modo, tomando por base esta salvação que é recebida pela fé em Jesus Cristo (vs.5), exorta-nos a cingir o nosso entendimento. A expressão cingindo o vosso entendimento, ou como é na tradução literal do grego – “cingindo os lombos do vosso entendimento”1 é uma metáfora que, na época de Pedro, no século 1, era facilmente compreendida por todas as pessoas. Porém, hoje, no mundo moderno, é necessária uma explicação mais acurada do seu significado. 
  
Cingir os lombos, na antiguidade, era um hábito dos orientais. A túnica, uma roupa comum e usada na época, era uma peça larga e comprida, semelhante a um vestido longo que cobre todo o corpo. Era colocada sob o manto ou a capa e usada com um cinto sob a cintura. Esse tipo de roupa, sem o cinto, atrapalhava a pessoa a exercer algum tipo de trabalho que exigisse movimentos longos e intensos em alguma atividade física que era preciso certa agilidade. Sendo assim, para ter uma boa mobilidade e evitar empecilhos, a pessoa cingia os lombos (ou quadris), isto é, colocava o cinto sobre a túnica. Em outras palavras, a expressão moderna e equivalente para nós, hoje, seria dizer: Vamos “arregaçar as mangas ou tirar o casaco”, que indica algum trabalho ou atividade física que fôssemos exercer.

A palavra entendimento, no grego διάνοία (dianoia), se refere à mente; “significa pensar em algo e tirar as conclusões apropriadas”.2 Portanto, Pedro utiliza e aplica esta metáfora do cingir os lombos dizendo aos seus leitores e a todos os cristãos que eles devem estar com a sua mente preparada e disposta para agir colocando em prática aquilo que ouviram, ou seja, tudo o que foi dito anteriormente sobre a salvação (vs.3-12).

Aplicação prática

O entendimento, aqui, se refere ao modo pelo qual nos relacionamos com Deus através da mente que irá convergir na nossa conduta. Em vista disso, a nossa mente deve estar disciplinada e livre de qualquer coisa que possa servir de obstáculo para, assim, vivermos uma vida cristã pautada nas Escrituras e que glorifique ao Senhor. A nossa mente precisa estar subjugada aos preceitos de Deus para que possamos compreender a sua vontade para a nossa vida, discernindo entre o certo e errado, entre a verdade e a heresia, e não aos preceitos que norteiam o mundo e a vida de muitos “ditos” cristãos, como, por exemplo, o evangelho caracterizado pelo materialismo e a preocupação exacerbada com a estabilidade e a satisfação pessoal na vida.

O materialismo é uma avidez desenfreada pelo consumismo, e a preocupação exacerbada com a estabilidade e a satisfação pessoal na vida, além de serem o lema da sociedade secular, tem sido também o lema da igreja evangélica em sua maioria. O “evangelho” mundano que tais “cristãos” creem apresenta o seguinte slogan: Eu tenho que ter isso e aquilo de qualquer maneira! Portanto, vou lutar e trabalhar sobremaneira para conquistar tudo o que eu desejo ter neste mundo profetizando e barganhando com Deus! Ou: Eu só serei feliz se tiver dinheiro, uma namorada (o), uma esposa (o) e saúde!  

Todavia, o materialismo é pecado, mas a motivação pela estabilidade e satisfação pessoal não são pecado em si. No entanto, esta motivação se torna pecado quando depositamos toda a nossa esperança e as colocamos como prioridade em nossa vida em detrimento de Deus, que é a nossa prioridade (1Cor 15.19; Cl 3.1-3). O evangelho mundano caracterizado pelo materialismo e a preocupação exacerbada pela estabilidade e satisfação pessoal têm corrompido e desvirtuado a mente de muitos cristãos. Portanto, conforme a ideia no grego, era como se Pedro dissesse: Não permita que qualquer coisa tire o foco da sua mente em relação a compreender e obedecer a Palavra de Deus!

Para vivermos em santidade é necessário:

b) Sermos sóbrios. Se os cristãos devem cingir o entendimento no sentido de estar com a mente preparada, disciplinada e disposta para viver a salvação que ouviram na vida prática, Pedro prossegue exortando-os que, agora, eles devem ser sóbrios3 (4.7; 5.8).  

No grego, a expressão sede sóbrios νήφοντες (nephontes), literalmente “sendo sóbrios”, é um particípio presente ativo que, traduzido como um imperativo, seria como se eu dissesse que “estou sóbrio ou tenho autocontrole”. Esta palavra descreve uma pessoa que tem domínio próprio tanto em relação à bebida alcoólica, evitando, assim, a embriaguez e, de modo geral, a qualquer tipo de êxtase frenético que extraia a pessoa da racionalidade. Entretanto, aqui, de forma mais ampla, se refere à pessoa que não está “embriagada” por coisa alguma estando com a mente lúcida.4 Ser sóbrio, portanto, além de ser constante, firme e perseverante no pensamento acerca da esperança da salvação em Cristo Jesus, significa, também, “ser calmo, estável e controlado” 5 (veja a mesma ideia em 2Tm 4.5; 1Ts 5.6, 8). 

Aplicação prática

John MacArhtur acentua que o cristão sóbrio é responsável de modo correto por suas prioridades e não se deixa embriagar pelas distrações do mundo.Não obstante, é bem verdade que o falso evangelho mundano que corrobora o materialismo e a preocupação exacerbada pela estabilidade e satisfação pessoal e todas as suas outras “falsas doutrinas” são um tipo de "droga" que tem entorpecido muitos cristãos verdadeiros, os quais são cristãos incautos e sem discernimento espiritual.
   
Os prazeres mundanos como a bebida alcoólica, a pornografia, a fornicação (o sexo fora do casamento), o adultério, a desonestidade, a mentira, as baladas e as orgias são, também, "drogas" que tem entorpecido muitas pessoas nas quais, algumas, são até cristãos verdadeiros que, enfraquecidos pelas negligencias e omissões, se desviaram do evangelho.

O cristão verdadeiro que está entorpecido pelo falso evangelho pode ter o seu entendimento elucidado pelo Espírito Santo para o conhecimento do verdadeiro evangelho e ser liberto da "droga" chamada falso evangelho. O cristão desviado e entorpecido pelos prazeres mundanos pode, também, ser resgatado e restaurado por Deus à sobriedade sendo introduzido novamente à comunhão da igreja. Certamente o Senhor não abandona os seus! Ele cuida de nós!

Para vivermos em santidade é necessário:

c) Esperarmos na graça. Depois de instar os cristãos acerca da necessidade de serem vigilantes e equilibrados, estando com a mente livre de qualquer perturbação e inclinada para a salvação em Cristo Jesus, Pedro, dessa vez, acentua que eles devem também depositar toda a esperança que possuem na graça que será entregue quando Jesus Cristo se revelar. 

O verbo esperar, no grego έλπίσατε (elpisate), significa, basicamente “colocar a esperança”. É uma forma verbal de esperança έλπίδα (elpis) que, no versículo 3, declara que os cristãos, a partir da regeneração, já recebem a salvação, porém, de modo parcial. Esta salvação parcial, contudo, é apenas o prelúdio daquilo que ainda é esperado, ou seja, a salvação na sua plenitude no qual o versículo 5 aborda. Todavia, o verbo esperar, aqui, é seguido pelo advérbio τελειος (teleios), que pode ser interpretado de duas maneiras:  

1. Enfatizando o verbo esperar conforme traduziu a ARA por esperai inteiramente. 2. Como uma indicação ao modo pelo qual os cristãos devem viver esta esperança, isto é, com maturidade e integridade (veja o uso do advérbio τελειος (teleios) também em Tg 1.2-4). Embora estas duas interpretações sejam possíveis, contudo, seria melhor entendermos o advérbio τελειος (teleios) como uma ênfase no verbo esperar, no qual se harmoniza perfeitamente com o contexto geral da carta (3.5). Desse modo, Pedro exorta os cristãos a esperar inteiramente, que significa “depositar a esperança”. 

Logo, vemos que esta esperança descrita não consiste em uma pessoa, mas em um objeto, ou seja, “na graça”. Esta graça que nos versículos 2 e 10 está no tempo presente, não obstante aqui, é sinônimo da salvação futura (vs.4, 9). Deus, portanto, está “trazendo a graça para os cristãos na revelação de Jesus Cristo”.

A expressão revelação de Jesus Cristo ARA é uma repetição da última parte do versículo ,e tem o mesmo sentido aqui como uma referencia não a primeira vinda de Cristo, mas a sua segunda vinda em glória (1Cor 1.7-8). A obra da redenção dos pecadores eleitos será concluída quando Jesus voltar. A plenitude da salvação chegará através do livramento da presença do pecado pela glorificação do corpo e da alma. Portanto, “olhar para a volta de Cristo fortalece a fé e a esperança em tempos difíceis e concede mais da graça de Deus (Tt 2.10-13)”7    

Não obstante, a seguir, nos versos 14-16, observamos que Pedro amplia o tema da santidade na vida cristã começando uma nova série de imperativos (exortações) baseados em três pontos. Senão vejamos:

a) Um solene aviso acerca do perigo à santidade.

1.14 Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância.           

Pedro, aqui, tece uma advertência aos seus leitores históricos e a todos os cristãos. O apóstolo assevera que, uma vez que foram eleitos para a salvação em Cristo Jesus por Deus Pai (vs.2), regenerados pelo Espírito Santo para a esperança da salvação futura e uma vida em santidade (vs.3, 13), os cristãos, todavia, não devem retornar ao estilo de vida que tinham no passado quando não conheciam o evangelho, o qual era caracterizado pela prática do pecado. Sendo assim, Pedro diz o que estes cristãos “devem fazer” (imperativo positivo). Vejamos então:

i. Os cristãos devem ser obedientes. A expressão filhos da obediência “é um linguajar semita (hebraico). Significa algo como: pessoas que são cunhadas integralmente pela obediência”(veja os exemplos similares em Lc 10.6; Ef 5.8; 2Ts 2.3).  

Geralmente, os filhos obedientes “são os filhos de uma pessoa que faleceu e deixou um testamento para que recebam a herança. Os cristãos são chamados de filhos, não por nascimento, mas por adoção. Entre os gregos e romanos do século 1, a prática da adoção era bem comum. Um filho adotivo desfrutava dos mesmos privilégios que o filho natural, até mesmo a ponto de dividir a herança”. Em vista disso, Pedro chama os seus destinatários e todos os cristãos de filhos da obediência, ou, em outra tradução, de “filhos obedientes” a fim de esboçar o conceito de santidade a eles. Portanto, ser filho da obediência é viver uma vida que desemboque em obediência, que pode ser definida simplesmente como fazer a vontade de Deus (1.2).

Após delinear o que os cristãos devem fazer, Pedro, agora, diz o que eles “não devem fazer” (imperativo negativo). Senão vejamos:

ii.  Os cristãos não devem se amoldar novamente aos desejos que tinham no passado. Embora os primeiros destinatários históricos de Pedro fossem uma mescla de Judeus e gentios (1.3, 12, 14, 18, 22-23, 25; 2.9-10; 4.3), todavia, o apóstolo relembra aqui especificamente o estilo de vida dos cristãos gentios no passado antes da conversão, a fim de avisá-los do perigo de retornar a este velho estilo de vida que Deus não se agrada. Diferente dos judeus, que conheciam a lei moral, estes gentios eram pagãos e ignorantes quanto ao conhecimento da vontade de Deus revelada nas Escrituras. Por essa razão, tinham o seu modus vivendi (modo de viver) conduzido pelas mais variadas paixões9 ou “desejos pecaminosos”.

No grego, a expressão não vos amoldeis σνσχηματιςόμενοι (syschematizomenoi) é, literalmente, “não vos amoldando”, podendo ser traduzida como “não se deixem conformar” 10 ou, trivialmente, como uma exortação a “não entrar no esquema”. Esta expressão “significava assumir a forma de alguma coisa, a partir de um molde no qual se era encaixado”.11 Contudo, uma vez que foram libertos da escravidão do pecado (Ef 2.1-3), Pedro adverte estes cristãos gentios a não entrarem novamente no antigo esquema do mundo caracterizado por uma vida regida pelos prazeres carnais (veja com exemplo Êx 20.13-17).

Aplicação prática

Os cristãos foram salvos para a obediência, por isso os salvos são filhos obedientes. Como os filhos herdam a natureza dos pais, precisamos viver em santidade, pois nosso Pai é santo.

Como filhos obedientes, não podemos retroceder nem cair nas mesmas práticas indecentes que marcavam nossa conduta quando vivíamos prisioneiros do pecado. Naquele tempo, os desejos e as paixões constituíam o esquema determinante da nossa vida e a nossa norma de conduta. É incoerente, incompatível e inconcebível um salvo amoldar-se às paixões de sua velha vida12 (veja Ef 4.22-25, 28-29, 31). Que não sigamos o mau exemplo de homens ímpios e desobedientes. Antes, sejamos corajosos o bastante para rejeitar o padrão de vida que eles gostariam de impor-nos por seu exemplo e influência.13 

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Notas:
1. A ARC traduziu literalmente a expressão no grego.
2. Ênio Mueller. 1 Pedro – Introdução e Comentário, pág 98.
3. O imperativo “sede sóbrio” não é um chamado à sobriedade, mas uma metáfora para manter a mente alerta e serena (Bob Utley. Comentário Bíblico de Marcus e 1, 2 Pedro, pág 222).
4. A palavra grega νήφοντες (nephontes) era comumente usada no âmbito religioso na época de Pedro, especificamente para as religiões de mistério para descrever as pessoas que se mantinham voltados para a salvação eterna enquanto que as outras pessoas que eram apegadas as prazeres deste mundo eram consideradas “embriagadas”.
5. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo. Novo Testamento 2, pág 511.
6. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1730.
7. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo. Novo Testamento 2, pág 511.
8. Uwe Holmer. Comentário Esperança. 1 Pedro, pág 21
9. σνσχηματιςόμενοι (me syschematizomenoi) é um particípio presente passivo que, influenciado pelo verbo principal “sede” γενήθητε, no versículo 15, no qual é um imperativo aoristo ativo, é traduzido como um imperativo.
10. Ênio Mueller. 1 Pedro – Introdução e Comentário, pág 101.
11. A palavra grega traduzida pela ARA por “paixões” é έπθυμία (epthymia), que é comumente descrita como “um anseio por algo que é proibido”. Denota um “forte desejo pela lúxúria”, podendo ser traduzida como “concupisciências” ARC ou, literalmente do grego como “desejos”, conforme a NVI e a Almeida Século 21 traduziram. Pessoalmente, para melhor entendimento, prefiro a tradução da BJC em virtude do acréscimo do adjetivo “mau”, ficando, assim, traduzido como “maus desejos”.
12. Hernandes Dias Lopes. 1 Pedro, pág 48-49.
13. Russel Norman Champlin. O Novo Testamento Interpretado – Vol 6. 1 Pedro, pág 104.

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Fonte: Trecho extraído do Comentário Expositivo de 1 Pedro do autor. 
Divulgação: Bereianos

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Fé: evidência da eterna eleição

Fé: evidência da eterna eleição

Que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2Tm 2: 9)
 “Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?(Tiago 2.5)

A doutrina da eleição não foi criada por nenhum concílio eclesiástico, mas revelada por Deus em sua palavra. Não é produto da investigação humana, mas do decreto divino.
Não se pode considerar como “algo novo”, pois não é nada criado por idéias subjetivas como as tantas “revelações” novas que surgem por aí. A doutrina da eleição, assim como o conjunto das doutrinas bíblicas evidentes são resultados da iluminação do Espírito Santo para testificação e efetivação da unidade cristã no contexto do Corpo de Cristo. Não é um conjunto doutrinário exclusivista e legalista como se vê em algumas igrejas neopentecostais que se firmam em “novas revelações”. Novas revelações essas que configuram um perigoso e duvidoso “Outro Evangelho”.
A eleição divina, portanto, é eterna e incondicional. Deus nos escolheu antes da fundação do mundo e escolheu-nos sem levar em conta qualquer suposto mérito humano. Deus nos escolheu não por causa da nossa fé, mas para a fé. A fé não é a causa da eleição, mas o seu resultado. Deus escolheu-nos não por causa da nossa santidade, mas para sermos santos e irrepreensíveis, de tal forma que a santidade não é a causa, mas a evidência da eleição. Deus escolheu-nos não por causa das nossas boas obras, mas para as boas obras, como Ele nos revela na carta de Tiago. Ele nos deu a fé (dom de Deus) para assim viver as obras como resultado da fé genuína, de tal forma que as boas obras não são a causa, mas a evidência da nossa eleição.
A eleição feita no céu precisa ser confirmada na terra. A eleição decretada na eternidade precisa ser evidenciada no nosso engajamento em relação á Mensagem da cruz.. O mesmo Deus que decreta o fim, ou seja, a nossa salvação; determina, também, os meios, ou seja, Deus nos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade. A prova que uma pessoa é eleita é se ela vive em santidade e se sua fé está firmada na verdade. Deus não nos chamou para a impureza, e sim, em santificação. Deus nos salvou não no pecado, mas do pecado. Deus nos criou em Cristo Jesus não para o comodismo, mas para as boas obras. Importa-nos confirmar nossa eleição.
Paulo, escrevendo aos crentes de Tessalônica, disse que a eleição deles era reconhecida por três evidências (1Ts 1.3,4):
Em primeiro lugar, a operosidade da fé. “Dando, sempre, graças a Deus por todos vós, mencionando-vos em nossas orações, recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé…” (1Ts 1.3). Uma fé operosa fala mais alto do que qualquer discurso teológico. Fé operosa não é apenas um assentimento intelectual a uma verdade bíblia. Fé operosa não é apenas uma confiança passageira num momento de necessidade. Fé operosa traduz em ação o que se crê. Fé operosa transforma em prática o que se acredita. Fé sem ação é fé morta. Fé sem obras é fé espúria. Quem crê, vive o que crê.
Em segundo lugar, a abnegação do amor. “… da abnegação do vosso amor…” (1Ts 1.3). O amor é a prova irrefutável de uma vida transformada. Quem ama vive na luz. Quem ama é nascido de Deus. Quem ama prova sua eleição. O amor é um argumento irresistível. Evidenciamos aos olhos do mundo que somos eleitos de Deus e discípulos de Cristo quando amamos uns aos outros como Cristo nos amou. O amor é a apologética final. As palavras dos nossos lábios precisam ser referendadas pelas obras de nossas mãos. Nossos atos são o avalista das nossas palavras. Não somos aquilo que falamos, mas aquilo que fazemos. O amor não consiste apenas de palavras, mas, sobretudo, de atitudes. Quem ama, age. O amor deve ser abnegado e sacrificial. Assim como Deus nos amou e deu-nos seu Filho; devemos, também, amar e dar a nossa vida pelos nossos irmãos.
Em terceiro lugar, a firmeza da esperança. “… e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição” (1Ts 1.3,4). A eleição é comprovada pela fé operosa, pelo amor abnegado e pela firme esperança. Os eleitos de Deus são aqueles que são chamados eficazmente, justificados legalmente pelo sangue de Cristo e glorificados seguramente na Pessoa de Jesus Cristo. Os eleitos são aqueles que perseveram até o fim, fazendo firme a vocação em processo de santificação, busca, realização e obediência, mantendo os olhos fitos no autor e consumador da fé, cruzando todos os mares revoltos da vida, alimentados por uma firme esperança. Essa esperança é viva e gloriosa. É a esperança da volta poderosa de Jesus, da ressurreição dos mortos, da reunião dos remidos nos ares e da bem-aventurança eterna. Você é um eleito de Deus? Você está confirmando sua eleição? Tem evidências de sua eterna salvação?


Texto escrito por Gabriel Felipe M. Rocha com base na mensagem devocional de Pr. Hernandes Dias Lopes/ Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória e com base nos resultados dos estudos bíblicos do “grupo de estudos Palavra a Sério”.

Bíblia King James/ Bíblia de Genebra/ Bíblia “Palavras Chave/grego e hebraico”