sábado, 15 de novembro de 2014

O FANATISMO RELIGIOSO

O FANATISMO RELIGIOSO
(Por Dan Russel)
Existe uma característica determinante que diferencia a vida cristã, vivida nos princípios do Cristianismo, da vida religiosa, vivida de acordo com preceitos de grupos religiosos: o fanatismo.
De acordo com Victor Frankl, médico psiquiátrico austríaco, o fanatismo é reconhecido por dois traços essenciais: a absorção da individualidade na ideologia coletiva e o desprezo pela individualidade alheia. "Individualidade" entende-se pela combinação de fatores que faz de cada ser humano um exemplar único e insubstituível. O fanático, portanto, é aquele que despreza suas próprias individualidades em prol daquilo que seu grupo considera importante, ao passo que despreza aquele que procura exercer sua individualidade em detrimento dos interesses do grupo.
A bíblia é bastante incisiva quanto à necessidade de se preservar as individualidades na obra de Deus. Evidentemente, o evangelho apresenta metas comuns aos cristãos, como evangelismo, vigilância, oração, reunião, etc. Entretanto, as características singulares de cada membro do corpo de Cristo devem ser conservadas, pois são úteis para toda a congregação.
Algumas características singulares destacam-se no meio cristão, são elas: habilidade para falar em público, a habilidade para administrar ou governar, para ensinar, para trabalhos braçais, para escrever, o talento musical, o talento artístico, dentre outros. Nem todos são aptos a ministrar, assim como nem todos são aptos à musicalidade. O mesmo acontece com o diácono que serve, com o pedreiro que constrói o edifício da igreja, com a irmã que é cozinheira, a outra que é missionária ou com o irmão que é evangelista. O trabalho de todos são necessariamente úteis e não menos importantes para o Reino de Deus.
Foi isso que o apóstolo Paulo ensinou sobre o corpo de Cristo, onde "o corpo não é um só membro, mas muitos" (1 Cor 12:14) e "os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários" (1 Cor 12:22). Ali, Paulo dizia das individualidades e da importância delas para o corpo de Cristo.
A ideia é que, na vida cristã, nem todos foram chamados para ser uma coisa só e que nenhuma função se sobrepõe a qualquer outra. Ainda, cada um deve exercer a atividade para a qual foi chamado, ainda que esta pareça ser a mais simples ou banal aos olhos da congregação.
Essa distinção de funções é feita de acordo com o dom que cada um recebeu do Senhor. A bíblia diz em Romanos que “temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de PROFETIZAR, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é SERVIR, sirva; se é ENSINAR, ensine; se é DAR ÂNIMO, que assim faça; se é CONTRIBUIR, que contribua generosamente; se é EXERCER LIDERANÇA, que a exerça com zelo; se é MOSTRAR MISERICÓRDIA, que o faça com alegria." Romanos 12:6-8.
Quantas funções diferentes e quantos dons individuais! O fanatismo religioso, entretanto, não reconhece a individualidade no evangelho ou, quando o reconhece, o faz por meio da pirâmide hierárquica de importância, cujo topo todos os integrantes do grupo devem almejar. Ainda que o indivíduo tenha o seu dom individual, e o usa a serviço da obra de Deus, ele só será completo se almejar o topo da pirâmide estabelecida pelo grupo.
As consequências práticas disso são três.
A primeira é que os membros que incorporam essa ideia (principalmente os jovens) vivem suas vidas em torno daquilo que lhes é imposto inconscientemente a buscar. Essa "busca pelo ideal" acaba por abafar suas qualidades natas, as quais poderiam ser mais bem desenvolvidas e usadas com perfeição em prol do Reino e da congregação.
A segunda é que os que pertencem ao grupo, mas rejeitam suas pretensões hierárquicas - muitas vezes por falta de aptidão e talento - são invariavelmente marginalizados. Vistos como acomodados, rebeldes ou irrepreensíveis, estes, por desconhecerem a verdade bíblica sobre o assunto, acabam se esfriando e se afastando cada vez mais do grupo a que pertencem. A pressão sofrida, a frustração e a sensação de tempo perdido podem causar-lhes, ainda, sérios danos psicológicos e espirituais.
A terceira relaciona-se diretamente a toda a congregação, pois, como não estão focados nas individualidades, mas sim na pretensão hierárquica, seus líderes não são tão bem preparados como poderiam ser, justamente por falta do talento que só poderia ser dado por Deus. Assim, haverá professores que não têm o dom de ensinar, ministros que não têm o dom de ministrar, pastores sem paciência, diáconos preguiçosos, presbíteros desinteressados e músicos desafinados.
O erro do fanatismo cristão reside na crença de que há dons espirituais mais importantes que outros. Esse era o erro da igreja de Coríntios e Paulo, nos capítulos 12, 13 e 14 da primeira carta, trata de reparar. A resposta do apóstolo a tudo isso foi o “amor”. No capítulo 13, Paulo apresenta o amor como o dom mais excelente, o principal a ser buscado.
O amor reconhece os dons de cada um e as limitações de cada um. O amor não permite a inveja e o ódio a quem aparentemente possui um dom melhor. O amor rompe a barreira da aparência e faz do faxineiro um instrumento tão importante quanto o ministro da congregação. O amor “não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (1 Cor 13:4-7).
O amor é o único que pode vencer o fanatismo.

Dan Russel

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