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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A compatibilidade da Revelação com a Razão Humana


"A revelação objetiva de Deus visa a mostrar seu autor; logo, ela não teria nenhum valor se não houvesse potencialidade de recepção subjetiva. Sem isso, seria uma revelação que não se tornaria acessível. Seria o equivalente a um intérprete verter para o inglês as palavras de um orador alemão a um auditório que só entende o português. Ele traduziria para o auditório as palavras do orador, mas não revelaria verdadeiramente o conteúdo da mensagem, pois ninguém o entenderia.
Deus se revela sabendo que há a possibilidade de ser entendido, pois ele mesmo criou o homem e o dotou com essa capacidade. Entretanto, a não compreensão do homem não inutiliza o valor da revelação de Deus. Ela existe independentemente da apreensão humana. O pecado corrompeu o intelecto, a vontade e a faculdade moral do ser humano; ele está morto espiritualmente, sendo escravo do pecado (Gn 6:5; 8:21; Jo 8:34,43-44; Rm 3:23; 6:6,23; Ef 2:1; Cl 1:13; 2:13).
Isso se chama depravação total. Ainda que o homem não seja absolutamente mau - não é tão mau quanto poderia -, é extensivamente mau; todo o seu ser está contaminado pelo pecado. Em consequência, ele tornou-se positivamente mau (Gn 6:5; 8:21; Mt 7:11). Ainda assim, o pecado não destruiu a possibilidade de percepção.
O conhecimento humano consiste sempre em uma relação lógica entre sujeito e objeto; visto que o sujeito só é sujeito para o objeto,e , por sua vez, o objeto só o é para um sujeito, assim, a revelação objetiva reclama alguém, e este alguém (objeto) só o é enquanto recebe de forma adequada a revelação.
A razão é o instrumento de que dispomos, pela graça de Deus, para descobrir a sabedoria divina no mundo; é o principium cognoscendi internum da ciência. Entendemos que o conhecimento também se dá pela experiência; contudo, cremos que o espírito humano traz consigo certas categorias que lhe são inerentes, as quais não podem ser apreendidas pela experiência. Assim, a experiência não é necessariamente a fonte de todo o conhecimento". (Hermisten Maia, Fundamentos da Teologia Reformada,Editora Mundo Cristão).


domingo, 23 de novembro de 2014

Revelação

Revelação

(Por R. C. Sproul)

Olá, amigos, irmãos e leitores do Blog Palavra a Sério! A Paz!
Desde que abracei a fé reformada, entendendo-a e percebendo-a como uma fé pautada não só na história gloriosa da Reforma Protestante, mas pautada e totalmente fundamentada nas Escrituras, na Bíblia como regra única de fé e prática da Igreja de Jesus Cristo, Sproul tem sido um pregador, autor e exemplo que tem sido usado por Deus para me inspirar cada dia mais. Sendo assim, deixo um breve texto de R.C. Sproul sobre o conceito de “Revelação” à luz das Escrituras. Principalmente, sabendo que muitas igrejas de cunho sectário surgiram através de supostas “revelações” e, o mesmo termo tem sido – também – muito usado entre os neopentecostais sem nenhum cuidado, entendimento e estudo. Portanto, faz-se relevante e pertinente analisar à luz da Bíblia tal conceito. Boa leitura!

Tudo o que sabemos sobre o Cristianismo nos foi revelado por Deus. Revelar significa "tirar o véu." Tem a ver com remover a cobertura e descobrir algo que está encoberto.
Quando meu filho era pequeno, nossa família desenvolveu uma tradição anual para comemorar seu aniversário. Em vez da prática geral de entregar os presentes, fazíamos isso por meio da nossa versão caseira do programa de televisão "Vamos Fazer um Trato." Eu escondia os presentes destinados a ele, por exemplo, dentro de uma gaveta, debaixo do sofá ou atrás de uma cadeira. Então lhe dava algumas opções: "Você pode ganhar o que está na gaveta da minha escrivaninha ou o que está no meu bolso". O ponto principal do jogo era o "grande trato do dia". Eu colocava três cadeiras, uma ao lado da outra, cada uma delas coberta com um lençol. Cada lençol encobria um presente. Na primeira cadeira colocávamos um presente simples, na Segunda o presente principal que ele iria ganhar e sobre a terceira uma muleta que ele havia usado quando quebrou a perna aos sete anos de idade.
Meu filho escolheu a cadeira com a muleta por três anos consecutivos! (No final, sempre permitíamos que trocasse a muleta pelo presente.) No quarto ano, estava determinado a não escolher mais a muleta. Desta vez, eu escondi o presente principal junto com a muleta, na mesma cadeira, e deixei a ponta da muleta aparecendo por baixo do lençol. Ao ver a ponta da muleta, meu filho evitou cuidadosamente aquela cadeira. Ganhei de novo!
A parte mais divertida da brincadeira era tentar adivinhar onde o presente estava escondido. Tratava-se contudo de um trabalho de mera suposição, pura especulação. A descoberta do verdadeiro tesouro só podia ser feita depois que o lençol era removido e o presente ficava exposto.
O mesmo acontece com o nosso conhecimento de Deus. A especulação fútil sobre Deus é mera tolice. Se queremos conhecê-lo de verdade, temos de depender daquilo que ele revela sobre si mesmo.
A Bíblia declara que Deus se revela de várias maneiras. Manifesta sua glória na natureza e por meio dela. Revelou-se nos tempos antigos por meio de sonhos e visões. As marcas da sua providência se manifestam nas páginas da História. Revela-se nas Escrituras inspiradas. O ponto mais alto da sua revelação é visualizado em Jesus Cristo, tornando-se ser humano – o que os teólogos chamam de "encarnação".
O autor da carta aos Hebreus escreveu: Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Hebreus 1.1,2.
Embora a Bíblia fale das "diversas maneiras" em que Deus se revela, distinguimos entre dois tipos principais de revelação – a geral e a especial.
A revelação geral é chamada assim por duas razões: (1) ela é geral no conteúdo e (2) é revelada para uma audiência geral.

Conteúdo Geral
A revelação geral nos proporciona o conhecimento de que Deus existe. "Os céus proclamam a glória de Deus", diz o salmista. A glória de Deus é manifesta nas obras das suas mãos. Essa manifestação é tão clara e visível que nenhuma criatura pode deixar de percebê-la. Ela revela o poder eterno de Deus e sua divindade (Rm.1.18-23). A revelação na natureza, porém, não proporciona uma revelação plena de Deus. Não nos dá informações sobre o Deus Redentor que encontramos na Bíblia. O Deus que se revela na natureza, entretanto, é o mesmo Deus que se revela na Bíblia.

Público Geral
Nem todas as pessoas no mundo já leram a Bíblia ou ouviram a proclamação do Evangelho. A luz da natureza, porém, brilha sobre todos, em todos os lugarem em todo o tempo. A revelação geral de Deus acontece diariamente. Deus nunca fica sem um testemunho de si mesmo. O mundo visível é como um espelho que reflete a glória do seu Criador.
O mundo é um palco para Deus. Ele é o ator principal, que aparece em primeiro plano e no centro. Nenhuma cortina pode fechar-se para obscurecer sua presença. Basta um olhar de relance na criação para se perceber que a natureza não é sua própria mãe. Não existe a tal "Mãe Natureza". A natureza em si mesma não tem poderes para produzir qualquer tipo de vida. A natureza, em si é estéril. O poder de produzir a vida reside no Autor da natureza – Deus. Colocar a natureza como a fonte de vida é confundir a criatura com o Criador. Todas as formas de adoração da natureza, portanto, são atos de idolatria e são abomináveis para Deus.
``A luz da força da revelação geral, todo ser humano sabe que Deus existe. O ateísmo envolve a negação total de algo que é reconhecido como verdadeiro. Por isso a Bíblia diz: "Diz o insensato no seu coração: Não há Deus." (Sl. 14.1). Quando as Escrituras tratam tão severamente o ateu, chamando-o de "insensato", elas estão fazendo um julgamento moral dele. Ser insensato, em termos bíblicos, não significa Ter pouco entendimento ou falta de inteligência; é ser imoral. Como o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, assim a negação de Deus é o máximo da loucura.
Semelhantemente o agnóstico nega a validade da revelação geral. O agnóstico, porém, é menos berrante que o ateu. Ele não nega terminantemente a existência de Deus. Pelo contrário, ele declara que as evidências são insuficientes para se decidir de uma maneira ou de outra quanto à existência de Deus. Prefere suspender seu julgamento, deixando o tema da existência de Deus uma questão em aberto. À luz da clareza da revelação geral, entretanto, a posição do agnosticismo não é menos abominável para Deus do que a do ateísta militante.
Para qualquer pessoa, porém, cuja mente e coração estão abertos, a glória de Deus é maravilhosa de se ver – desde os bilhões de universos no firmamento, até as partículas subatômicas que formam a menor das moléculas. Que Deus incrível nós servimos!
A influência de vários movimentos em nossa cultura, tais como a Nova Era, as religiões orientais e a filosofia irracional tem provocado uma crise no entendimento. Uma nova forma de misticismo tem surgido, a qual exalta o absurdo como a marca registrada da verdade religiosa. Lembremo-nos da máxima do Zen Budismo, de que "Deus é uma mão batendo palmas" como uma ilustração desse padrão.
Dizer que Deus é uma mão batendo palmas tem uma ressonância profunda. Tal afirmação conffunde a mente consciente, pois é um golpe nos padrões normais de pensamento. Soa "profundo" e intrigante, até analisarmos cuidadosamente e descobrirmos que na raiz é simplesmente destituída de sentido.
A irracionalidade é um tipo de caos mental. Fundamenta-se na confusão que se opões ao Autor de toda a verdade, o qual não é de forma alguma autor de confusão.
O Cristianismo bíblico é vulnerável a tais correntes de irracionalidade exaltada, porque irracionalidade admite candidamente que existem muitos paradoxos e mistérios na própria Bíblia. Existem linhas que separam o paradoxo, o mistério e a contradição; embora sejam tênues, essas linhas divisórias são cruciais e é importante que aprendamos a distingui-las.
Quando tentamos perscrutar as profundezas de Deus, somos facilmente confundidos. Nenhum mortal pode compreender a Deus exaustivamente. A Bíblia revela coisas sobre Deus que sabemos serem verdadeiras, a despeito da nossa incapacidade de entendê-las totalmente. Não temos um ponto de referência humano para entender, por exemplo, um ser que é três em termos de pessoa, mas um só em essência (a Trindade), ou um ser que é uma pessoa com duas naturezas distintas, humana e divina (a pessoa de Cristo). Essas verdades, tão certas, como são, são "elevadas" demais para podermos compreendê-las.
Encontramos problemas similares no mundo natural. Sabemos que a força da gravidade existe, mas não a entendemos e nem tentamos defini-la como irracional ou contraditória. A maioria das pessoas concorda que o movimento é uma parte integrante da realidade, embora a essência do movimento em si tenha deixado filósofos e cientistas perplexos por milênios. Isso, porém, não justifica um salto no absurdo. A irracionalidade é fatal tanto para a religião como para a ciência. De fato, ela é mortal para qualquer verdade.
O filósofo cristão Gordon H. Clark certa vez definiu um paradoxo como "uma cãibra entre as orelhas’. Seu comentário espirituoso destina-se a destacar que aquilo que às vezes é chamado de paradoxo frequentemente nada mais é do que preguiça mental. Clark, entretanto, reconhecia claramente o papel legítimo e a função do paradoxo. A palavra paradoxo vem de uma raiz grega que significa "parecer ou aparentar". Paradoxos são difíceis de entender porque à primeira vista "parecem" contradições, mas quando são sujeitos a um exame minucioso, frequentemente pode-se encontrar as soluções. Por exemplo, Jesus disse: "Quem perde a vida por minha causa achá-la-á" (Mt.10.39). Aparentemente, isso soa semelhante à declaração de que "Deus é uma mão batendo palmas". Soa como vida em um sentido, irá encontrá-la em outro sentido. Já que a perda e a salvação têm sentidos diferentes, não há contradição. Eu sou pai e filho ao mesmo tempo, mas obviamente não há contradição. Eu sou pai e filho ao mesmo tempo, mas obviamente não no mesmo relacionamento com a mesma pessoa.
O termo paradoxo é frequentemente mal-interpretado como sendo sinônimo de contradição; agora, inclusive, aparece em alguns dicionários como um significado secundário desse termo. Uma contradição é uma afirmação que viola a lei clássica da não contradição. A Lei da não-contradição declara que A não pode ser A e não-A ao mesmo tempo e no mesmo contexto. Quer dizer, algo não pode ser o que é e não ser o que é ao mesmo tempo e no mesmo contexto. Essa é a mais fundamental de todas as leis da lógica.
Ninguém pode entender uma contradição, porque uma contradição é inerentemente incompreensível. Nem mesmo Deus pode entender contradições; entretanto, certamente ele pode reconhecê-las pelo que são – falsidades. A palavra contradição vem do latim "falar contra". Às vezes é chamada uma antinomia, que significa "contra a lei". Para Deus, falar em contradições seria ser intelectualmente anormal, falar com uma língua bipartida. Até mesmo insinuar que o Autor da verdade poderia cair em contradição seria um grande insulto e uma blasfêmia irresponsável. A contradição é a arma do mentiroso – o pai da mentira, que despreza a verdade.
Existe uma relação entre mistério e contradição, que facilmente nos leva a confundir ambos. Não entendemos mistérios. Não podemos entender contradições. O ponto de contato entre ambos os conceitos é seu caráter ininteligível. Os mistérios podem não ser claros para nós agora simplesmente porque nos falta a informa[ção o u a perspectiva para entendê-los. A Bíblia promete que no céu teremos mais luz sobre os mistérios que agora não podemos entender. Mais luz pode resolver os atuais mistérios. Não existe, entretanto, luz suficiente nem no céu nem na Terra para resolver uma óbvia contradição.
Quando eu era menino e minha mãe queria que fizesse algo para ela sem demora, acentuava a ordem usando o adverbio imediatamente. Ela dizia: "Filho, vá para o seu quarto imediatamente."
Minha mãe usava a palavra imediatamente para referir-se a um evento no tempo que devia ocorrer sem qualquer bloco de tempo intermediário. Na teologia, o termo imediato significa algo mais. Significa que algo acontece sem passar por nenhum agente, objeto ou meio intermediários. É uma ação que ocorre sem a participação de intermediários.
Na teologia bíblica podemos distinguir dois tipos de revelação geral – aquela que é comunicada diretamente. Quando falamos de revelação geral imediata, nos referimos à revelação transmitida por meio de alguma coisa. Quando os céus revelam a Deus, tornam-se os mediadores, ou o meio pelo qual Deus manifesta sua glória. Neste sentido, todo o universo é um meio de revelação divina. A criação dá testemunho do seu Criador.
A Bíblia diz que toda a terra está repleta da glória de Deus. Lamentavelmente, com frequencia nós ignoramos essa glória que nos cerca. Temos a tendência de viver de maneira superficial. Estamos desatentos diante da maravilha que Deus nos proporciona em sua gloriosa criação. Estamos desligados e fora de contato. As idéias religiosas são inúteis se não expressam algo real.
A presença sublime de Deus está em toda a nossa volta. Ainda assim, muitas vezes estamos cegos e surdos para ela. Não compreendemos sua linguagem. Exige mais do que simplesmente parar para cheirar as flores. A flor contém mais do que um aroma suave ou um perfume agradável. Ela transpira a glória do seu Criador. Todos nós estamos em contato com a revelação divina, quando reconhecemos a glória de Deus na natureza e é revelada nela e por meio dela.
Além de revelar sua glória indiretamente por meio da criação, Deus também se revela diretamente à mente humana. Essa é chamada revelação geral imediata.
O apóstolo Paulo fala da Lei de Deus escrita em nosso coração (Rm.2.12-16). João Calvino falou sobre um senso do divino, o qual Deus implanta na mente de cada pessoa. Ele disse: Nós, inquestionavelemente, afirmamos que os homens têm em si mesmos certo senso da divindade; e isto, por um instinto natural. ... Deus mesmo dotou todos os homens com certo conhecimento de sua divindade, cuja memória ele constantemente renova e ocasionalmente amplia. (Institutas, II, 1,43).
Todas as culturas atestam a presença de alguma atividade religiosa, confirmando a incurável natureza religiosa da humanidade. Os seres humanos são religiosos no seu âmago. O caráter de tal religiosidade pode ser grosseiramente idólatra; mas até mesmo a idolatria, ou melhor, principalmente a idolatria, dá uma evidência desse conhecimento inato que pode ser distorcido, mas jamais destruído.
Lá bem no fundo da nossa alma nós sabemos que Deus existe e que nos deu suas Leis. Procuramos sufocar esse conhecimento a fim de escapar dos seus mandamentos. Por mais que nos esforcemos, porém, não podemos calar essa voz interior. Ela pode ser abafada, mas jamais ser destruída.
Quando foi tentado por Satanás no deserto, Jesus o repreendeu com as palavras: "Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mt.4.4). Historicamente, a igreja tem feito ecoar o ensino de Jesus, afirmando que a Bíblia é a vox Dei, a "voz de Deus" ou o verbum Dei, a "Palavra de Deus’. Chamar a Bíblia de "a Palavra de Deus" não significa sugerir que ela foi escrita pela própria mão de Deus, ou que caiu do céu num pára-quedas. A própria Bíblia claramente chama a atenção para seus muitos autores humanos. Se a estudarmos cuidadosamente, percebemos que cada autor humano tem seu próprio estilo literário peculiar, seu próprio vocabulário, ênfase especial, perspectiva e outros aspectos. Já que a produção da Bíblia envolveu esforço humano, como pode ser ela considerada Palavra de Deus?
A Bíblia é chamada de Palavra de Deus por causa da sua reivindicação, crida pela igreja, de que os escritores humanos não escreveram simplesmente suas próprias opiniões, mas que suas palavras foram inspiradas por Deus. O apóstolo Paulo escreve: "Toda Escritura é inspirada por Deus" (2 Tm. 3.16). A palavra inspiração é uma tradução da palavra grega que significa "sopro de Deus". Quer dizer, Deus soprou a Bíblia. Assim como temos de expelir ar de nossa boca quando falamos, assim, em última análise, a Bíblia é Deus falando.
Embora a Bíblia tenha chegado a nós por intermédio das mãos de autores humanos, a fonte suprema das Escrituras é Deus. Por isso os profetas podiam prefaciar suas palavras, dizendo: "Assim diz o Senhor". Por isso Jesus também podia dizer: "A tua palavra é a verdade" (Jo. 17.17) e "a Escritura não pode falhar" (Jo. 10.35).
A palavra inspiração também chama a atenção par ao processo pelo qual o Espírito Santo superintendeu a produção da Bíblia. O Espírito guiou os autores humanos para que as palavras deles não fossem nada menos que a Palavra de Deus. Não sabemos como Deus superintendeu a redação original da Bíblia. Inspiração, entretanto, não significa que Deus ditou sua mensagem para aqueles que redigiram a Bíblia. Ao invés disso, o Espírito Santo comunicou as exatas palavras de Deus por intermédio dos escritores humanos.
Os cristãos afirmam a infalibilidade e a inerrância da Bíblia porque, em última análise, Deus é o seu autor. E porque Deus é incapaz de inspirar algo falso, sua palavra é totalmente verdadeira e digna de toda confiança. Qualquer literatura humana, elaborada pelos meios normais, está sujeita a erros. A Bíblia, porém, não é um projeto humano normal. Se a Bíblia foi inspirada por Deus e sua redação foi supervisionada por ele, então não pode ter erros.
Isso significa que as traduções da Bíblia que temos hoje não estejam isentas de erro, mas que os manuscritos originais eram absolutamente corretos. Isso também não significa que cada declaração da Bíblia seja a expressão da verdade. O escritor do livro de Eclesiastes, por exemplo, declara que "no além para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma" (Ec.9.10). O escritor estava falando do ponto de vista do desespero humano e sabemos que esta declaração não expressa a verdade, de acordo com outros textos bíblicos. A Bíblia expressa a verdade até mesmo ao revelar a falsa argumentação de um homem desesperado.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A Interpretação da Escritura



A Interpretação da Escritura

"Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente" (Isaías 40:8)


Certa vez, o renomado e respeitado pastor e pregador  C. A. Spurgeon disse: “Onde quer que você fure as Escrituras, elas jorram o sangue do Cordeiro.”
Porque a Escritura é a Palavra de Deus e o Espírito Santo seu autor, ninguém tem o direito de interpretá-la por conta própria. As pessoas freqüentemente falam como se tivessem esse direito. Elas falam de “minha interpretação” ou a de alguém outro, ou, até mesmo, "a interpretação da minha igreja é assim...". Isso está errado (veja em 2Pe. 1:20). Mesmo na controvérsia, existe somente uma interpretação aceitável da Escritura, e essa é a interpretação da Escritura dela mesma. Pois ela não pode ser discernida humanamente, pois o homem é dotado de paixões e inclinações diversas. Ela se discerne espiritualmente, pois é resultado de um conjunto de inspirações e revelações do próprio Espírito Santo. A interpretação é de Deus, não do homem. Dessa forma, a Bíblia, sendo um conjunto de vários livros inspirados, foi inspirada por um só Espírito Santo, portanto, há uma unidade intrínseca nas Escrituras. Não existe a "teologia de Paulo", a "teologia de Pedro", o "conceito de sei lá o quê de Davi", etc. Ela tem uma variedade de informação, uma série exaustiva de assuntos, um conjunto de normas e exemplos de conduta, etc. mas ela, de forma geral, é una. Seu conteúdo tem uma essência e seu plano se resume num só: salvação da humanidade na Revelação de Jesus Cristo (que se encontra e se manifesta em toda a Bíblia).
Um dos grandes princípios da Reforma `Protestante foi o princípio que a Escritura é auto-interpretativa. Embora isso possa parecer estranho para nós, deve ser assim, pois somente o próprio autor, o Espírito Santo de Deus, tem o direito e o poder de nos comunicar o que ele quis dizer. Minha interpretação não significa nada. Somente a de Deus importa. Posso sim, estudar, ler, escrever, criar estudos magníficos e edificantes, etc. Posso! Me é permitido! Mas não posso ousar em ultrapassar a Sã Doutrina de Jesus Cristo. Jamais poderei dar ouvidos às "novas revelações" que configuram um "outro evangelho". Assim, não posso ter uma interpretação particular, mas, meu aprendizado sobre a Bíblia e seu conteúdo tem uma só direção, alvo, essência e poder.
Isso é ensinado em 2 Pedro 1:20, 21, que declara claramente que nenhuma Escritura é de interpretação particular. Essa declaração parece um pouco inapropriada, pois a ênfase não é sobre a interpretação, mas sobre a inspiração. Todavia, a doutrina da inspiração, como ensinada nesses versículos, tem o seguinte como sua aplicação: ninguém senão Deus mesmo, que inspirou a Palavra, tem o direito de interpretá-la. Isso, pela ação do Espírito Santo.
No entanto, o Espírito Santo não interpreta as Escrituras de uma forma mística – não revelando misteriosa e secretamente o significado da Escritura para nós mediante algumas revelações privadas. A Bíblia não é um livro de "pique-esconde", onde Deus se esconde nas entrelinhas e se revela de forma "nova" para alguns, fazendo com que o contexto literal se anule. É errado dizer, “Deus me mostrou”, “Deus me disse assim”, ou “Deus me revelou isso e não aquilo”. Isso, também, é uma negação da Escritura, não somente de sua suficiência, como temos visto, mas da inspiração da Escritura. A pessoa que diz essas coisas está alegando ter uma interpretação da Escritura que Deus lhe deu privadamente, à parte da própria Escritura. A interpretação apropriada da Escritura é dada quando a Escritura é comparada com a Escritura.
Por exemplo, se desejamos determinar o significado de uma palavra na Escritura, talvez a palavra batismo, devemos analisar diferentes passagens nas quais a palavra é usada e o contexto de cada passagem, para então determinar o que ela significa na Escritura e como é usada por esta. A interpretação apropriada da Escritura, portanto, requer estudo cuidadoso para que possamos aprender da própria Escritura o que ela quer dizer. A pessoa que pensa poder voltar-se para uma passagem da Escritura e entendê-la sem estudo é muito tola e arrogante.
Sobre esse enganos, sugiro que leiam em:
http://palavraserio.blogspot.com.br/2014/08/examinai-as-escrituras-e-seu-conceito.html

Contudo, devemos ser cuidadosos para não impor nossas idéias sobre a Escritura, mas humildemente e em oração receber o que ela diz. Aprender a interpretação apropriada da Escritura requer graça, submissão e oração. Não existe ninguém, nem mesmo ministros do evangelho e nem igrejas que se dizem "a mais especial", que possa alegar estar acima da Palavra de Deus. Nem mesmo os dons espirituais estão acima das Escrituras! Toda interpretação, credo e sermão pode e deve ser submetido ao escrutínio rígido à luz do que a Palavra de Deus diz, exatamente porque ninguém tem o direito privado de interpretar a Escritura. Por essa razão, mesmo a pregação dos apóstolos era sujeita ao exame e crítica cuidadosa (Atos 17:10, 11). Mesmo aquela pregação, como qualquer outra, tinha que se conformar à interpretação do Espírito de sua própria Palavra.
Possa Deus nos dar a graça necessária – muita graça – para buscarmos e encontrarmos a interpretação correta e prestarmos atenção a ela (Hb. 2:1).
Leia também:
http://palavraserio.blogspot.com.br/2014/08/examinando-as-escrituras-2-repostando.html

http://palavraserio.blogspot.com.br/2014/10/nao-ultrapassemos-o-evangelho-de-jesus.html


Gabriel Felipe M. Rocha
Referências: Bíblia de Genebra/ ARC/Revista Monergista/Charles A. Spurgeon/ 

domingo, 21 de setembro de 2014

O Espírito Santo dá entendimento espiritual

O Espírito Santo dá entendimento espiritual

"E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento."
(1Jo 2.20)

       O Espírito Santo dá entendimento espiritual
       O conhecimento das coisas divinas, para o qual os cristãos são atraídos, é mais do que uma intimidade formal com as palavras bíblicas e as ideias cristãs. E uma conscientização espiritual da realidade e relevância das atividades do Deus triúno, as quais a Escritura testifica. Tal conscientização não é normal nas pessoas, por mais familiaridade que tenham com as ideias cristãs (como o homem sem o Espírito em 1Co 2.14, que não aceita o que os cristãos lhe dizem, ou os cegos guias de cegos, de quem Jesus falou tão causticamente em Mt 15.14, ou como o próprio Paulo antes do seu encontro com Jesus na estrada de Damasco). Somente o Espírito Santo, perscrutador das profundezas de Deus (1Co 2.10), pode efetuar essa conscientização em nossas mentes e corações obscurecidos pelo pecado. E por isso que é chamada "entendimento espiritual" (espiritual significa "dado pelo Espírito", Cl 1.9; cf. Lc 24.25; 1Jo 5.20). Aqueles que, ao lado de uma sólida instrução verbal, possuem "unção que vem do Santo... [têm] conhecimento da verdade" (1Jo 2.20).

       A obra do Espírito de conceder esse conhecimento é chamada "iluminação". Não é uma nova revelação que esteja sendo dada, mas uma obra dentro de nós que nos capacita a compreender e amar a revelação que está ali diante de nós no texto bíblico ouvido ou lido, e explanado por pastores, professores e, talvez, escritores. Tudo que vier como "nova" revelação deve ser rejeitado, pois a Bíblia chama isso de "Outro Evangelho". Se digo que há uma nova revelação e que meu grupo religioso (apenas) alcançou a mesma, estou automaticamente dizendo que a Bíblia foi insuficiente e precisou sofrer "mudanças".
Alguns querem acreditar que o Espírito Santo concede novas revelações além das Escrituras. Mentira! O que o Espírito Santo faz é iluminar espiritualmente sobre aquilo que já está revelado nos textos inspirados.

Alguns chamam de “revelação” algumas interpretações bíblicas alegóricas, tipológicas e simbólicas. Mas, de fato, é uma iluminação, um esclarecimento sobre algum assunto ou verdade contida já nos textos bíblicos. Nada pode ser alterado.
O pecado em nosso sistema mental e moral anuvia nossas mentes e vontades, de modo que não compreendemos a força da Escritura e resistimos a ela. Deus parece-nos remoto, ao extremo da irrealidade, e diante da sua verdade somos embotados e apáticos. O Espírito, contudo, abre e desanuvia nossas mentes, sintonizando nossos corações para que compreendamos (Ef 1.17,18; 3.18,19; 2Co 3.14-16; 4.6). Como pela inspiração Ele nos proveu a verdade bíblica, assim agora pela iluminação Ele no-la interpreta. A iluminação é, pois, a apuração da verdade revelada de Deus aos nossos corações, a fim de que apreendamos como realidade para nós o que o texto sagrado anuncia.
       A iluminação, que é um ministério permanente do Espírito Santo aos cristãos, inicia antes da conversão com uma crescente compreensão da verdade acerca de Jesus Cristo e uma crescente sensação de estar sendo avaliado e exposto por ela. Jesus disse que o Espírito "convenceria o mundo" do pecado de não crer nele, do fato de Ele estar à direita de Deus Pai (como seu bom acolhimento na volta ao céu o provou), e da realidade do julgamento tanto aqui como na vida futura (Jo 16.8-11). Este convencimento triplo é ainda o meio de Deus fazer que o pecado seja repulsivo e Cristo adorável aos olhos das pessoas que antes amavam o pecado e não tinham nenhum interesse pelo divino Salvador.
       A forma de ser plenamente beneficiado pelo ministério da iluminação do Espírito é o estudo sério da Bíblia, a oração séria e a séria correspondência obediente a todas e quaisquer verdades que já tenham sido expostas. Isto corresponde à máxima de Lutero sobre as três coisas que fazem os verdadeiros cristãos em menuseio da Bíblia: oratio (oração), meditatio (pensar na presença de Deus sobre o texto), e tentatio (provação, a luta pela fidelidade bíblica diante da pressão para desatender o que a Escritura diz).


domingo, 13 de julho de 2014

Examinando as Escrituras 2: A Palavra Revelada

Examinando as Escrituras 2:

A Revelação das Escrituras (um conceito bíblico-profético de “Palavra Revelada” em análise de João 6: 54 e Mateus 16: 16)
(Por Gabriel Felipe M. Rocha)


Antes de irmos direto ao estudo proposto, quero saudar meus irmãos, amigos, companheiros de estudos bíblicos e dedicados leitores (verdadeiros estudantes das Escrituras) com a Paz de nosso Senhor Jesus Cristo.

Em referência a belíssima exposição do tema dada na Escola Bíblia Dominical da igreja na qual sou membro, decidi postar o estudo com base nos meus próprios estudos e, ao mesmo tempo, lançando mão dos aspectos espirituais abordados na aula e de um estudo mais aprofundado com base na Verdade das Escrituras (nosso referencial prático e regra de fé).


Tenho já postado alguns assuntos de cunho apologético referentes ao tema. Seguem abaixo os sete links sobre o assunto:










Segue, portanto, minha análise do tema: “Palavra Revelada”. Boa leitura!

Textos base: João 6: 54 e Mateus 16: 16 – 18.

Comecemos com o texto base em João 6: 54: “Todo aquele que comer a minha carne e beber o meu sangue tem vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia” (Bíblia King James Atualizada).

O contexto da passagem bíblica em João 6: 54 se deu num sermão expositivo de Jesus, onde o mesmo falava para uma imensa multidão. Multidão essa que envolvia não só parte do povo humilde e “desletrado” daquela sociedade, mas também os fariseus e notáveis conhecedores da Lei de Moisés. Incluída nessa multidão, estavam os apóstolos e discípulos de Jesus.
No texto em destaque, Jesus fala de algo plenamente espiritual, no entanto, falava de algo espiritual (de cunho profético) com base nas informações da revelação escrita, a saber,  a Palavra de Deus (ali na forma da Lei e Profetas).

Jesus dizia que era preciso comer de sua carne e beber de seu sangue. Bem, esse sermão foi inquietante, pois – de princípio – feria o costume religioso judaico e de forma absurda. “Como comer a carne desse homem?” poderiam ter dito esses magistrados e doutores da Lei, inclusive até o mais humilde homem, pois, nem sequer podiam comer determinadas carnes de animais e jamais poderiam beber algum tipo de sangue. “Esse homem é louco!”, conjecturamos essas palavras, pois elas, de fato, causavam espanto aos tais. “Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (João 6:60). Interessante que o termo grego para “duro” é “skleros” que significa também “louco”. Ou seja, a revelação era loucura para aqueles tantos espalhados ali entre a grande multidão.

Mas Jesus mesmo usava elementos da Revelação Escrita (a “Bíblia do Antigo testamento: Lei e Profetas) para falar da Nova Aliança que viria em seu Corpo e seu Sangue.

“Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre” (João 6: 58)

Jesus falava de algo plenamente profético e espiritual usando aspectos da literatura bíblica no exemplo do maná do deserto que antes era comido, mas os que comeram não puderam evitar a morte. Nesse horizonte  caracterizado pela dualidade “letra” e “revelação”, Jesus pregava sobre a Nova Aliança que se daria em seu Corpo e seu Sangue, onde  - agora – todos que cressem (comessem e bebessem) não morreriam a morte eterna (da condenação), mas teriam a Vida Eterna (da salvação). Era o profético superando a expectativa literal, sem, porém invalidar o texto literal.

Jesus mostrava com isso que: existia uma espécie de dicotomia intrínseca nas Escrituras, assim como tem essa mesma dicotomia na Bíblia. Explico:
Existia (e existe ainda) nas Escrituras sagradas o aspecto da Revelação Escrita, dada por inspiração (uma forma de revelação). E o aspecto da profecia (o caráter profético). Portanto, quando falo de dicotomia bíblica ou dualidade, falo da Bíblia analisada sob duas óticas:

A)   Aspecto literal/ histórico (o que chamamos de letra);

B)   Aspecto espiritual – profético (a Revelação do Cristo Vivo e da Trindade Santa nas Escrituras/ testificação e vivificação espiritual através da mensagem bíblica).

Esse primeiro aspecto que chamamos de “letra” tem em si – também – duas faces: uma positiva e uma negativa (a parte negativa se dá no mau uso da mesma). A “letra” nesse sentido (sentido positivo) não mata. Não se trata – agora – da “letra” mencionada por Paulo em 2 Coríntios 3: 6. Ali Paulo fala das exigências Lei que tendem a mostrar e acusar o pecado, ao contrário da ação do Espírito que convence do pecado e mostra a Vida (o Cristo Revelado é a Vida).  Mas a “letra” que empregamos aqui diz respeito ao conteúdo literal da Bíblia (das Escrituras). A Bíblia não mata. O conhecimento bíblico não mata. Talvez a ignorância mata! Para ver mais sobre esse tema de 2 Coríntios 3: 6, segue o link abaixo:



Esse aspecto literal é importante, pois dele tiramos máximas importantes e ensinamentos práticos e espirituais fundamentais para a autêntica vida cristã. O aspecto literal da Bíblia (letra) traz ensinos válidos e atuais em todas as áreas de nossa vida, como: juventude, namoro, casamento, vida matrimonial, ser pai, ser mãe, ser marido, ser esposa, ser servo, ser honesto, ser honrado, honrar, respeitar, orar, confiar em Deus, amar, trabalhar, trabalhar para Deus, como fazer, como não fazer, etc. O aspecto literal da Bíblia, portanto, não pode ser ignorado. Se ignorarmos baseados num falso ensinamento que “a letra mata” se referindo à Bíblia, cairemos num paradoxo totalmente sem sentido, pois teríamos que afirmar tão logo que Deus mesmo tem ignorado suas Palavras que dantes foram reveladas, estruturadas e canonizadas para nossa prática de fé. Esse, portanto, foi o aspecto positivo.

O aspecto negativo se dá no uso tendencioso das Escrituras para, talvez, justificar heresias, doutrinas humanas, dogmas diversos, costumes e conceitos variados. Disso nascem vãs filosofias e heresias que culminam numa terrível apostasia, ou seja: afastamento gradativo da Verdade (Jesus é essa Verdade). O engano doutrinário não testifica de Jesus, não revela o Cristo vivo e glorificado, pois é fruto de doutrinas humanas (ou diabólicas) e o Espírito Santo não está nisso. Outro aspecto negativo e também mais próximo da exortação de Paulo em 2 Coríntos 3: 6 é o legalismo muitas vezes instaurados por alguns grupos religiosos sectários e até mesmo históricos. Os grupos neopentecostais (mais modernos) costumam utilizar de versos isolados da Bíblia para justificar doutrinas, matando assim o projeto redentor de Deus através da obra do Espírito Santo. Dão-se, com isso, a vários experimentalismos estranhos e matam a fé genuína com seus fermentos que produzem imaturidade, negam a graça, falta de compromisso com o reino, inversão de valores (material ao invés do espiritual) e religiosidade. Já outros grupos (mais históricos) costumam ter uma ortodoxia extremamente zelosa. O zelo ortodoxo não é de todo ruim, mas ortodoxia sem vida para nada vale e pode também produzir morte espiritual. Podem ter Bíblia, podem ter uma excelente ortodoxia e liturgia, podem ter um ensino bíblico estruturadíssimo, mas se a Verdade Viva (Jesus Cristo) não for revelado pela ação do Espírito, a Palavra dita e ensinada não se tornará eficaz, pois Jesus precisa ser testificado, penetrando aos corações e gerando fé. Isso é vivificação pelo Espírito. Revelação nada mais é do que a manifestação do Cristo vivo no meio da congregação através da Palavra viva e da ação do Espírito santo. (observação: quando falamos aqui de “manifestação” não estamos falando de pseudo-manifestações espirituais como acontecem em algumas igrejas modernas, mas falamos da ação regeneradora, redentora, purificadora, iluminadora, inspiradora do Espírito santo e do convencimento do pecado instaurado por Ele em nossos depravados corações). IPalavra Revelada é bem mais que um conjunto de pregações cheias de alegorias, tipologias e analogias. É a exposição em espírito e no Espírito da verdade das Escrituras, testificando em suas letras de um Jesus que se revela (pela graça e pela nossa fé), gerando mais fé ao ouvinte e leitor das Escrituras. Podemos pregar, por exemplo, o clássico e conhecido João 3: 16 sem procurarmos “coisas ocultas” no versículo para dizermos assim que “a palavra foi revelada”. Não é esse o conceito real de Palavra Revelada. Palavra Revelada é a manifestação em graça da Verdade, ou seja, do Jesus Vivo, Glorificado e testificado pela mensagem bíblica lida, ouvida ou pregada. Palavra Revelada se dá quando o Espírito Santo revela ao nosso coração sedento por Deus algo específico naquilo que está sendo dito ou lido ou, também, quando o mesmo Espírito fala sobrenaturalmente ao nosso coração através do texto bíblico apresentado ou lido. Pois o Jesus vivo é testificado pela Palavra e quando é testificado, traz consigo sua benção (da eternidade), logo, revelação é a percepção de algo que dantes não víamos, mas pelo Espírito Santo, agora vemos. Exemplo: se a fé de uma determinada pessoa está titubeando e lhe é dada uma palavra sobre fé em qualquer texto bíblico que fale sobre isso, se houver a operação do Espírito santo, a fé, antes vacilante, será renovada, ou dada, ou acrescentada em espírito. Isso é vivificação pela Palavra, configurando assim uma “Palavra Revelada”. Algo, antes, fora do nosso alcance humano e racional, foi concedido ou acrescentado pelo espiritual.

Onde quer que seja pregado o evangelho no espírito e na Revelação de Jesus Cristo, é como se Deus viesse para o meio de nós. É certo que se vamos à igreja, não ouviremos apenas um homem mortal falando, mas sentiremos que Deus (por meio do seu poder secreto, mas revelado nas Escrituras) está falando à nossa alma; sentiremos que Ele é o professor. Não o homem! Deus nos chama para si como se estivesse falando-nos por sua própria boca e pudéssemos vê-lo ali, em pessoa. Isso é revelação!

“De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:17)


A autoridade espiritual e o aspecto profético da pregação da Palavra de Deus se fundamentam na comissão santa dada ao pregador de mostrar apenas o Cristo Vivo através de sua mensagem e nada dele mesmo. E depende da sua fidelidade à mensagem e à Verdade bíblica sem nenhuma alteração. Algumas passagens do Novo Testamento e a própria terminologia empregada indicam que, na qualidade de arauto, o pregador  da Palavra é um porta voz de Cristo, que sua pregação deve ser recebida como Palavra de Deus, e sua voz (quando em espírito e no Espírito Santo) equiparada à voz de Cristo. Deveriam esses textos [no caso, Mt 10.17;20; 28.20; 2 Co 2.17; e 1 Ts 2.9,13] ser interpretados como casos particulares, relacionados apenas à inspiração apostólica; ou em termos mais amplos, com relação à autoridade da pregação dos ministros da Palavra? Algumas passagens [no caso, Lc 10.16; Rm 10.14; e Hb 1.1-2; 2.1-3; 3.7,8,15; 4.7; 12.25; 13.7-8] parecem apontar para a segunda possibilidade. Temos uma responsabilidade em relação à Revelação de Jesus Cristo.

Vimos então os dois aspectos da Bíblia em seu caráter literal.

Voltemos, então, para o texto base João 6: 54:

No contexto da passagem bíblica em questão, vemos que vários discípulos e praticamente toda a multidão abandonava o discurso de Jesus e desciam fartos do alimento material (pão e peixe). O que isso mostra? Mostra que não entenderam a Revelação de Jesus Cristo e não discerniram o aspecto espiritual.  Não conseguiram enxergar o plano profético. Alguns estavam apegados apenas ao aspecto literal das Escrituras, mas não entendiam com o olhar da revelação que elas já testificavam daquele Jesus que ali pregava a vida. Em várias passagens veterotestamentárias (Antigo Testamento), Jesus foi testificado de forma quase explícita em alguns casos. Mas os olhos da carne não podem enxergar a luz da eternidade. Isso ocorre em perfeita harmonia com o contexto da graça soberana de Deus na eleição dos seus para a Vida. Pois, só podem entender a Revelação de Jesus Cristo e só podem conhecer esse Cristo vivo e glorificado (para além do Jesus histórico) aqueles a qual o Pai dá a conhecer. A Revelação de Jesus é um aspecto da graça e é pela graça que Jesus se revela. Portanto, esse negócio de ficar lendo a Bíblia em pedaços, procurando “revelação” não está certo. Devemos apenas ler a Palavra de Deus em espírito e em oração para que Deus se revele ali na Pessoa de Jesus Cristo na ação testificadora do Espírito Santo. Assim como não podemos forçar dons espirituais, não podemos alegorizar demais as Escrituras em nome da “revelação” e nem - com isso – deturpar o contexto bíblico em nome da perigosa expressão “além da letra”. “Além da letra” já foi instrumento para várias heresias no cristianismo ao longo da História da Igreja. Veja esse exemplo trágico nos grupos: Testemunhas de Jeová, Mórmons, Adventistas, e tantos outros que receberam “novas revelações” e deturparam alguns contextos bíblicos para sustentar tais heresias.

A mensagem bíblica quando é entendida e discernida espiritualmente ou, quando é pregada evidenciando a mensagem profética da cruz e quando há em intrínseca em si a presença da Trindade, ela produz fé e a fé produz vida no altar. Quem discerne espiritualmente o propósito divino nas Escrituras, não desce com a multidão e permanece aos pés de Cristo, pois o alimento espiritual produz vida com abundância, transformação e dependência de Deus.

“Então disse Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” (João 6:67-68).

Só Jesus tem as Palavras de Vida Eterna! Quando Ele (Jesus) é testificado nas Escrituras, é produzido em nosso ser o genuíno avivamento. A Palavra de Deus aviva a alma e produz fé. Ela abre nossa visão e, assim, passamos a andar na luz.

O conteúdo da Palavra Revelada é a Palavra de Vida Eterna. Quem é a Palavra? Jesus, o Verbo. Por qual Nome podemos entrar na Vida Eterna? No Nome de Jesus, a Palavra de Deus.

Toda a Bíblia revela essa verdade (de Gênesis a Apocalipse). Nela há implicitamente um projeto que tende a ser revelado pela ação remidora do Espírito Santo  (João 14: 26) “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”.

Em João 6: 54,Jesus fala de seu Corpo (carne). Interessante que Corpo fala da presença. A Igreja é o Corpo de Cristo. Ela é a presença de Cristo na terra. Jesus este presente em todas as páginas do Antigo Testamento. Os eruditos não conseguem discernir sua presença na mera interpretação literal das Escrituras e, talvez, nem por alegorias e tipologias. Apenas a ação do Espírito Santo dá a conhecer o Deus vivo da Palavra e, assim, testifica de Jesus Cristo.

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (João 5:39).

Outra citação importante e interessante de Jesus foi o Sangue. O Sangue é outra figura (símbolo) que percorre toda a Bíblia (de gênesis a Apocalipse)  que, da mesma forma, revela um projeto implícito, porém explicitado pelo mesmo Espírito Santo. A Bíblia, ao mesmo tempo, é implícita em relação a esse projeto de redenção e explícita, pois com os olhos espirituais podemos enxergar em suas letras o propósito da graça e soberania de Deus.

Aliás, CORPO e SANGUE são as bases da sã doutrina de Jesus Cristo. Na ceia (última ceia de Jesus com seus apóstolos), Jesus evidenciou novamente esses dois aspectos básicos de sua doutrina: Corpo (pão) e Sangue (vinho). A base doutrinária da Nova Aliança é o Corpo e o Sangue. O Corpo aponta para a presença viva de Jesus na terra através da Igreja (onde Ele é o Cabeça) e a vida dessa Igreja se dá pela presença do Sangue percorrendo seu Corpo, ou seja, pela ação constante da obra redentora, remidora, restauradora e santificadora do Espírito Santo.

Portanto, entender esses aspectos que estão diretamente ligados à vida da Igreja, é fundamental. Por isso precisamos entender melhor o conceito de Revelação, sabendo que a mesma nada mais é que a manifestação (pela Palavra na ação do Espírito santo) do Cristo Vivo e Glorificado que: a) dirige a igreja;  b) fala a Igreja; c) exorta a Igreja; d) purifica a Igreja; e) acusa o pecado; f) dá esperança a Igreja; g) prepara a Igreja para sua missão; h) prepara a Igreja para sua vinda (veja em Apocalipse, capítulos 1, 2 e 3). Toda essa ação resultante da presença viva de Cristo na Igreja se dá pela operação dinâmica do Espírito Santo (o que revela Cristo a igreja). Estando fundamentada na Revelação de Jesus Cristo (cujo único manual de fé e prática é a Bíblia e nada mais), a Igreja também revela Jesus ao mundo.
Já sabemos que Jesus é, então,  o clímax da revelação de Deus: "Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer" (Jo 1.18). Jesus é a maior revelação de Deus e, todas as outras inspirações e revelações de Deus aos homens por parte do Criador, eram para mostrar Jesus. A finalidade da revelação é tornar Deus conhecido dos homens.

Para isso, as Palavras do Deus espiritualmente e intelectualmente superior à razão dos homens devem ser mostradas pelo Espírito Santo, aquele que “vos ensinará todas as coisas”. Veja em João 17 que a função do mesmo Espírito Santo é dar ao mundo (através da Igreja) o conhecimento de Deus. Isso configura um caráter explicitamente espiritual e será pela revelação do Espírito Santo que tal conhecimento pode chegar aos homens distantes de Deus.

O homem que será salvo, segundo a Palavra de Deus, é aquele que crê no Cristo ressuscitado e, considerando que Cristo é o conteúdo central da Bíblia, esse Cristo irá se revelar por meio da fé do leitor na Palavra, corroborando com a afirmação de que a fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus, ou seja, a voz do Criador revelada na pessoa do Senhor Jesus. O trabalho para o convencimento do leitor (pela fé – dom de Deus) que Cristo é a salvação é obra exclusiva do Espírito Santo. Portanto, o ato do Espírito divino mostrar e convencer o homem sobre a salvação em Cristo é um ato “revelador”, portando a Bíblia revela o pleno salvífico de Deus. O poder que existe na Palavra de Deus não está simplesmente no papel, mas está na vivificação do Espírito Santo que, pelas Escrituras, convence o homem de seu pecado e o leva para a genuína conversão. Essa é a minha perspectiva a respeito da “revelação”. Não estamos falando aqui que existe algo “a mais” nas Escrituras que precisa vir à tona, mas sim que existe a possibilidade de Deus (que é vivo) falar de forma íntima pela Escritura. Isso configura uma “revelação”. As Escrituras têm autoridade espiritual quando são regidas pelo poder do Espírito Santo. Elas são suficientes e nada pode ser acrescentado, pois toda a Bíblia cont´pem em suas páginas o que a Igreja precisa conhecer para a salvação e para sua missão. Basta buscar o auxílio do Espírito Santo.
 A salvação em Jesus Cristo se dá pelo encontro pessoal com o mesmo. Mas como se o mesmo subiu ao céu? Dá-se agora pela revelação do cristo glorificado pela Palavra de Deus cuja ação para convencimento é obra genuína do Espírito Santo.

Agora veremos uma explanação sobre o assunto no segundo texto base (Mateus 16: 16 a 18) na análise da Razão Humana e Revelação.

“E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”

Quando Jesus pergunta aos seus discípulos “que dizem os homens quem sou?” (v. 13), Ele, na verdade, pouco se importava com que os outros diziam. Ele era conhecedor do depravado coração humano. Ele, de fato, queria despertar a fé em seus discípulos.

Uns, no entanto, diziam que Jesus era algum profeta, pois o ensino literal e meramente racional das Escrituras permitia apenas eles pensarem isso, pois, talvez, para esses, Jesus era mais um profeta enviado. Ainda mais num contexto espiritual como aquele vivido pela sociedade judaica naquele tempo. Jesus poderia ser mais um Elias, um João Batista, um Jeremias, etc. Por quê? Pois a base literal das Escrituras sob uma análise meramente racional permitia uma certa comparação do homem Jesus, o conteúdo de sua pregação e postura com tais nomes.

Mas ao perguntar diretamente aos seus discípulos quem Ele, de fato, era, Pedro toma a voz e diz em espírito: “Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo” (v.16). Logo, Jesus dá a aprovação da palavra dada em espírito e pelo Espírito Santo.

O que isso ensina?

Isso ensina o seguinte: aquilo que diz respeito ao conteúdo profético das Escrituras só pode ser mostrado pela ação inspiradora e reveladora do Espírito Santo. Por quê? Porque no coração humano há engano e pecado. Somos naturalmente incapazes de enxergarmos a Luz da Revelação de Deus com nossos esforços próprios. Isso é um princípio e fundamento da doutrina da graça onde cremos que: Deus é quem se revela a nós pelo seu Santo Espírito por graça e misericórdia. Nossa razão é diferenciada. Destacamos-nos dos demais animais exatamente pela posse da razão pelo uso da integibilidade. No entanto, nas questões relativas à fé e à espiritualidade, somos plenamente incapazes de conhecer por nós mesmos a Deus. Nisso o filósofo prussiano de origem protestante, Immanuel Kant tinha razão: nossa pura razão é incapaz de conhecer o Transcendente. Ela é, portanto, limitada. Assim, abre-se, tão logo, uma possibilidade para a fé.
Só a fé, então, pode conhecer a Deus. A fé é o princípio e fundamento onde Cristo dá-se a conhecer pelas Escrituras. Muitos têm Bíblia mas não têm a fé. Alguns têm a fé e manuseiam a Bíblia com fé e entrega pessoal e ouvem a voz de Deus.

Não foi Pedro na sua limitada razão que descobriu através de métodos e experimentos científicos ou lançando mão de uma boa hermenêutica bíblica que Jesus era o Cristo, Filho de Deus, mas foi a ação genuína do Espírito Santo que o mostrou a Verdade das Escrituras. Ou seja, Pedro disse uma verdade implícita em todas as páginas da Lei e dos Profetas que os tantos doutores não haviam discernido.

Logicamente, não significa que devemos estar totalmente desprovidos de razão. Revelação de Jesus não é uma espécie de “transe espiritual” onde ficamos totalmente desligados da realidade do mundo. Não! A Revelação espiritual e a fé comunicam com nosso psíquico e a Verdade divina é recebida pela abertura transcendental de nosso espírito. Lembramos que a antropologia bíblica se baseia na tricotomia Corpo, Alma e Espírito (1 Ts 5: 23). Portanto, nosso corpo carnal (grego = somma) é regido pelo aspecto psíquico (onde se insere a razão/ psique = alma vivente) que é aberta às novas realidades (inclusive à realidade e Verdade da fé) pelo espírito (pneuma = sopro = espírito). Assim, Deus (que é Espírito) se comunica ao espírito humano que, tão logo, afeta a razão humana (psique = alma/ mente/ inteligência/ razão) e toma conta da mesma. Assim, pela Revelação, o homem passa a viver em espírito, segundo o Espírito divino. Sua inteligência e razão não são anuladas, mas se tornam instrumentos para a compreensão das coisas espirituais.
Lendo as Escrituras, podemos conhecer o Maravilhoso Jesus histórico e nos impressionar com seus atos, seu amor e até mesmo tomar uma decisão de seguir seus caminhos. Isso é possível na medida em que a Verdade das Escrituras é conhecida e penetra a alma pela intervenção espiritual. Mas era pela Revelação de Jesus Cristo, ou seja, pela experiência pessoal com Jesus que esse poderá, enfim, conhecer a Cristo e se definir por completo, ouvir sua voz e realizar seu projeto. Por que assim? Porque isso é obra da soberania e graça de Deus. Deus é quem se dá a conhecer ao eleito. Assim, Ele é quem providencia a ação reveladora do espírito Santo para a redenção.

“Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” (Mateus 16:17).

É na Verdade das Escrituras que a Igreja deve estar fundamentada. Não há outro fundamento a não ser o fundamento da Palavra. Qual é a principal testificação da Palavra? Quem é o clímax da revelação de Deus? Jesus Cristo! Portanto, a Igreja deve estar fundamentada nos Cristo revelado pelas Escrituras.

“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18).

Estamos fundamentados nessa Revelação, a saber, Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo.

A Palavra, portanto, precisa ser lida e pregada mostrando sempre a Pessoa glorificada de Jesus Cristo. Só assim Jesus se manifestará em Espírito e falará à congregação. Nossas mensagens precisam ser cristocêntricas. Nada de nós e tudo de Cristo!

A Palavra precisa ser entendida. Precisamos ler, precisamos estudar. Não podemos ser ignorantes, tampouco analfabetos em relação à Bíblia.  Atentar para o exame e estudo das Escrituras é buscar o conhecimento da graça e o conhecimento intelectual e, assim, colocar a nossa razão a serviço da fé.

A Palavra de Deus e o crescimento na GRAÇA  e no CONHECIMENTO de Jesus Cristo (para concluir)

"Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém." (2 Pedro 3:18)

A Bíblia é, portanto, um importante meio de graça, ela é fundamentalmente um "recurso oriundo da graça". Ler a Bíblia é muito mais que uma simples leitura. Ler a Bíblia em espírito e em oração é abrir-se à transcendência pela Revelação de Jesus Cristo nela contida. É ouvir o que o Espírito Santo quer dizer e, efetivamente, ouvir a voz de Deus. O que busca o conhecimento agrada a Deus. Assim, vamos crescendo na graça, ou seja, naquilo que é da fé e naquilo que é do Espírito (aspecto espiritual) e também vamos crescendo em conhecimento. O termo grego usado no original por Pedro em sua carta para definir "conhecimento" foi "gnosis" que, exatamente, quer dizer "conhecimento", "intelectual". Ele não falava do dom espiritual descrito por Paulo em 1 Coríntios 12, embora lá também Paulo use a mesma expressão "gnosis" que significa "conhecimento" ligado ao termo "intelecto". Então Pedro diz em sua carta que precisamos crescer em graça (no aspecto espiritual) e em inteligência (razão a serviço da fé) para que assim sejamos firmes em ambos os aspectos. A fé é um dom de Deus (ela é doada por Deus/ oriunda da Eternidade). No entanto, o crescimento da mesma se dá em nossa constante busca de conhecimento, cuja referência principal para tal conhecimento é a Bíblia, a Palavra de Deus. O conhecimento promove a fé e o coração cheio de fé é o que está, de fato, apto para receber a revelação de Jesus Cristo, a saber, o Cristo vivo e glorificado que se revela pela Palavra.

A fé vem pela Palavra de Deus, O genuíno avivamento vem pela Palavra de Deus, todo dom espiritual ou toda manifestação supostamente espiritual deve estar submissa a verdade das Escrituras e deve passar pelo crivo da mesma, senão é engano. A regra de fé e prática da igreja que pretende ser fiel (eu e você) é a Palavra de Deus, nada mais.... Nada menos... Devemos prosseguir em conhecer ao Senhor e a base de todo o conhecimento de seu projeto de redenção está na Bíblia. Cresçamos em graça (naquilo que é espiritual) e cresçamos em conhecimento (naquilo que é intelectual). Jesus morreu e ressuscitou para limpar-nos de nossos pecados e não para tirar a nossa inteligência. Nossa inteligência, razão e intelectualidade devem estar submissas ao espiritual e devem ser servas da fé e da Revelação de Jesus Cristo. Devemos sim estudar a Bíblia. Conforme vimos acima, quando Paulo fala da "letra" em 2 Coríntios 3: 6, ele não fala do ensino literal da Bíblia, mas sim das exigências da Lei. Devemos conhecer todo o contexto e não apenas apegarmos a versículos isolados. É perigoso! Isso sim mata... Mas Paulo (servo de Deus que nunca ignorou o conhecimento) estava dizendo ali que a "letra" (Lei) mostra o pecado, portanto, "mata", mas o Espírito Santo mostra a vida, portanto, "vivifica". Simples, não é? 

Há ensinamentos na Bíblia que não precisam de alegorizações e busca por algo oculto, pois já estão explicitadas e nos servem como máximas a serem seguidas (pela fé). A Bíblia carrega inúmeros ensinamentos práticos para a vida cristã, para a nossa salvação individual, para nossa prática e fé, para o serviço na igreja, para a missão da igreja, para a família, para o lar, para os pais, para os filhos, para os casamentos, para a vida estudantil, para a vida ministerial, para a santificação, etc. Todos esses ensinamentos estão explícitos na Palavra de Deus e já estão revelados, pois são já a revelação de Deus para os seus servos. Temos que ler, temos que buscar praticá-los, temos que aprende-los e ensiná-los. Assim até a volta de Jesus!

Conheço muitos crentes medíocres que ignoram o conhecimento dizendo que é "razão" e que "a letra mata....etc." e preferem, assim, 'autolimitarem'. Tudo bem, ninguém precisa estudar uma teologia sistemática ou coisa parecida, aliás, não é disso que estamos falando. Conhecimento acadêmico é ouras coisa. Alguns até podem ser perigosos sim. Deus não se interessa por teólogos ou "acadêmicos da fé", mas sim de servos humildes que, em sua humildade e fé, buscam conhecer a Deus e se aprofundar nos assuntos relativos à fé. Isso é nobreza espiritual.

Não fomos chamados para a ignorância, aliás, devemos em todo o tempo prestar o nosso culto racional. Jesus ia cumprir na cruz toda a Lei, mas antes, cresceu em graça e conhecimento e vivia no meio dos doutores. Era sábio. Deus nos dá a sabedoria para aplicá-la a serviço do espiritual (do Reino), no entanto, devemos buscar aprofundarmos em conhecimento sim e não sermos medíocres e apenas para repetir o que ouvimos.

"Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém." (2 Pedro 3:18)

"Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor..." (Oséias 6:3)

"Porque a sabedoria serve de defesa, como de defesa serve o dinheiro; mas a excelência do conhecimento é que a sabedoria dá vida ao seu possuidor" (Eclesiastes 7:12)

Ler a Bíblia, buscar o conhecimento da glória de Deus e ter em suas letras a Revelação de Jesus é encontrar vida, é encontrar avivamento. Assim, configura-se a Palavra Revelada.


Gabriel Felipe M. Rocha