Lendo as Escrituras
"Por isso, quando ledes, podeis perceber a
minha compreensão do mistério de Cristo" (Ef 3.4).
Nosso texto de hoje
possui íntima ligação com o versículo seguinte, o qual expressa:
"O qual noutros séculos não foi manifestado
aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus
santos apóstolos e profetas" (Ef 3.5).
Lembramos que,
originalmente, a Bíblia não fora separada em capítulos e
versículos, de modo que usamos estas divisões simplesmente por facilitar a
localização. Desse modo, ninguém deve ler a Bíblia como se fosse o intento de
Deus nos deixar "fragmentos" ou versículos isolados, textos que geram
pretextos, etc. afinal, tal qual como corriqueiramente encontramos em livros, a
leitura deve ser completa e una, a fim de não entendermos de maneira errada a
mensagem bíblica.
Paulo escreve para os crentes em Éfeso que ao lerem
a carta em questão, poderiam compreender que nela havia o conhecimento do
mistério de Cristo. Podemos ver sobre este mistério em Efésios 1.9, quando
Paulo reafirma que Deus teve por bem revelar as coisas que permaneceram ocultas
nos tempos passados. Este entendimento das coisas do Reino só poderia surgir de
uma grande revelação recebida por Paulo, conforme ele mesmo já deixou
registrado (Ef 1.17).
Devemos entender corretamente um precioso detalhe:
o que devemos conhecer "do mistério de Cristo"? Tal mistério não diz
respeito há algo indecifrável, e sim à revelação de Deus, que é o próprio Cristo.
Paulo registra que ao lerem sua carta, os cristãos poderiam perceber que nela
havia grande conhecimento da pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus e Salvador
de todos os eleitos. Aqueles cristãos teriam uma carta repleta de abundante
sabedoria vinda de Deus, a qual explicitava a pessoa de Cristo e tudo que Ele
fizera pelos judeus e gentios, de forma que os gentios não deveriam a ler como
sendo palavras de homens, mas, sim, buscando encontrar o Cristo nela contida.
Mas o fato é que a Bíblia carrega em si um conteúdo espiritual (ou
profético no sentido real da Palavra). Por que a Bíblia é profética ou tem um
conteúdo profético?
Ela é profética, pois chama o homem de volta a Deus e aponta o caminho.
Basicamente podemos defini-la assim. Partindo desses dois pólos, Jesus é o
caminho que leva o homem de volta a Deus. Isso corrobora com o fato de que a
Bíblia tem um conteúdo profético, pois ela, não só no N.T., testifica do Cristo
Vivo e o ato de entender ou encontrar Cristo pelas escrituras é pela Revelação
e auxílio do Espírito Santo, o que revela Jesus Cristo à Igreja. Nessa
perspectiva, temos o real 'avivamento' que é exatamente a volta para Deus e
para sua Palavra. Como disse certa vez Luiz Sayão, o verdadeiro avivamento leva
o crente a Deus e o faz desejar conhecer mais sobre a Palavra de Deus, pois o
conteúdo do avivamento é espiritual e, se leva o crente para as Escrituras, se dá
porque ela - a Escritura - é espiritual.
Qual foi o ato de Cristo na cruz que pôde reconciliar o homem com Deus? Foi seu
sacrifício e sangue derramado (veja que o sangue percorre todo o conteúdo da
Bíblia, do primeiro livro ao último). Logo, esse sangue é símbolo do que é a
obra do Espírito Santo na vida do crente e no seio da Igreja: levar o homem de
volta a Deus, de volta a VIDA.
O versículo que está separado para esta análise
(Ef. 3:4) nos ensina três coisas de vital importância para nossa vida
espiritual: Devemos ler a Escritura; Devemos perceber algo divino; A quem
buscamos compreender?
Devemos ler
a Escritura - "Por
isso, quando ledes"
Freqüentemente temos visto como a leitura da
Palavra de Deus tem sido negligenciada pelos cristãos. Muitíssimos têm
preferido revelações EXTRA-BÍBLICAS além do que a Palavra prescreve. Não que
Deus possa iluminar e ensinar espiritualmente sobre sua Palavra e mostrar algum
mistério, mas isso deve ser feito com cuidado, respeitando os limites traçados
pela Palavra de Deus. Encarando os fatos de modo sincero, podemos dizer que
todo aquele que não se satisfaz com o que o Senhor nos deixou legado, ainda não
amou a Cristo com completa inteireza de coração. Buscar uma revelação além da
Escritura ou que venha ferir a sã doutrina de Cristo é ultrajar a Deus e
afirmar que Ele nos deixou um conhecimento incompleto, de maneira que
precisamos, supostamente, ir a homens para obter uma maior graça. Certamente
que não estamos a invalidar os ensinamentos e dons que o Senhor distribuiu aos
cristãos, como no caso de mestres e presbíteros, os quais "velam
por vossas almas" (Hb 13.17). E nem estamos falando que a
Escritura não pode ser discernida espiritualmente ou que Deus não possa
revelar, iluminar e ensinar algo, porém quando Ele assim o faz, Ele não volta
jamais contra sua própria Palavra, sendo assim todo dom espiritual ou toda
iluminação espiritual deve ser feita tendo a Palavra de Deus como base. Jamais
podemos, entretanto, advogar novas revelações aos homens no que tange à
administração da Palavra e em matéria de salvação, pois firmemente lemos que só
é lícito praticar e ordenar as coisas prescritas (Dt 12.32). Reforçamos, ainda,
que o Espírito Santo é livre para agir da maneira como lhe convém (Jo 3.8), de
maneira que não estamos afirmando que o Ele não mais age em nosso meio; pelo
contrário, afirmamos que Ele está firmemente presente em Sua Igreja, aperfeiçoa
a mesma para triunfar com Cristo e é plenamente ativo, se limitando, apenas, a agir
de acordo com o que foi revelado em Sua Palavra, isto é, porque o Senhor não
pode mentir e nem se contradizer (Tg 1.17), jamais agirá contrariamente ao que
nos deixou para o ensino (2Tm 3.16-17).
As consequências de não se conhecer a Bíblia são
graves e os homens constantemente a distorcem por não a conhecerem. O Senhor
afirma que o desconhecimento de Sua Palavra é a causa de entendimentos
errôneos. Por exemplo, quando o Mestre foi inquirido acerca de quem estaria
eternamente unido com a viúva que se casou com seus cunhados, respondeu aos
saduceus, os quais não criam na ressurreição (Mt 22.23): "Errais, não
conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus" (Mt 22.29). Noutro lugar,
afirmou sobre a acusação de Seus discípulos não lavarem as mãos antes das refeições
(Mt 15.2), demonstrando cristalinamente que a adoração daqueles escribas e
fariseus (Mt 15.1) era falsa e não recebida por Deus: "Este povo se
aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração
está longe de mim. Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos
dos homens" (Mt 15.8-9).
Observemos como o Senhor usa de uma expressão
precisa para aqueles que com sua boca o professam, mas na realidade sequer o
conhecem: "em vão me adoram". A palavra traduzida por "vão"
é deveras incisiva, significando uma ideia através da tentativa de manipulação,
ou seja, uma busca sem sucesso, ou então de punição. O que Cristo diz é que se
alguém se achega a Ele simplesmente dizendo fazer parte de Sua família, quando
não possui o correto conhecimento de Deus, pois o "seu coração está longe
de mim", acaba por adorar sem qualquer sucesso em ter acesso a Deus, pois
o que estão a realizar "são preceitos dos homens".
Tal ensinamento deve nos levar à reflexão se o que
temos pensado acerca de Deus e de tudo o que foi criado, é de fato vindo da
Palavra de Deus. Noutras palavras, devemos olhar para nossos pressupostos
internos e refletir sobre como temos encarado o mundo, a fim de verificar se
estamos como que olhando com as lentes de Deus. Isto foi dito pelo apóstolo,
quando afirmou: "nós temos a mente de Cristo" (1Co
2.16).
Como alguns professos da fé cristã podem afirmar
ter a mente de Cristo, ou seja, enxergarem o mundo e nele viverem como o
próprio Cristo, se os tais não meditam dia e noite nas Escrituras (Sl 1.2)?
Para agravar ainda mais a situação destes miseráveis homens, quando afirmam ser
cristãos, mas não leem a Escritura e sequer se deleitam na Lei de Deus, acabam
por ferir o terceiro mandamento: "Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em
vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão"
(Êx 20.7). Tal mandamento possui, dentre outras nuances, o condão de levar os
homens a não professarem terem o Senhor como seu Salvador, se assim não vivem;
também faz com que os homens refreiem suas atitudes, afinal, carregam o bom
nome de Cristo consigo - "vale mais ter um bom nome do que muitas
riquezas" (Pv 22.1).
A única maneira de entendermos a vida cristã será
mediante a firme leitura. Poderíamos exemplificar com a falsa noção de céu que
por vezes acabamos nutrindo. Ora, no que consiste o céu? Quer dizer, o que
haverá no céu de mais excelso? Não há qualquer erro em dizer que ele será um
lugar de bem aventuranças eternas, onde "Deus limpará de seus olhos toda a
lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor" (Ap
21.4). Todavia, notemos qual o fundamento da vida eterna: "E a vida eterna
é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo,
a quem enviaste" (Jo 17.3). A exclusão das lágrimas, choro e dores, não é
o a essência do céu; a essência será o conhecer o único e verdadeiro Deus, de
maneira infinitamente mais bela e perfeita do que o podemos conhecer nesta
terra!
Devemos perceber algo divino - "podeis
perceber"
Quando lemos a Escritura é preciso ter um senso do
que estamos lendo. A expressão bíblica "podeis perceber", poder-se-ia
se traduzir, para nós, em forma de pergunta: o que temos percebido? Ou: temos
percebido que ela transcende a humanidade? Temos percebido o que o Espírito
está revelando? Temos conhecido o projeto divino? Ao abrirmos a Escritura,
buscamos enxergar algo além da casca da letra? Quando lemos o Pentateuco, isto
é, os cinco primeiros livros da Bíblia, o "compêndio da Lei de Deus",
enxergamos a bondade, beleza, suavidade e misericórdia de Deus em Jesus Cristo?
Quando lemos os provérbios escritos por Salomão, entendemos que a sabedoria é
como que o próprio Cristo personificado? Quando lemos Cantares, entendemos quão
grande é o amor de Cristo por sua Igreja?
Como cristãos, é necessário averiguar o que diz a
Escritura: "podeis perceber". O tempo da sentença não diz respeito a
"poderão" ou "poderiam", mas, sim, "podeis".
Mostra uma possessão que nos é possível. Mas possível como se somos pecadores e
espiritualmente limitados em relação à grandeza do Criador? Podemos perceber
pelo Espírito Santo! Compreender a divindade das palavras registradas (2Tm
3.16-17) é algo possível e deve ser buscado por todos os filhos do Senhor. Em
nossa responsabilidade, devemos rogar ao Senhor para que nos agracie com o
correto entendimento de Sua Palavra, pois quantas são as vezes que nos
achegamos à Escritura de modo leviano, displicente, sem praticarmos o nosso
culto racional (Rm 12.1), isto é, com entendimento do que estamos realizando?
Precisamos ler a Escritura e termos nossos corações
impactados. A leitura bíblica individual deve transformar a vida interior e as
atitudes exteriores. Quando isto acontece, não raro é fruto de nossa má
compreensão sobre a que as palavras de Deus são a verdadeira comida e bebida. A
necessidade imperiosa é buscarmos ler Escritura de modo a poder a manejar
corretamente. Porque vivemos em uma época de facilidades e automatismos,
lamentavelmente transpomos este conceito para a vida de cristã, como se a
leitura bíblica, por si só, como um dever, fosse trazer todos os benefícios do
Espírito Santo. Aliás, ela é um dos recursos da graça divina e está no mesmo
patamar da oração.
A quem
buscamos compreender - "a
minha compreensão do mistério de Cristo"
Devemos
buscar somente a Cristo. Ele é o princípio e o fim. Seu Nome está implícito e
explícito de Gênesis a Apocalipse e a marca de seu sacrifício (se Sangue
precioso) acompanha toda a Escritura. Vemos aí o mistério de Cristo!
A Escritura sem Cristo não possui valor: "Examinais
as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de
mim testificam" (Jo 5.39 - grifo meu). Se não buscamos
encontrar Cristo em cada pormenor da revelação de Deus, então estamos a lendo
somente para proveito egoísta, como se fora uma livro de agradáveis pensamentos
e norteador de boas ações. Se Cristo não estiver não estiver em preeminência em
nossa vida cristã e em especial quando lemos a Palavra, então há de muito
errado conosco.
É necessário recordar que Ele é a fonte da água da
vida: "aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a
água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida
eterna" (Jo 4.14). Não homem que vá com sede à Palavra e retorne
dela sem ter sido saciado. Não obstante esta realidade, devido ao pecado,
inúmeras vezes os cristãos se dirigem à Escritura e em vez de voltarem
"com alegria, trazendo consigo os seus molhos" (Sl 126.6), não se
visualizam qualquer mudança em suas mentes e corações. Isto acontece porque não
a lemos de maneira convicta e olhando para o trono da graça. Somos ávidos por
Suas bênçãos, mas não desejamos Suas admoestações; cremos em Seu poder
salvífico, mas não em sua santificação; O louvamos pelo poder criador, mas nos
esquecemos da mão sustentadora.
Não fosse Cristo, nada existiria, pois a Escritura
também atribui a criação ao Filho: "Todas as coisas foram feitas por ele,
e sem ele nada do que foi feito se fez" (Jo 1.3). Tão grandiosa é a obra
de Cristo, que o Reino é comparado ao mais excelente tesouro: "Também o
reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem
achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra
aquele campo" (Mt 13.44). Anotemos a importância de vender tudo o que
se tem, para comprar o preciso campo - assim devemos ir até a Escritura,
deixando, como o homem que fora curado e que abandonou a sua capa que o impedia
de correr (Mc 10.50), todo o embaraço e passando a procurar por Cristo Jesus,
porque temos a promessa: "E buscar-me-eis, e me achareis, quando me
buscardes com todo o vosso coração" (Jr 29.13).
Muitos,
infelizmente têm buscado viver de experimentalismos e “novas revelações”. Isso
é perigoso. Não podemos deturpar o verdadeiro e sadio sentido do termo “Palavra
revelada”. Nosso foco, na verdade, é mostrar o que de fato é "revelação
bíblica", pois vemos em muitas igrejas certa deturpação, exagero e mau uso
do termo "revelação", dando assim brechas (talvez intencionais) para
chover sobre a igreja "novas revelações doutrinárias". A
heresia cavalga aí. Contudo, reconhecemos aqui que há um conteúdo espiritual
na Bíblia e seu caráter é 'profético' (como expliquei acima), conteúdo esse que
continua sendo iluminado ao crente pela ação do Espírito Santo, pois o Cristo
na qual a Bíblia testifica continua vivo, glorificado e falando de seus
mistérios e, para reforçar nossa posição, Ele nunca vai contra si
mesmo, ou seja, a iluminação espiritual jamais vai ou pode ir contra o já
revelado por Deus na sua Santa e Viva Palavra.
Se formos para a Escritura buscando encontrar
qualquer coisa que não seja Cristo (moralidade, civilidade, bons costumes,
preceitos, conselhos, narrativas interessantes), então estamos errando em nosso
o alvo. Devemos fazer como prescreve a Palavra de Deus:
"prossigo
para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus" (Fp
3.12).
Sejamos agraciados, segundo a boa medida com que o
Senhor intenta nos abençoar, a buscarmos ao Senhor somente em Sua palavra.
Texto escrito em referência ao sermão pregado em 01/09/2013 de Felipe Machado (Igreja Cristã Reformada de Blumenau)
Reescrita, adaptação e acréscimos de conteúdo de Gabriel Felipe M. Rocha*.
Gabriel Felipe M. Rocha.
Graduado em História
(licenciatura e bacharelado);
Pós graduado em
Sociologia (lato sensu);
Mestrando em Filosofia
(stricto sensu) – Área de concentração: Antropologia e Ética;
Bacharel em Teologia (ênfase em História da Igreja).
Pois bem, já que nosso assunto nesta postagem foi a Escritura, deixo aqui algumas imagens de uma sensacional exposição de Bíblias históricas, inclusive uma Bíblia copiada após a Reforma e lançada por Martinho Lutero. Dentre as tais, esteve também um manuscrito - em pergaminho - contendo parte do Evangelho de Lucas (foi marcante). Tive a honra de visitar tais acervos e deixo aqui alguns registros. As peças vieram de alguns museus da Europa. A exposição foi no mês de setembro na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, onde curso meu mestrado acadêmico em Filosofia (área de estudo: Ética). A Faje-BH é uma das mais conceituadas faculdades de Filosofia e Teologia do Brasil, inclusive é líder e tem reconhecimento internacional. Segue as imagens:
As Bíblias:
Parte do Evangelho de Lucas.
Ao lado de uma das Bíblias em exposição.
(última foto) Na sala de estudos bíblicos em minha casa.